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domingo, 24 de junho de 2012

Por que "nuclear" assusta tanto?

Em artigo, o assistente da presidência da Eletronuclear, Leonam dos Santos Guimarães, desmistifica alguns preconceitos contra a energia nuclear. 

Por Leonam dos Santos Guimarães*
 

Diga isso em voz alta: NUCLEAR. Como você se sente? Muitas pessoas têm associações negativas com a palavra, sentimentos que foram amplificados desde que um terremoto e um tsunami de severidade inusitada atingiram as usinas da Central de Fukushima Daiichi, no Japão, dia 11 de março de 2011.

As autoridades de saúde continuam a enfatizar que os níveis de radioatividade não vão chegar a prejudicar a saúde humana. Foram traços que não constituem motivos de preocupação.

Se não há perigo real, por que o medo? As pessoas geralmente pensam sobre risco do ponto de vista emocional, não de uma avaliação racional. Veja como você realmente pode calcular o risco: multiplique a probabilidade de evento indesejado pela gravidade de sua consequência. Mas, se você pedir às pessoas para avaliar riscos, certamente esse cálculo não funcionará. Elas responderão com sua intuição. Uma alta porcentagem das pessoas associa usinas nucleares a armas nucleares. Essa associação ainda está no coração e mentes e condicionam as reações à geração elétrica nuclear.

Alguns dizem que nossa aversão à energia nuclear vai mais longe do que isso. A forma como pensamos sobre a energia nuclear tem raízes anteriores à descoberta da radioatividade em 1896. os alquimistas medievais, por exemplo, estavam interessados em transmutação, que se define como o renascimento através da destruição. Ideias sobre a transmutação e cenários apocalípticos se reuniram em torno do potencial da radiação, percebida como perigosa demais.

Alquimistas medievais

Na década de 1930, a maioria das pessoas associava a radioatividade com raios estranhos que podiam causar uma morte horrenda ou o milagre de uma nova vida, com cientistas loucos e seus montros ambíguos, com segredos cósmicos da morte ou da vida, com uma futura Idade do Ouro, talvez alcançada apenas por meio de um apocalipse e com armas potentes o suficiente para destruir o mundo.

Ressonância Nuclear Magnética
Hoje, as pessoas são submetidas regularmente a procedimentos diagnósticos chamados de "ressonância magnética", mas a técnica foi originalmente chamada de "ressonância nuclear magnética", com o primeiro testes com seres humanos feiots na década de 1970. Mas, por causa das más associações, ninguém queria entrar em ma máquina chamada "nuclear", e assim o nome foi alterado.

Diversos estudos internacionais mostram que, na indústria de geração elétrica, a nuclear é aquela que provoca o menor número de mortes por quilowatt-hora produzido. Aqui estão alguns números reais: 10.000 mil pessoas terão morrido de câncer resultante de Chernobyl, o maior acidente nuclear do mundo, de acordo com algumas estimativas bastante pessimistas. Só que a poluição das usinas a carvão causa um número bem maior de mortes a cada ano. Mas, estams falando de uma forma invisível de morrer mais cedo - por câncer, em Chernobyl - versus outra forma: a poluição do ar por partículas finas.

Em Fukushima Daiichi ninguém morreu por doenças decorrentes da radiação, mas o número de mortos decorrentes dos efeitos do terremoto e tsunami foi maior que 16.000 pessoas. Ao invés do nos preocuparmos com traços de radioatividade que são eventualmente encontrados em diversos locais do mundo, porque são muitos fáceis de medir, seria mais importante nos mobilizarmos para ajudar as vítimas do tsunami e do terremoto.

A familiraridade com o risco é parte fundamental da sua percepção. Algo que é relativamente desconhecido pra você vai parecer mais perigoso do que algo que você já se expôs anteriormente. E a geração elétrica nuclear e seu funcionamento não são temas com os quais as pessoas estejam familiarizadas.

Isso explica porque é nas comunidades mais próximas das usinas nucleares que se encontram os altos níveis de aceitação, decorrentes da convivência e maior conhecimento, que fazem com que a percepção dos riscos seja mais realista, mas também por uma percepção mais clara dos benefícios associados.

Curiosamente, a radiação deveria ser familiar a todos, já que está em toda parte. A radiação está em torno do nós, vinda do Sol, do espaço e de outras fontes naturais na própria Terra. E ele é empregada rotineiramente em procedimentos médicos, como raios-X e tratamentos de câncer. Mas a consciência de que a radiação pode levar à temida consequência de câncer nos faz sentir mal sobre a exposição a usinas nucleares.

A radioatividade natural existe na Terra desde que o planeta se formou. São cerca de 60 radionuclídeos presentes na natureza. Eles são encontrados no ar, água, solos, rochas e minerais, bem como nos alimentos e no nosso próprio corpo. Cerca de 90% desta radiação ambiental provêm de fontes naturais, sendo a maior delas o gás radônio.

Alguns locais do mundo, chamados de Áreas de Alta Radiação de Fundo (High Background Radiation Areas - HBRAs) têm, anomalamente, altos níveis de radioatividade naturais, muito superiores à média do planeta. A geologia e geoquímica das rochas e dos minerais encontrados nessas áreas têm a maior influência na determinação de onde esta alta radiação natural aparece.

Áreas de Alta Radiação de Fundo na Terra

HBRAs extremas são encontradas principalmente em regiões tropicais, áridas ou semi-áridas, como Guarapari (Brasil), sudoeste da França, Ramsar (Irã), partes da China e Costa do Kerala (Índia). Em certas praias do sudeste do Brasil, especialmente no sul do estado do Espírito Santo, os depósitos de areia monazíticas são abundantes. Os níveis de radiação externa nessas areias corresponde a quase 400 vezes o nível normal de radiação de fundo. Essas areias da costa brasileira tẽm vários minerais radioativos, dentre eles monazita, zircônio, torianita e columbita-tantalita, bem como minerais não-radioativos, incluindo elmenita, rutiló, pirocloro e cassiterita.

Areia monazítica no Brasil

No sudoeste da Índia, ao longo dos 570 km de extensão da costa do estado de Kerala (Índia), há também grandes jazidas de areias ricas em monazita, com elevada radiação natural. Os depósitos de monazita são ainda maiores do que aqueles encontrados no Brasil, mas a dose externa de radiação é, em média, semelhante às verificadas em nosso País.

Ramsar, uma cidade no norte do Irã, tem os mais altos níveis de radiação natural do mundo. Exposições tão elevadas, como 260 mGy/ano já foram registrados em Ramsar. A unidade de radiação ionizante utilizada aqui, Grays por ano, corresponde a 1 Joule de energia transferida a 1 kg de tecido vivo (o miligray, mGy, que é um milionésimo de Gray, é mais comumente usado). Uma exposição de corpo inteiro a uma dose uniforme de 3-5 Gy mataria 50% dos organismos expostos num período de 1 a 2 meses.

A característica mais interessante em todos estes casos é que estudos epidemiológicos mostram que pessoas que vivem nestes locais HBRAs não parecem sofrer de qualquer efeito adverso sobre a saúde como resultado de suas exposições elevadas à radiação. Pelo contrário, em alguns casos os indivíduos que vivem nessas HBRAs parecem ser ainda mais saudáveis e viver mais do que aqueles em locais de controle que não são classificados como HBRAs.

Tais fenômenos colocam muitas questões intrigantes. Se eles fossem mais conhecidos do público, talvez criasse aquela familiaridade, tão fundamental para a percepção de riscos, que possibilitaria não termos tanto medo do "nuclear".


* Leonam dos Santos Guimarães é Assistente da Presidência da Eletronuclear e membro do Grupo Permenente de Assessoria em Energia Nuclear do Diretor-Geral da AIEA.


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domingo, 10 de junho de 2012

Desafio: faça sua cidade crescer de forma sustentável!

Com a Rio+20 começando essa samana eu poderia escrever um looongo texto discutindo os impactos de cada fonte energética, em particular a nuclear, no meio ambiente. Afinal, já virou senso comum que o grande desafio desse século seja o tal do desenvolvimento sustentável!

Entretanto, ao invés do texto, optei por uma abordagem diferente (e bem mais legal!). Convido você, caro leitor, a sentir na pele como é díficil promover o crescimento econômico de uma região, minimizando os impactos ambientais e deixando a população satisfeita.

No jogo de estratégia ELECTROCITY você pode ser o prefeito de uma cidadezinha de 10 mil habitantes e, com as escolhas certas, transformá-la em uma grande cidade - rica, com mais de 1 milhão de habitantes e com baixo impacto ambiental.

Mas atenção: é necessário garantir suprimento energético suficiente para o crescimento da cidade. Você pode escolher entre energia eólica, termoelétrica a gás, termoelétrica a carvão, nuclear, hidroelétrica, geotérmica, biomassa (cogeração), solar e energia a partir das ondas do mar!

Veja a minha cidade:



É claro que o jogo simplifica bastante as complexas relações ambientais, socias e econômicas alí envolvidas, mas vale a pena dar uma conferida (é tão fofo!).

O jogo é mantido pela Genesis Energy, uma companhia de energia da Nova Zelândia que investe em termoelétricas a carvão e a gás, em hidroelétricas e em energia eólica (deve ter um viés aí, não?).

Confira o jogo no site do ELECTROCITY e depois me conte como foi!

OBS.: fica uma sugestão para os professores: tendo o jogo como elemento central, pode ser interessante desenvolver uma atividade com os alunos sobre a questão energética, envolvendo diversas disciplinas:
1) Física: para explicar cada forma de geração de energia usada no jogo;
2) Biologia: para discutir os impactos ambientais e como minimizar esses efeitos;
3) Geografia: para discutir os aspectos sociais e econômicos de cada forma energética;
4) Matemática: para discutir o planejamento financeiro da cidade;
5) Inglês: para trabalhar o vocabulário dos alunos, já que o jogo é em inglês;
6) Português: o trabalho final poderia ser um texto narrativo que contasse a história do desenvolvimento da cidade, justificando cada escolha e discutindo seus impactos sociais, ambientais e econômicos.


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domingo, 27 de maio de 2012

Contaminação de Urânio nas águas de Caetité: que papo é esse?


Em 2008, o Greenpeace denunciou, com um baita estardalhaço, a contaminação da água no distrito de Lagoa Real, em Caetité (Bahia), devido à atividade de mineração de urânio realizada pela Indústrias Nucleares do Brasil (INB), classificada pela Organização Não-Governamental (ONG) como perigosa e poluente.

O Relatório Ciclo do Perigo – Impactos da Produção de Combustível Nuclear no Brasil, realizado pelo Greenpeace, concluiu que há contaminação na água da região, pois duas amostras de água coletas no entorno da mina de Caetité apresentaram concentrações de urânio superiores a 0,015 mg/L, concentração máxima de urânio permitida pela Organização Mundial de Saúde (OMS).

Veja abaixo o vídeo produzido pelo Greenpeace:



E uma pequena amostra das repercussões dessa denúncia junto à população local:

 

Esse assunto repercurtiu na mídia por um bom tempo e ainda hoje "dá pano pra manga"!

Cerca de um ano depois da publicação do Greenpeace, por exemplo, o governador da Bahia Jaques Wagner (PT) encampou a denúncia e, em dezembro de 2009, o Instituto de Gestão das Águas e Clima da Bahia interditou boa parte dos poços na cidade. Resultado: foi preciso contratar um serviço de caminhões-pipa para abastecer de água potável os 3.000 habitantes da zona rural de Caetité.

A prefeitura, paupérrima, gastou mais de 70.000,00 reais nisso até que, em Abril de 2010, a Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) liberou o consumo da água de Caetité. De acordo com o estudo da CNEN, as águas que passam pela INB Caetité nem sequer chegam às comunidades onde os poços foram fechados.


Monitoração ambiental pela INB

A INB afirma que as análises que vêm sendo realizadas desde 1990, nove anos antes da implantação da unidade de mineração, atestam que a atividade mineradora não contribui para o aumento da presença de urânio na região. São mais de 16 mil análises por ano que monitoram mais de 150 poços situados em Maniaçu, São Timóteo, Juazeiro, Lagoa Real e Caetité.

Entretanto, a falta de divulgação dos resultados dessas análises até a época da denúncia feita pelo Greenpeace corroborou para espalhar o medo na população.

A boa notícia dessa confusão toda é que agora os resultados dos testes sobre a qualidade das águas de Caetité ganharam mais transparência e são divulgados pela própria INB em seu site. A última pesquisa realizada pela INB ao longo de 2011 foi divulgada em Janeiro desse ano.

"A concentração de urânio nas águas de superfície em diferentes localidades ao redor da Unidade de Mineração e Beneficiamento de Urânio das Indústrias Nucleares do Brasil em Caetité (BA), medidas em diferentes épocas do ano de 2011, apresenta valores sempre abaixo de um terço do limite estabelecido pelo Conselho Nacional de Meio Ambiente, órgão vinculado ao IBAMA", informou o físico Delcy Py, especialista em radiação.

Resultados da monitoração das águas ao redor da mina de Caetité feita pelas
Indústrias Nucleares do Brasil no ano de 2011.

Fiscalização pela CNEN

A Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) é um dos órgãos responsáveis por fiscalizar as atividades das Indústrias Nucleares do Brasil. E para a CNEN, a ocorrência de urânio nas águas subterrâneas da região é natural, não podendo ser atribuída à operação da INB. 

A INB deve executar um programa de monitoração ambiental (PMA), previamente aprovado pela CNEN, e apresentar os resultados obtidos, periodicamente, à Comissão. Além da água, são feitas análises de amostras de ar, sedimentos, vegetais, leite etc, colhidas em pontos estabelecidos no PMA e localizados ao redor da área de propriedade da instalação.

“Os resultados dessas análises são avaliados pelos especialistas da CNEN. Para verificar a qualidade, periodicamente também são realizadas campanhas de coleta conjunta”, afirma o ex-diretor de radioproteção e segurança nuclear da CNEN, Dr. Laércio Vinhas, em entrevista à Atividades Nucleares.

Para chegar a conclusão de que não há contaminação do lençol freático devido à atividade de mineração da INB, os especialistas da CNEN colhem amostras nos mesmos pontos e nos mesmos instantes que os funcionários da INB. Elas são então analisadas nos laboratórios dos institutos da CNEN. Com base nos resultados de medidas de amostras de água do lençol freático, colhidas no interior da instalação, nas áreas circunvizinhas e em estudos de hidrogeologia se chega ao resultado.

Segundo a Cnen, as doses de radiação encontram-se abaixo do limite recomendado para exposição pública em poços abertos nas proximidades da mina da INB. A média histórica das taxas de radiação das águas de Caetité é de 0,1 Bq/L, ou seja, um valor 5 vezes menor que o máximo permitido que é de 0,5 Bq/L (bequerel por litro).

A radioatividade encontrada nessas águas é menor do que a de estâncias turísticas como Araxá (MG), Águas de Lindóia (SP) e Guarapari (ES).

A última pesquisa feita em 2011 pela CNEN (através do Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares – IPEN) mostra que os mananciais de Caetité estão com índices normais de urânio. O IPEN realizou análises das amostras de águas dos poços situados nas Fazendas Mangabeira, Gameleira e Lajedo, e nos distritos de Juazeiro e São Timóteo. Em todos esses pontos, as médias de concentração de urânio ficaram abaixo da do limite estabelecido para consumo humano, determinado pelo Ministério da Saúde, em 0,03 mg/L, e pelo CONAMA, em 0,015mg/L.

Monitoração das águas subterrâneas de Caetité feita pelo IPEN/CNEN em 2011

O gráfico acima mostra a quantidade encontrada em cada ponto, com a respectiva distância deles da mina de urânio, representada por zero. Nota-se que não há maior concentração de urânio em poços mais próximos da mina. Na Fazenda Gameleira, a distância é representada negativamente, para indicar que o poço se localiza no caminho oposto da direção do percurso da água.  


Recente pesquisa da Universidade Federal de Sergipe

Devido à grande repercussão da campanha desenvolvida pela ONG junto à população local e das cidades vizinhas, um grupo de pesquisadoras da Universidade Federal de Sergipe, em parceria com a Universidade de São Paulo, decidiram investigar as causas da presença de urânio nas águas da região de Caetité e os os impactos da mineração no ambiente e na saúde da população que vive na região.

Orientadas pela professora Susana Lalic, com o apoio de Roseli Gennari da USP, as pesquisadoras Geângela Almeida e Simara Campos coletaram e analisaram amostras de água e solo em uma área de 100 km no entorno da mina de Caetité, desde Lagoa Real até o povoado de Maniaçu.

As amostras de água e de solo foram coletadas em Fevereiro de 2010 em fazendas que utilizam poços subterrâneos e cisternas para consumo animal, para irrigar a plantação e para consumo próprio, e solo onde é feito o plantio. Coletou-se, também, água na própria cidade, em praças e nas residências que utilizam água encanada.

Em apenas 2 das amostras analisadas as concentrações de urânio chegaram ao limite definido pelo Conselho Nacional do Meio Ambiente (CONAMA) de 0,0015 miligramas de urânio por litro. As duas amostras foram coletadas em poços localizados no município de Lagoa Real, onde existe uma grande reserva de urânio ainda não explorada. 

As pesquisadoras concluíram que “O solo de Caetité é muito rico em urânio, portanto, o que ocorre nas águas e no solo é um processo natural e não um processo de contaminação devido à exploração de urânio”. 

Para se certificar dos resultados das pesquisas feitas na Bahia, o grupo decidiu também investigar amostras de água da região de Santa Quitéria (CE), região com grande disponibilidade de urânio, mas que atualmente ainda não é explorada, para verificar se o mesmo fenômeno acontece no sertão cearense.

"Comparamos os dados de radiação ambiental de Caetité, que é uma região explorada, com os de Santa Quitéria, no Ceará, onde ainda não há atividade mineira, e verificamos que os resultados encontrados são muito próximos. Isto é um indicativo que nos mostra que o que existe no local é influência da própria natureza e não consequência puramente de uma contaminação" – afirma a pesquisadora Geângela Almeida. 

Simara Campos explica que o urânio é um dos elementos que compõem naturalmente o solo de todo planeta, sendo encontrado em maior quantidade em localidades como Caetité. “Um das causas para se encontrar o minério nas águas é que ele pode ser arrastado pela chuva ou pelos córregos, poços e rios”, informou a pesquisadora em entrevista à INB. 


Urânio nas águas

Em resposta às denúncias do Greenpeace, as análises realizadas pelo Laboratório Ambiental da INB, pela CNEN e pelo grupo de cientistas da Universidade Federal de Sergipe estabeleceram, de forma independente, que o nível de urânio encontrado está abaixo do limite estabelecido pela legislação. 

A explicação melhor fundamentada cientificamente para a origem do urânio nas águas de Caetité é  a de que se trata de um processo natural, característico da região que apresenta rochas com alta quantidade de urânio.

O urânio é mobilizado a partir das rochas pelo intemperismo de uraninita (UO2). A ação das águas superficiais e subterrâneas causa a dissolução oxidativa da uraninita do íon solúvel uranilo (UO2 2+). Em todo o mundo, de 27 mil a 32 mil toneladas de urânio são liberadas anualmente a partir de rochas ígneas, xisto, arenito e calcário pela erosão natural e intemperismo.

Assim, acredita-se que a concentração de U-238 determinada nos diversos pontos de coleta de água seja devida a processos de lixiviação natural das rochas da região que contêm urânio. Esse urânio entra em solução e atravessa o solo, alcançando o lençol freático. E essa quantidade de urânio nas águas subterrâneas pode variar ao longo do tempo, tanto por razões climáticas quanto geológicas.

Embora natural, é importante monitar frequentemente a quantidade de urânio nas águas da região para evitar danos à saúde da população local.


Para saber mais

Presença de urânio na água e em solo de Caetité deve-se a fatores ambientais - REVISTA BRASIL NUCLEAR, Ano 16, No. 38, 16/05/2012

Denúncia: água consumida em Caetité (BA) está contaminada por urânio

Relatório do Greenpeace: Ciclo do Perigo - Impactos da Produção de Combustível Nuclear no Brasil

Cnen esclarece situação da mina de urânio em Caetité - Newsletter Atividades Nucleares

Análises confirmam normalidade das águas dos poços de Caetité - site da INB

Dose de exposição radiométrica no entorno das minas de Caetité - BA e Santa Quitéria - CE. Dissertação de Mestrado de Geângela Almeida, UFS.

quinta-feira, 15 de março de 2012

Robert Gale: "O saldo de Fukushima será modesto"

O oncologista americano que assessora o governo japonês sobre os riscos à saúde em torno da usina atômica diz haver um temor exagerado diante da radiação

Onde houver um acidente envolvendo material radioativo, pode apostar que lá estará Robert Peter Gale. O oncologista e hematologista americano de 66 anos é uma das maiores autoridades em tratamento de vítimas da radiação. Em 1986, ele se ofereceu ao governo da então União Soviética para ajudar os médicos locais no desastre de Chernobyl. Um ano depois, veio ao Brasil para fazer parte da equipe responsável por monitorar os contaminados pelo césio-137 em Goiânia – o material vazou de um aparelho de radioterapia abandonado e confundido como sucata por catadores de lixo.

Em Fukushima, Gale chegou alguns dias depois do terremoto. Ao longo deste primeiro ano do acidente, ele esteve quase metade do tempo monitorando os riscos de contaminação. Gale está convencido de que, apesar dos transtornos da evacuação, os japoneses que vivem em torno da usina não têm por que entrar em pânico. “Estritamente do ponto de vista da saúde, é muito improvável que haja um saldo grave em Fukushima”, afirmou Gale a ÉPOCA. Ele diz que o medo diante da radiação faz as pessoas agir contra sua própria saúde. É o caso dos operários japoneses encarregados da limpeza da área evacuada, que passaram a fumar e beber para tentar relaxar. Isso, diz Gale, os deixa muito mais propensos a desenvolver um câncer do que estar exposto à radioatividade. Bem-humorado, Gale brinca com o fato de estar sempre em locais dos quais todos querem distância. “Tenho um bom seguro de vida, então minha mulher me encoraja bastante a ir a esses lugares.”


ÉPOCA – O senhor visitou Fukushima logo após o terremoto e esteve lá há pouco mais de um mês. O que mudou em um ano?
Robert Gale – Só para deixar claro, estive lá mais ou menos durante seis meses no ano passado, não continuamente, entre cinco e dez vezes. Fui e voltei muito frequentemente, então para mim não se trata de um cenário preto no branco, sem nuances. Vi a situação evoluir. No início, meu foco era descobrir se haveria vítimas agudas da radiação. Queria descobrir se havia indivíduos que receberam doses extremamente altas de radiação e precisariam de intervenção médica imediata. No início, esse era o ponto a que todos estavam atentos. Tínhamos os recursos e as pessoas necessárias para responder a essa demanda. Felizmente, ninguém foi submetido a essa dose alta de radiação. Tivemos apenas dois operários da usina que sofreram contaminação por pisar em água radioativa. Mas ninguém chegou a adquirir uma alta dose no corpo inteiro, como ocorreu em diversos outros acidentes, incluindo Chernobyl e Goiânia. O segundo foco foi a evacuação: tirar as pessoas de lá. Agora, em uma terceira fase, estamos tratando de quando as pessoas poderão retornar, quando será seguro e se haverá infraestrutura disponível para permitir o retorno de ao menos parte das pessoas evacuadas. E, claro, continuamos atentos à exposição dos operários de Fukushima.

ÉPOCA – Fukushima ainda é inseguro para a vida humana?
Gale – Primeiro, algum imprevisto sempre pode ocorrer com os trabalhadores. Seria um acidente extraordinário alguém se expor a uma alta dose de radiação. Mas pode acontecer. Por isso, temos medidas razoáveis para tentar proteger esses operários. Quanto à segurança das áreas ao redor de Fukushima: a maioria dos locais evacuados é potencialmente segura, do ponto de vista da radiação. Mas não há infraestrutura, não há comércio, hospitais, escolas, foi tudo abandonado. Há muita discriminação contra a produção de alimentos das áreas próximas a Fukushima. Então, as pessoas não podem retornar até o governo decidir o que fazer ali. Não é prático trazê-los de volta até esses problemas serem solucionados. Para isso ocorrer, é necessária uma decisão do governo de restabelecer essas estruturas importantes antes de deixarmos as pessoas voltarem, mesmo que a radiação que ameaça essas áreas seja muito modesta.

ÉPOCA – Já é possível ter uma dimensão do acidente nuclear?
Gale – Se usarmos Chernobyl como parâmetro, a primeira questão é a incidência de câncer. Em Chernobyl, foram computados entre 6 mil e 7 mil casos de câncer de tireóide em crianças. Os casos apareceram entre dez e 15 anos após o acidente. Para os outros tipos de câncer e leucemia, não há evidência convincente de que os números aumentaram. Pode ter ocorrido, é claro, mas o número é tão baixo que não conseguimos detectar. Isso não significa que não tenha ocorrido ou que não ocorrerá, pois cânceres relacionados à explosão da bomba atômica de Hiroshima e Nagasaki foram aumentar ou aparecer 50 anos depois. Alguém poderia argumentar que só se passaram 25 anos de Chernobyl, então é muito cedo; nós ainda não vimos, mas veremos. Em todo caso, dadas as proporções, com exceção dos casos de câncer de tireoide, os números de Chernobyl não são tão impressionantes. No caso de Fukushima, a liberação de radiação foi dez vezes menor. E o número de pessoas expostas foi centenas de vezes menor. Além disso, as causas dos cânceres de tireoide em Chernobyl, entre elas a ingestão de leite contaminado, não ocorreram em Fukushima. Então, eu diria que as consequências a longo prazo em Fukushima serão muito modestas. Claro que há desdobramentos graves, como o deslocamento de milhares de pessoas, a privação de sua rotina, além das dificuldades financeiras. Estritamente do ponto de vista da saúde, é muito improvável que haja um saldo grave em Fukushima.

ÉPOCA – O senhor costuma dizer que há uma reação exagerada a acidentes nucleares. Não é melhor pecar pelo excesso de zelo?
Gale – É preciso achar um equilíbrio. Vou dar um exemplo: todos os operários com quem conversei em Fukushima me disseram que estão fumando substancialmente mais por estarem preocupados com a radiação. Alguns começaram a fumar ou beber. Fazem isso para tentar relaxar. No dia a dia, o risco causado à saúde pelo fumo é centenas de vezes superior ao causado pela radiação. Então, exagerar o risco da radiação às vezes leva a comportamentos que, na verdade, causam dano às pessoas. Se evacuarmos 1 milhão de pessoas, teremos acidentes e mortes nas estradas e coisas desse tipo. Não temos de dizer que os riscos não existem. Mas temos de entender o risco num contexto de outros riscos existentes para essas pessoas. Todo ano, nos Estados Unidos, temos perto de 6 mil mortes causadas por distração de motoristas no trânsito. E não estamos proibindo carros, porque entendemos o risco de dirigir um carro. É a mesma coisa. Claro que existem riscos, mas temos de colocá-los em contexto.

ÉPOCA – O senhor citou o exemplo dos operários de Fukushima. Depois do acidente de Chernobyl, houve casos de aborto forçado até na Polônia, a milhares de quilômetros, por temor de que os bebês nascessem contaminados. Por que há tanto medo da radiação?
Gale – Isso é terrível, porque sabemos, a partir da experiência das bombas atômicas sobre o Japão, que danos ao feto só ocorreram em casos de exposição a doses extremamente altas de radiação, uma dose a que ninguém teria sido exposto em Chernobyl e a que certamente ninguém terá sido em Fukushima. O aconselhamento ao aborto foi feito sem nenhuma base científica. Sobre o medo, acredito que tenha algo a ver com o fato de a maioria dos riscos potenciais para nós ser facilmente percebida. Fogo, altura, furacões. Nós podemos perceber essas coisas. Mas não a radiação. Se eu submeter você a uma dose de radiação 200 vezes superior à normal, você não sentirá nada. Não há percepção do risco.
Isso angustia as pessoas. Agora, se eu pedir uma tomografia para examinar seu abdome, você provavelmente não recusará. Mas a dose de radiação que você receberá será muito maior do que qualquer um recebeu de Fukushima.

ÉPOCA – O senhor tem aconselhado o governo japonês sobre como lidar com o acidente. As medidas adotadas foram adequadas?
Gale – Teve um lado bom e um ruim. Algumas coisas foram muito bem feitas, outras nem tanto. A evacuação foi muito eficiente, e a decisão do tamanho da área de isolamento (atualmente um raio de 20 quilômetros em torno da usina) também foi uma boa decisão. Mas houve muita confusão na divulgação de informações sobre contaminação de água e comida. Muitos dados, que depois se provaram incorretos, foram divulgados. Não estava claro quem estava no comando. Queremos manter as pessoas informadas, mas temos de dar informações que sejam úteis e não as deixem mais confusas. Quando você divulga três vezes por dia quantos becqueréis (unidade de medida de radiação) por litro há na água, é muita informação, e as pessoas não usam isso.

ÉPOCA – Então é melhor não divulgar?
Gale – Não é melhor não divulgar, mas a informação tem de ser contextualizada, colocada em termos nos quais as pessoas vão entender. Se eu te falar que um copo d’água tem 500 becqueréis de césio por litro, você não sabe o que fazer com isso e a situação parece ruim. Então eu explico que você teria de beber cerca de seis litros dessa água todos os dias, por quatro meses, para adquirir a mesma radiação de alguém como uma aeromoça que faz o voo de São Paulo para Nova York durante um ano todo. Quando a informação é colocada dessa maneira, você pensa: ok, eu não gostaria de beber essa água por quatro meses, mas se eu beber um copo, não vou cair morto. Portanto, é preciso traduzir essa linguagem de dados que ninguém entende, mas as agências regulatórias e os governos não fazem isso. Eles não explicam qual seria o risco, apenas te dão um número e dizem qual é o limite. Mas isso não é o que você quer saber. Se eu disser que o limite é 500 becqueréis por litro e que uma coisa tem 660, você vai presumir que é ruim. E quando eu disser que outra coisa tem 400, você vai achar que está tudo bem. Mas não é isso que você quer saber. Você quer saber qual o risco pra você. E é claro que, se você beber aquele copo d’água, nada vai acontecer com você. Mas, se você beber essa água pro resto da sua vida, alguma coisa pode acontecer com você.

ÉPOCA – É seguro beber água ou comer vegetais de Fukushima?
Gale – Claro. Toda comida tem algum tipo de radiação. Estamos comendo alimentos radioativos e bebendo água radioativa o tempo todo. A discussão na verdade é sobre a quantidade (de radiação). Não há nenhum tipo de água radioativa quevocê possa ter acesso, como cidadão comum, que tenha uma quantidade que cause dano. Pode tomar um copo, ou dez, ou até 100 e não vai causar dano. É impossível. Mas, talvez bebendo a vida inteira, ela pode ser danosa.

ÉPOCA - A população japonesa é mais consciente dos riscos da radiação?
Gale – Sim, as pessoas lá estão muito atentas. Elas vão aos supermercados com medidores de radiação e coisas assim. Mas existe algo que acontece no Japão que é um pouco diferente dos outros lugares. Se você pensar em comida japonesa, o conceito de pureza dos alimentos é fundamental. Isso não é verdade se você pensar na culinária brasileira ou americana, mas essa questão de pureza no sabor e pureza nesses pequenos pratos sem nenhum molho é muito importante. Isso faz com que a ideia de radiação em sua comida ou água seja muito mais problemática em suas mentes do que seria em outros locais. É um problema muito mais sensível no Japão.

ÉPOCA – O acidente com o césio-137 em Goiânia, que deixou quatro mortos e ao menos 250 pessoas contaminadas naquela época, completará 25 anos em setembro. O senhor sabe como estão as pessoas que passaram pela sua avaliação?
Gale – Não, não tive um acompanhamento de longo prazo dessas pessoas. Quando falamos de césio, dizemos que sua meia-vida (tempo necessário para que se reduza à metade a quantidade de átomos radioativos em um certo reagente) é de cerca de 30 anos. Isso implica que o césio estará presente por um bom tempo. Essa seria sua meia-vida física: se você colocar césio num tubo de ensaio ou num copo em cima da sua mesa, ele será perigoso por 300 anos, porque normalmente uma substância segue ativa por dez meias-vidas. Mas, quando o césio entra em seu corpo, o corpo o excreta em cerca de 70 dias. Então, se considerarmos essa ideia de dez meias-vidas, daria 700 dias, ou quase dois anos. Como o acidente em Goiânia foi em 1987, as pessoas contaminadas por césio já estariam livres da substância em 1989. Elas não ficam contaminadas para sempre.

ÉPOCA – Elas ainda correm algum risco de terem câncer?
Gale – Elas estão sob risco dependendo da dose de césio que ingeriram ou com que entraram em contato entre 1987 e 1989. Então, dependendo da dose, ainda é possível que ocorra algo. Mas elas não estão mais expostas ao césio.

ÉPOCA – O senhor retornou a Goiânia depois do acidente?
Gale - Não, não voltei. Eu voltei ao Brasil algumas vezes, mas não recentemente. Eu não sei se alguém se tornou responsável pelo acompanhamento dessas pessoas. Deveria ser feito, é claro, e é uma tarefa pequena. No caso de Chernobyl, nós tivemos de acompanhar meio milhão de pessoas pelo resto da vida delas. No caso das bombas atômicas, são mais de 100 mil pessoas. Então, acompanhar algo como 250 pessoas em Goiânia não é um grande desafio. Nós sabemos quem eles são, então é possível fazê-lo, mesmo que se comece agora.

ÉPOCA – O senhor se expõe constantemente à radiação quando visita regiões atingidas por um acidente nuclear. Não tem medo?
Gale – Tenho um bom seguro de vida, então minha mulher me encoraja bastante a ir a esses lugares (risos). Piadas à parte, os médicos estão expostos a riscos o tempo todo. E temos uma fantasia de que somos invulneráveis. Já que tratamos de pessoas com câncer e pacientes morrem ao nosso redor o tempo todo, temos essa ideia de que isso não vai acontecer conosco. Tento não me preocupar muito com isso. Na verdade, quando minha mulher dirige a 160 quilômetros por hora numa rodovia deserta em Montana (Estado americano), uma coisa que ela gosta de fazer, aí sim eu me preocupo. Quando existe uma política implementada, como o uso de roupas de proteção em usinas, faço o que todos ali fazem, claro, porque não quero ser exceção à regra ou ser visto como um privilegiado. Mas não, não sei qual a dose que recebi em um determinado acidente ou outro.

ÉPOCA - Em Chernobyl, o senhor deixou de usar a roupa de proteção porque ela o fazia caminhar mais devagar, ficar mais tempo na área contaminada e, supostamente, estar mais exposto à radiação. E preferiu entrar com roupas comuns. Isso fazia sentido?
Gale – Muito interessante você falar disso. No acidente de Goiânia, nós lidamos com uma situação muito excepcional, na qual os próprios pacientes eram radioativos. Normalmente, nós tratamos pessoas que foram expostas à radiação, mas não são radioativas. Mas em Goiânia eram pessoas radioativas, porque tinham incorporado o césio (uma menina de seis anos ingeriu o pó de césio e morreu pouco mais de um mês depois). Então, eram capazes de submeter os médicos que as tratavam a doses de radiação. É uma situação muito pouco usual. A princípio, quando chegamos para atender esses pacientes, achamos que usaríamos roupas de proteção. Mas rapidamente ficou claro que isso não funcionaria. Quando você está tentando tratar uma criança, vestindo um escudo vermelho, não conseguirá atendê-la de maneira adequada. Atrás desse escudo, você não consegue examinar o paciente direito. Então, nós a principio tínhamos essa ideia, mas depois de um dia ficou muito claro que não funcionaria. Aí nós simplesmente mandamos a proteção para o inferno. É claro que não expomos nenhuma médica, ou médica grávida, a esse trabalho. Mas nós decidimos que íamos simplesmente cuidar dos pacientes, independentemente da radiação.

ÉPOCA – Há muitos estudos questionando o risco de contrair câncer por conta da radiação vinda de celulares e outros aparelhos. O que há de concreto nisso?
Gale – Acho que a maioria de nós não percebe o quão frequentemente esses aparelhos tecnológicos, pelos quais nós estamos cercados o tempo todo, usam radiação. Por exemplo, um detector de fumaça. Se você tem um em casa, você tem um aparelho radioativo, ele usa radiação. Os sinais luminosos de “saída” também são radioativos. Usam trítio (radioisótopo do hidrogênio), por isso são brilhantes e luminosos. Então, existem centenas de aparelhos radioativos em nosso dia-a-dia e isso não é novo. Nós sabemos que os detectores de fumaça salvam muito mais vidas em comparação ao prejuízo causado pela radiação que eles liberam. No caso de celulares e similares, a evidência disponível não é convincente. Não existe nenhum mecanismo biológico ao qual eles poderiam causar dano. Em minha opinião, existe um exagero. Sem dúvida nenhuma, muito mais pessoas vão morrer atropeladas por alguém distraído falando no celular do que vão morrer indivíduos pela radiação do aparelho.

ÉPOCA - Então não estamos mais vulneráveis ao câncer?
Gale – Bom, os índices de câncer estão aumentando. Parte disso é porque nós resolvemos outros problemas, como doenças relacionadas à idade. As pessoas estão vivendo cada vez mais, então nós podemos esperar mais casos de câncer. Nós sabemos que muitas vezes nós causamos o câncer. É o caso do fumo. Se de fato estivermos comprometidos em acabar com essa doença, então todo governo deveria banir os cigarros. Algo como 10% dos cânceres estão relacionados ao cigarro. Há também outras substâncias químicas, como benzeno, que causam câncer, e você deve controlá-las. Claramente, existem diversas intervenções preventivas que são muito mais importantes do que pensar nos celulares.

domingo, 22 de janeiro de 2012

Top 9 mitos sobre energia nuclear

Fonte: Site da American Nuclear Society
Traduzido e adaptado por Pamela Piovezan.

Vários mitos cercam o tema "energia nuclear". Para ajudar a esclarecer alguns desses mitos, a American Nuclear Society, uma organização internacional com cerca de 11.000 membros da área nuclear entre cientistas, engenheiros, educadores e estudantes, preparou uma lista dos 10 mitos mais famosos nos Estados Unidos.

Como isso foi feito antes do acidente de Fukushima, traduzi e adaptei esse material para incluir algumas das consequências do acidente. Claro que cada um dos mitos, por si só, daria um texto imenso sobre o assunto. Por isso, lembre-se, esse post é apenas uma visão geral. Alguns dos temas já apareceram em outros posts aqui do blog e estão indicados no final desse post.


Mito #1. As pessoas recebem a maior parte da dose anual de radiação dos reatores nucleares.

Fato: Nós estamos cercados por radiação natural. No solo, nos alimentos e até no ar que respiramos existem elementos radioativos. No caso dos Estados Unidos, o país com o maior número de reatores nucleares do mundo, apenas 0,005% da dose média anual de radiação recebida pelas pessoas vem dos reatores nucleares. Essa dose é 100 vezes menor que aquela liberada na queima do carvão mineral pelas termoelétricas (devido a traços de Urânio, Bário, Tório e Potássio radioativos presentes nas cinzas) [1], 200 vezes menor que a que recebemos em um vôo transatlântico (devido aos raios cósmicos) e equivalente àquela que ingerimos ao comer uma banana por ano (devido ao Potássio-40) [2].

Mito #2: Um reator nuclear pode explodir como uma bomba nuclear.

Fato:É impossível que um reator exploda como uma bomba nuclear. Isso porque as bombas contêm materiais especias em configurações particulares que visam à explosão nuclear. Os reatores nucleares são projetados para que, mesmo no caso dos acidentes mais sérios, a reação em cadeia não se torne descontrolada por tempo suficiente para causar uma explosão nuclear. No caso do acidente de Fukushima, por exemplo, a explosão do prédio do reator foi ocasionada por uma reação química e não pela fissão nuclear descontrolada, como nas bombas atômicas.

Mito #3: A energia nuclear é prejudicial ao meio ambiente.

Fato: Reatores nucleares não emitem gases do efeito estufa durante sua operação. Durante toda a vida útil das usinas, a emissão total de gases do efeito estufa (nas fases de construção, do ciclo do combustível e do desaparelhamento da usina) é comparável à emissão de fontes renováveis de energia como a solar e a eólica [3]. Além disso, as usinas nucleares ocupam uma área menor de solo que as demais fontes energéticas para gerar a mesma quantidade de energia.

Mito #4: Energia nuclear não é segura.

Fato: Energia nuclear é  tão ou mais segura que qualquer outra forma de geração de energia disponível. Nos 50 anos de história das plantas comerciais dos Estados Unidos, por exemplo, nenhum membro do público foi machucado ou morto devido aos reatores nucleares. Um estudo de 2010 da Nuclear Energy Agency [4] compara o número de acidentes e mortos associados às diferentes formas de geração de energia (incluindo toda a cadeia energética). Entre 1969 e 2000, as termoelétricas a carvão ocasionaram, nos países não-membros da OECD (isto é, países em desenvolvimento e subdesenvolvidos), 1.044 acidentes com 18.017 mortes. As hidrelétricas causaram, no mesmo período, 10 acidentes com 29.924 fatalidades. Já a indústria nucleoelétrica resultou em 1 acidente (o de Chernobil) com cerca de 31 mortes imediatas.

Mito #5: Não existe nenhuma solução para a grande quantidade de lixo nuclear que está sendo gerado.

Fato: Todo o combustível nuclear usado nas usinas do mundo todo nos últimos 50 anos encheria um campo de futebol com uma altura menor que 10 metros! E mais, cerca de 95% desse "lixo" pode ser reciclado! [5]. A solução defendida pela comunidade científica internacional para o depósito final dos combustíveis usados são os repositórios geológicos nos quais o material radioativo ficaria armazenado indefinidamente [6]. Países que tem seus programas nucleares em estágio avançado já se ocupam da construção desses repositórios. A França e o Canadá, por exemplo, prevêem a operação de seus repositórios geológicos para 2025. Os Estados Unidos já têm um repositório pronto para receber os combustíveis usados em Yucca Mountain (Nevada). Entretanto, o país vive hoje um impasse político nessa questão e ainda não há autorização legal para seu funcionamento.

Mito #6: A maioria dos norte-americanos não apóiam a energia nuclear.

Fato: Em pesquisas de opinião realizadas em 2009 (e, portanto, antes de Fukushima), cerca de 70% dos norte-americanos apoiavam a energia nuclear [7]. Além disso, 84% dos americanos viam a energia nuclear como uma importante fonte de eletricidade para o futuro e 70% aceitariam um novo reator nas instalações da planta nuclear mais próxima. Seis meses após o acidente de Fukushima, cerca de 62% dos norte-americanos apoiavam a energia nuclear [8]. Além disso, 59% dos americanos apoiam a construção de novas usinas nucleares ecerca de 67% aceitariam um novo reator nas instalações da planta nuclear mais próxima.

Mito # 7: Um "Chernobil" brasileiro mataria milhares de pessoas.

Fato: Um acidente do tipo Chernobil não poderia ocorrer no Brasil porque esse tipo de reator nunca foi construído ou operado aqui. As fatalidades durante o acidente de Chernobil ocorreram nos profissionais que tomaram as ações de mitigação imediata do acidente [9]. No público que recebeu altas doses de radiação, o aumento da incidência de câncer é muito pequeno para ser medido (e associado exclusivamente à radiação) quando comparado às outras causas possíveis de câncer, tais como poluição do ar ou uso de cigarros.

Mito #8: O lixo radioativo não pode ser transportado de forma segura.

Fato: O combustível usado vem sendo transportado de forma segura nos Estados Unidos por caminhões, trens e navios cargueiros em cascos especialmente feitos pra isso. Estes cascos são testados contra vários tipos de batidas e incêndios, sobrevivendo intactos, sem liberar radioatividade. Milhares de cargas já foram transportadas sem vazamentos ou fraturas em tais cascos [10].

"Crash test" com uma locomotiva de um casco para transporte de material radioativo. O casco (vermelho) permanece inteiro após o impacto. Fonte: The Canadian Nuclear FAQ.

Mito #9: O combustível nuclear usado é mortal por 10.000 anos.

Fato: O combustível nuclear usado pode ser reciclado para fazer novos combustíveis ou subprodutos [11]. A maior parte dos rejeitos produzidos neste processo requer um tempo de armazenamento menor que 300 anos para que a atividade caia até níveis não prejudiciais à saúde. Menos de 1% desses rejeitos são radioativos por 10.000 anos e precisam ser armazenados indefinidamente (nos depósitos geológicos, por exemplo).


Para saber mais:

[1] National Council on Radiation Protection and Measurements No. 92 and 95.
[2] CDR Handbook on Radiation Measurement and Protection.
[3] P.J. Meier, "Life-Cycle Assessment of Electricity Generation Systems and Applications for Climate Change Policy Analysis," 2002.
[4] Comparing Nuclear Accident Risks with Those from Other Energy Sources, NEA, 2010.
[5] K.S. Krane, Introductory Nuclear Physics, John Wiley and Sons, 1988.
[6] Progress Towards Geologic Disposal of Radioactive Waste: Where do We Stand?, Nuclear Energy Agency, OECD report, 1999.
[7] Perspectives on Public Opinion, NEI publication, June 2008.
[8] Latest Trends in U.S. Public Opinion About Nuclear Energy, NEI, Sept. 2011.
[9] Chernobyl Forum reports 20-year findings, offers recommendations, Nuclear News, Oct-05.
[10] DOE Fact Shee.
[11] K.S. Krane, Introductory Nuclear Physics, John Wiley and Sons, 1988.

The Nuclear Energu Opinion, Bernard Cohen, 1990.


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quarta-feira, 30 de novembro de 2011

O exército dos fantasmas da radiação

O fantasma da radiação assombra a sociedade há pelo menos meio século. E o grupo de artistas anônimos Luzinterruptus transformou esse nosso medo de fantasma em arte/protesto contra a energia nuclear.

A instalação Controle Radioativo foi montada em Hamburgo, na Alemanha, para o festival de música e arte Dockville, em Agosto desse ano. Nela, um exército de 100 figuras humanas vestidas com "roupas anti-radiação" e iluminadas "avançavam" em direção ao local do festival.

O objetivo era "convidar as pessoas à reflexão" sobre o uso da energia nuclear e seus efeitos à saúde e ao meio-ambiente. Segundo o manifesto do Luzinterruptus, eles queriam "simular, para o festival, uma vida sob constante ameaça de acidentes nucleares".

Vejam algumas fotos:






Bonito, não? Parece mesmo um exército de fantasmas da radiação! Inicialmente, achei a proposta interessante. De fato, uma das manifestações contra a energia nuclear mais artísticas que já vi.

Entretanto, gostaria de chamar a atenção para um ponto. Ao usar estas figuras fantasmagóricas e associá-las ao símbolo radioativo do trifólio, o grupo Luzinterruptus contribui para mitificar ainda mais a radiação!

De fato, o interessante dessa manifestação é que além de representar a materialização do senso comum (o medo da radiação) que a grande maioria das pessoas cultiva consciente ou incoscientemente, ela reflete, também, o clássico discurso do contra que desde a década de 60 já apela ao medo nuclear (já falei um pouco disso em outro post). A expressão "uma vida sob constante ameaça de acidentes nucleares" usada pelo grupo me leva a apostar que essa foi sua motivação.

Se a missão era realmente "convidar à reflexão" acerca do uso da energia nuclear, acho que o grupo falhou. Na prática, acredito que o máximo que eles conseguiram foi (re)acender o medo nuclear. Infelizmente.


Para saber mais:

Site dos Luzinterruptus - Under nuclear threat


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A opinião pública da tecnologia nuclear em meio século de História

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

A opinião pública da tecnologia nuclear em meio século de História

Nada mais controverso que a energia nuclear. As “boas” e “más” aplicações da energia dos núcleos atômicos dividem a opinião pública em um cabo de guerra que já dura mais de meio século. A tecnologia que nos anos 50 era sinônimo de progresso para uma vida melhor, nos anos 80 transformou-se em um “demônio” abominado pela maioria da população. O debate sobre energia nuclear tornou-se quase uma guerra religiosa e a discussão, filosófica, girava em torno da natureza intrinsecamente boa ou má dessa tecnologia.

Na última década, no entanto, com os benefícios da Medicina Nuclear e a ausência de acidentes de grande magnitude nas usinas nucleares, esse cabo de guerra ficou mais balanceado. As pesquisas periódicas realizadas pelo o Instituto de Energia Nuclear (NEI, em inglês) revelam um aumento expressivo da opinião norte-americana a favor da geração de eletricidade a partir da energia nuclear: de 43%, em 1983, para 74%, em 2010.

No momento em que a indústria nuclear ensaiava a sua re-estréia, o desastre natural no Japão abalou sua popularidade. O acidente nuclear ocasionado pelo tsunami foi acompanhado em tempo real pelas redes e mídias sociais, mantendo o acidente na pauta da televisão, mesmo em sua fase de gestão de danos. Segundo a pesquisa realizada com 47 países em Abril (logo após o acidente) pelo Gallup-Global WIN, a reação negativa ao uso da energia nuclear subiu 11 pontos percentuais na média global, de 32% para 43%, na comparação das pesquisas antes e depois do acidente de Fukushima. No Brasil, em especial, a reação negativa subiu cinco pontos, de 49% para 54%.

Os defensores mais dedicados acreditam que a energia nuclear é segura, necessária e capaz de alcançar o sucesso, bastando somente a redução da oposição para isso. A grande maioria de físicos e engenheiros pertence a essa categoria, defendendo soluções técnicas para grande parte dos problemas da humanidade. Desse mesmo lado, estão aqueles com certo conhecimento técnico, mas que se preocupam com a habilidade dos homens em evitar acidentes ou garantir a segurança das instalações nucleares.

Por outro lado, há os cidadãos que desconfiam dos Governos e alertam a todos dos perigos dos acidentes envolvendo a tecnologia nuclear, como o acidente radiológico de Goiânia, o de Chernobil e, mais recentemente, o de Fukushima. Tais cidadãos costumam ser fortemente influenciados por discursos antinucleares e tendem a se opor ao desenvolvimento dessa tecnologia, embora reconheçam a necessidade de geração de energia e do avanço da medicina nuclear. Por fim, há os oponentes árduos da tecnologia nuclear, como alguns membros do Greenpeace, que discursam ativamente, geram polêmicas e participam de manifestações contrárias ao uso e desenvolvimento dessa tecnologia.

O fato é que a opinião pública sobre a tecnologia nuclear já mudou muito desde os experimentos de Rutherford que revelaram o núcleo dos átomos no início do século XX. Como na Democracia a voz do povo é um dos fatores que ponderam as decisões governamentais, o futuro da tecnologia nuclear depende, pelo menos em parte, da opinião pública. E, como diz o psicólogo James Flynn, pesquisador da Universidade de Oregon, nos Estados Unidos, compreender como o estigma nuclear foi criado é fundamental para entender como lidar com ele.


Do paraíso ao inferno

Nos anos 50, a energia nuclear era anunciada pela Comissão de Energia Atômica dos Estados Unidos, e também pela imprensa, como barata, inesgotável e segura. O congresso norte-americano apoiava o desenvolvimento de reatores nucleares e o público em geral parecia sentir que um grande progresso estava sendo feito. Surgiram nessa época os primeiros submarinos nucleares. A Ford chegou até a criar um carro conceito em 1958, o Ford Nucleon, movido pela fissão do Urânio em um pequeno reator nuclear (veja esse post).

Na década de 1960, no entanto, diversos fatores levantaram preocupações no público, iniciando o processo de reversão desse parecer favorável. Primeiro foi o movimento da juventude contra as regras e as autoridades. Na busca daquela geração por um estilo de vida mais simples e mais "natural", preferiu-se o uso da madeira e da energia solar ao de energia baseada na alta tecnologia. Outro alvo da oposição foi o complexo militar-industrial responsabilizado pela impopular Guerra do Vietnã. A versão 1980 dessa filosofia defendeu a descentralização do governo e da indústria, favorecendo pequenas unidades de energia controladas localmente, com base em recursos renováveis.

Já o movimento ambiental da década de 60, que revelou o quanto a poluição industrial afeta a vida selvagem e os seres humanos, questionava a possível contaminação do ar, da água e da terra por descargas acidentais de radioatividade dos reatores nucleares. Além disso, revelações recorrentes sobre a extensão do manejo inadequado de resíduos químicos perigosos tiveram o efeito colateral de criar opinião adversa sobre os resíduos radioativos.

Outro fator que resultou na queda da popularidade da tecnologia nuclear foi a crescente perda de respeito para com o governo norte-americano. Mudanças na política de gestão dos resíduos radioativos, de uma administração para outra, resultaram em inação, interpretada, por sua vez, como prova de ignorância ou inépcia. A opinião comum era que ninguém sabia o que fazer com os resíduos nucleares.

Já a confusão criada pelas diferenças nítidas na opinião dos cientistas sobre o desenvolvimento da energia nuclear causou incertezas na opinião pública. Ganhadores do prêmio Nobel ficaram divididos em ambos os lados do argumento, confundindo, consequentemente, o público em geral.

Além disso, a associação dos reatores com as armas nucleares foi e ainda é muito forte. De fato, os dois podem envolver o Plutônio, empregam o processo físico da fissão com nêutrons e têm subprodutos radioativos. Entretanto, essa conexão, cultivada pelos opositores da energia nuclear, enfatiza as semelhanças ao invés das diferenças entre eles.

Os acidentes envolvendo reatores nucleares são os que mais abalam a percepção pública no longo prazo, pois alimentam o medo fantasmagórico da radiação – o inimigo invisível. O físico norte-americano David Bodansky explica que diante de acidentes, as pessoas conseguem lidar melhor com efeitos de curto prazo, aqueles que acabam ao término do acidente. Entretanto, os acidentes nucleares, mesmo que no curto prazo resultem em poucos (ou nenhum) mortos e feridos, apavora as pessoas pela possibilidade de efeitos de longo prazo da exposição à radiação.

O acidente de Chernobil, o maior acidente nuclear da História, resultou na morte de 40 pessoas em até 3 meses após o acidente (veja esse post). Quanto aos efeitos de longo prazo, diversos estudos conduzidos por comissões internacionais de especialistas apontaram um aumento na incidência de câncer de tireóide nas crianças. Em números oficiais, 13 crianças morreram. Entretanto, milhares de imagens de mutações genéticas e cânceres são automaticamente associadas ao acidente na antiga União Soviética, mesmo que a relação causal entre a exposição à radiação e o câncer seja difícil, senão impossível, de provar.

Os pró-nucleares estão convencidos de que se as pessoas fossem devidamente informadas, a tecnologia nuclear seria aceitável. Segundo o físico Raymond Murray, da Universidade de Carolina do Norte, nos Estados Unidos, esta visão é apenas parcialmente correta, pois para ele “medos irracionais não podem ser removidos por fatos adicionais”.

Muitas pessoas têm procurado analisar esse fenômeno do medo nuclear, mas o estudo do físico Spencer Weart, ex-diretor do Centro de História da Física do Instituto Americano de Física (AIP) nos Estados Unidos, é um dos melhores. Ele argumenta que as imagens, tanto as criadas na ficção, como monstros radioativos, planetas explodindo como resultado da guerra nuclear e dispositivos estranhos que emitem raios gama, quanto as fotografias e outras imagens, conectam-se com forças sociais e psicológicas e influenciam de forma significativa o pensamento das pessoas sobre a tecnologia nuclear.

Pouco antes do acidente Three Mile Island, por exemplo, o filme "Síndrome da China" foi lançado. Ele conta a estória de um acidente hipotético em que o núcleo todo de um reator derrete, resultando no derretimento do solo até a China. Embora tal cenário não seja válido, os temores públicos foram despertados.


A percepção pública do risco

Toda atividade humana é acompanhada por certo risco de perda, dano ou perigo para os indivíduos. O simples ato de dirigir um automóvel na estrada, ou de ligar um aparelho elétrico em casa, ou mesmo de tomar um banho, deixa o indivíduo sujeito a certo perigo.

Todos concordam que o consumidor merece proteção contra o perigo que está fora de seu controle pessoal, mas não está claro até que ponto essa proteção restringe o uso das novas tecnologias. Em um limite absurdo, por exemplo, a proibição completa de todos os meios de transporte mecânicos asseguraria que ninguém seria morto em acidentes envolvendo carros, trens, aviões, barcos ou naves espaciais. Entretanto, hoje poucos aceitariam tais restrições. É fácil dizer que uma proteção razoável deve ser fornecida, mas a própria palavra "razoável" tem significados diferentes entre as pessoas.

O conceito de que o benefício deve superar o risco é atraente, mas é difícil avaliar o risco de uma inovação para a qual nenhuma experiência ou dados estatísticos estão disponíveis, ou para as quais o número de acidentes é tão baixo que muitos anos seriam necessários para se acumular estatísticas adequadas. Nesse caso, nem os benefícios são claramente definidos.

Tecnicamente, RISCO é definido como o produto entre a frequência de um evento e as consequências que esse evento pode causar. Para reatores nucleares, frequência significa o número de vezes por ano de operação por reator que se espera que o incidente ocorra. As consequências são os danos, tanto imediatos quanto latentes, que podem abranger desde vidas humanas até grandes prejuízos econômicos.

Entretanto, o público percebe o risco de uma forma muita mais subjetiva. Entram em jogo fatores sociais, ambientais e psicológicos. A percepção do risco vai além do indivíduo. É uma construção social e cultural que reflete símbolos, História e ideologias. Pesquisadores de percepção pública do risco identificaram algumas regras gerais que levam as pessoas a receber o perigo ou com um grito ou um bocejo:

1.As pessoas tendem a perceber riscos naturais como menos assustadores. Talvez isso explique porque energia nuclear é tão temida, mas a radioatividade natural do gás radônio é ignorada.

2.Além disso, riscos impostos parecem piores. O indivíduo pode decidir se quer correr o risco de nadar, mas quando um incinerador de resíduos perigosos é instalado ao lado de casa, ele sente-se impotente e em pânico.

3.Há também o fato de que riscos com vantagens óbvias são menos assustadores. A Medicina nuclear é vista com melhores olhos, pois as pessoas focam nas recompensas que ela pode trazer.

4.Já os riscos associados a tecnologias complexas e catástrofes parecem ser maiores e um dos motivos para essa percepção é que a mídia insiste nas catástrofes.

Medidas de segurança podem e devem ser tomadas para tornar os riscos socialmente aceitáveis. Mas o limite do “o quão seguro é seguro?” não está bem estabelecido. Um exemplo clássico é o uso de um pesticida que assegura a proteção do fornecimento de alimentos para muitos com o perigo finito para certos indivíduos sensíveis. Para a pessoa afetada adversamente, o risco ofusca completamente o benefício. A adição de medidas de segurança é inevitavelmente acompanhada por aumento do custo do dispositivo ou produto e a capacidade ou disposição para pagar por maior proteção varia muito entre as pessoas.

A segurança nuclear, por sua vez, é uma combinação sutil de fatores técnicos e psicológicos. Esse tema insere-se no âmbito da estrutura sócio-econômica-política e está intimamente relacionada com o conflito fundamental das liberdades individuais e de proteção pública através de medidas de controle. É presunçoso exigir que todas as ações possíveis devam ser tomadas para proporcionar segurança, assim como é negligente afirmar que por causa de utilidade evidente, nenhum esforço para melhorar a segurança é necessária.

Para os defensores dessa tecnologia, entre estas visões extremas, há ainda uma oportunidade de se chegar a soluções satisfatórias para o desenvolvimento da tecnologia nuclear em todas as suas potencialidades benéficas, com a aplicação de conhecimento técnico acompanhado da responsabilidade de avaliar e minimizar as consequências sociais e ambientais.


Para saber mais

Japan Earthquake Survey - Snap Poll - Instituto Gallup

Perspective on Public Opinion - NEI

Livro: Nuclear fear: a history of images, Spencer R. Weart, 1988.

Nuclear Stigma por James Flynn, no Livro The Social Amplification of Risk, 2003.


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sábado, 14 de maio de 2011

Os Simpsons e a energia nuclear

INTERROMPEMOS A NOSSA PROGRAMAÇÃO SOBRE O ACIDENTE DE CHERNOBIL PARA UM PRONUNCIAMENTO IMPORTANTE:

É com grande satisfação que anuncio que o blog, com dois meses e meio de vida, ultrapassou a marca das 1.000 visualizações!

Obrigada pelo apoio, pessoal. Vamos comemorar isso com os Simpsons.



A série "Os Simpsons" é uma paródia satírica do estilo de vida da classe média dos Estados Unidos, simbolizada pela família Simpson na cidade de Springfield. Essa cidade age como um universo completo, no qual os personagens podem explorar os problemas enfrentados pela sociedade contemporânea. Em "Os Simpsons", o governo e as grandes corporações são entidades insensíveis que se aproveitam do trabalhador comum, os políticos são corruptos, os religiosos são indiferentes aos fiéis e a polícia local é incompetente.

A energia nuclear também é um tema recorrente desde a criação da série em 1989. Homer Simpson trabalha na Usina Nuclear de Springfield, onde as normas de segurança são satiricamente relaxadas. Ele é um Inspetor de Segurança Nuclear do setor 7G e constantemente adormece e negligencia os seus deveres. A cena de abertura retrata Homer saindo da central nuclear de Springfield com uma vareta de combustível nuclear presa a sua roupa, sendo esta, posteriormente, atirada pela janela do seu carro. O descuido da usina por parte de seu proprietário, Montgomery Burns, e de seus funcionários, muitas vezes põe em risco os moradores da cidade local. A planta nuclear aproximou-se do colapso várias vezes, quase explodindo pelo menos uma vez. Além disso, a usina normalmente se livra dos rejeitos radioativos despejando-os de forma ilícita em áreas de preservação ambiental ao redor da cidade. Ironizando ainda mais a situação, a série já mostrou o surgimento de peixes com três olhos e o despreparo das autoridades.


É interessante notar o contexto no qual a série foi criada. Em 1989, 10 anos após o acidente nuclear de Three Mile Island e 3 anos após o acidente nuclear de Chernobil, cresciam cada vez mais as manifestações contrárias à energia nuclear. A segurança das usinas era constantemente questionada e as melhorias implementadas como normas de segurança após o acidente de Chernobil ainda não estavam completamente em prática. Isso se reflete nas primeiras temporadas de "Os Simpsons" com episódios inteiros girando em torno da questão nuclear. Com o passar dos anos, no entanto, esse tema aparece cada vez menos na série, tornando-se apenas um detalhe no contexto da estória.


Esse tom satírico da série, ao invés de levar a uma reflexão mais profunda do tema, tem, muitas vezes, o efeito contrário: apenas constrói um conceito superficial e negativo da energia nuclear nos espectadores. Tanto é que após o acidente nuclear do Japão, diversas emissoras de TV na Suíça, Alemanha, Canadá, Áustria, Austrália e Japão anunciaram a censura de alguns episódios da série que fazem piadas sobre a energia nuclear (veja a notícia aqui).

Por favor, não me compreendam mal! Não defendo a censura, nem pretendo lançar um movimento boicotando a série. Pelo contrário. Adoro "Os Simpsons" e sempre que sobra um tempinho eu assisto. O lance, como sempre insisto quando o assunto é mídia, é olhar conscientemente e criticamente: é entender que os temas ali aparecem exageradamente ridicularizados e usar isso como ponto de partida para uma análise mais profunda (de preferência usando diversas fontes) que lhe permita construir sua opinião sobre o assunto.

Esse trecho do programa comemorativo dos 20 anos de "Os Simpsons" fala um pouco sobre a contribuição da série para a percepção da energia nuclear (em inglês):



Teremos ainda muitos posts futuros sobre rejeitos radiotativos, segurança nuclear e efeitos biológicos das radiações, assuntos recorrentes na série. Por ora, confiram alguns episódios que selecionei pra vocês. (os episódios foram retirados do site, mas fica a lista como dicas de episódios com o tema nuclear).

1. A odisséia de Homer - Primeira temporada, episódio 03 (Janeiro/1990).

2. Peixe de três olhos - Segunda temporada, episódio 04 (Novembro/1990).


3. Definindo Homer - Terceira temporada, episódio 05 (Outubro/1991).

4. Burns Compra e vende - Terceira temporada, episódio 11 (Dezembro/1991).

5. Marge arranja um emprego - Quarta temporada, episódio 07 (Novembro/1992).

6. Marge contra o monotrilho - Quarta temporada, episódio 12 (Janeiro/1993).


7. O inimigo de Homer - Oitava temporada, episódio 23 (Maio/1997).


8. Na onda do mar - Nona temporada, episódio 19 (Março/1998).


Para saber mais:

Portal Simpsons

Episódios de "Os Simpsons" on-line
Guia de episódios de "Os Simpsons"
The Simpsons 20th Anniversary Special - in 3-D! On Ice! - Parte 1, Parte 2, Parte 3, Parte 4 e Parte 5.