quarta-feira, 14 de setembro de 2011

A opinião pública da tecnologia nuclear em meio século de História

Nada mais controverso que a energia nuclear. As “boas” e “más” aplicações da energia dos núcleos atômicos dividem a opinião pública em um cabo de guerra que já dura mais de meio século. A tecnologia que nos anos 50 era sinônimo de progresso para uma vida melhor, nos anos 80 transformou-se em um “demônio” abominado pela maioria da população. O debate sobre energia nuclear tornou-se quase uma guerra religiosa e a discussão, filosófica, girava em torno da natureza intrinsecamente boa ou má dessa tecnologia.

Na última década, no entanto, com os benefícios da Medicina Nuclear e a ausência de acidentes de grande magnitude nas usinas nucleares, esse cabo de guerra ficou mais balanceado. As pesquisas periódicas realizadas pelo o Instituto de Energia Nuclear (NEI, em inglês) revelam um aumento expressivo da opinião norte-americana a favor da geração de eletricidade a partir da energia nuclear: de 43%, em 1983, para 74%, em 2010.

No momento em que a indústria nuclear ensaiava a sua re-estréia, o desastre natural no Japão abalou sua popularidade. O acidente nuclear ocasionado pelo tsunami foi acompanhado em tempo real pelas redes e mídias sociais, mantendo o acidente na pauta da televisão, mesmo em sua fase de gestão de danos. Segundo a pesquisa realizada com 47 países em Abril (logo após o acidente) pelo Gallup-Global WIN, a reação negativa ao uso da energia nuclear subiu 11 pontos percentuais na média global, de 32% para 43%, na comparação das pesquisas antes e depois do acidente de Fukushima. No Brasil, em especial, a reação negativa subiu cinco pontos, de 49% para 54%.

Os defensores mais dedicados acreditam que a energia nuclear é segura, necessária e capaz de alcançar o sucesso, bastando somente a redução da oposição para isso. A grande maioria de físicos e engenheiros pertence a essa categoria, defendendo soluções técnicas para grande parte dos problemas da humanidade. Desse mesmo lado, estão aqueles com certo conhecimento técnico, mas que se preocupam com a habilidade dos homens em evitar acidentes ou garantir a segurança das instalações nucleares.

Por outro lado, há os cidadãos que desconfiam dos Governos e alertam a todos dos perigos dos acidentes envolvendo a tecnologia nuclear, como o acidente radiológico de Goiânia, o de Chernobil e, mais recentemente, o de Fukushima. Tais cidadãos costumam ser fortemente influenciados por discursos antinucleares e tendem a se opor ao desenvolvimento dessa tecnologia, embora reconheçam a necessidade de geração de energia e do avanço da medicina nuclear. Por fim, há os oponentes árduos da tecnologia nuclear, como alguns membros do Greenpeace, que discursam ativamente, geram polêmicas e participam de manifestações contrárias ao uso e desenvolvimento dessa tecnologia.

O fato é que a opinião pública sobre a tecnologia nuclear já mudou muito desde os experimentos de Rutherford que revelaram o núcleo dos átomos no início do século XX. Como na Democracia a voz do povo é um dos fatores que ponderam as decisões governamentais, o futuro da tecnologia nuclear depende, pelo menos em parte, da opinião pública. E, como diz o psicólogo James Flynn, pesquisador da Universidade de Oregon, nos Estados Unidos, compreender como o estigma nuclear foi criado é fundamental para entender como lidar com ele.


Do paraíso ao inferno

Nos anos 50, a energia nuclear era anunciada pela Comissão de Energia Atômica dos Estados Unidos, e também pela imprensa, como barata, inesgotável e segura. O congresso norte-americano apoiava o desenvolvimento de reatores nucleares e o público em geral parecia sentir que um grande progresso estava sendo feito. Surgiram nessa época os primeiros submarinos nucleares. A Ford chegou até a criar um carro conceito em 1958, o Ford Nucleon, movido pela fissão do Urânio em um pequeno reator nuclear (veja esse post).

Na década de 1960, no entanto, diversos fatores levantaram preocupações no público, iniciando o processo de reversão desse parecer favorável. Primeiro foi o movimento da juventude contra as regras e as autoridades. Na busca daquela geração por um estilo de vida mais simples e mais "natural", preferiu-se o uso da madeira e da energia solar ao de energia baseada na alta tecnologia. Outro alvo da oposição foi o complexo militar-industrial responsabilizado pela impopular Guerra do Vietnã. A versão 1980 dessa filosofia defendeu a descentralização do governo e da indústria, favorecendo pequenas unidades de energia controladas localmente, com base em recursos renováveis.

Já o movimento ambiental da década de 60, que revelou o quanto a poluição industrial afeta a vida selvagem e os seres humanos, questionava a possível contaminação do ar, da água e da terra por descargas acidentais de radioatividade dos reatores nucleares. Além disso, revelações recorrentes sobre a extensão do manejo inadequado de resíduos químicos perigosos tiveram o efeito colateral de criar opinião adversa sobre os resíduos radioativos.

Outro fator que resultou na queda da popularidade da tecnologia nuclear foi a crescente perda de respeito para com o governo norte-americano. Mudanças na política de gestão dos resíduos radioativos, de uma administração para outra, resultaram em inação, interpretada, por sua vez, como prova de ignorância ou inépcia. A opinião comum era que ninguém sabia o que fazer com os resíduos nucleares.

Já a confusão criada pelas diferenças nítidas na opinião dos cientistas sobre o desenvolvimento da energia nuclear causou incertezas na opinião pública. Ganhadores do prêmio Nobel ficaram divididos em ambos os lados do argumento, confundindo, consequentemente, o público em geral.

Além disso, a associação dos reatores com as armas nucleares foi e ainda é muito forte. De fato, os dois podem envolver o Plutônio, empregam o processo físico da fissão com nêutrons e têm subprodutos radioativos. Entretanto, essa conexão, cultivada pelos opositores da energia nuclear, enfatiza as semelhanças ao invés das diferenças entre eles.

Os acidentes envolvendo reatores nucleares são os que mais abalam a percepção pública no longo prazo, pois alimentam o medo fantasmagórico da radiação – o inimigo invisível. O físico norte-americano David Bodansky explica que diante de acidentes, as pessoas conseguem lidar melhor com efeitos de curto prazo, aqueles que acabam ao término do acidente. Entretanto, os acidentes nucleares, mesmo que no curto prazo resultem em poucos (ou nenhum) mortos e feridos, apavora as pessoas pela possibilidade de efeitos de longo prazo da exposição à radiação.

O acidente de Chernobil, o maior acidente nuclear da História, resultou na morte de 40 pessoas em até 3 meses após o acidente (veja esse post). Quanto aos efeitos de longo prazo, diversos estudos conduzidos por comissões internacionais de especialistas apontaram um aumento na incidência de câncer de tireóide nas crianças. Em números oficiais, 13 crianças morreram. Entretanto, milhares de imagens de mutações genéticas e cânceres são automaticamente associadas ao acidente na antiga União Soviética, mesmo que a relação causal entre a exposição à radiação e o câncer seja difícil, senão impossível, de provar.

Os pró-nucleares estão convencidos de que se as pessoas fossem devidamente informadas, a tecnologia nuclear seria aceitável. Segundo o físico Raymond Murray, da Universidade de Carolina do Norte, nos Estados Unidos, esta visão é apenas parcialmente correta, pois para ele “medos irracionais não podem ser removidos por fatos adicionais”.

Muitas pessoas têm procurado analisar esse fenômeno do medo nuclear, mas o estudo do físico Spencer Weart, ex-diretor do Centro de História da Física do Instituto Americano de Física (AIP) nos Estados Unidos, é um dos melhores. Ele argumenta que as imagens, tanto as criadas na ficção, como monstros radioativos, planetas explodindo como resultado da guerra nuclear e dispositivos estranhos que emitem raios gama, quanto as fotografias e outras imagens, conectam-se com forças sociais e psicológicas e influenciam de forma significativa o pensamento das pessoas sobre a tecnologia nuclear.

Pouco antes do acidente Three Mile Island, por exemplo, o filme "Síndrome da China" foi lançado. Ele conta a estória de um acidente hipotético em que o núcleo todo de um reator derrete, resultando no derretimento do solo até a China. Embora tal cenário não seja válido, os temores públicos foram despertados.


A percepção pública do risco

Toda atividade humana é acompanhada por certo risco de perda, dano ou perigo para os indivíduos. O simples ato de dirigir um automóvel na estrada, ou de ligar um aparelho elétrico em casa, ou mesmo de tomar um banho, deixa o indivíduo sujeito a certo perigo.

Todos concordam que o consumidor merece proteção contra o perigo que está fora de seu controle pessoal, mas não está claro até que ponto essa proteção restringe o uso das novas tecnologias. Em um limite absurdo, por exemplo, a proibição completa de todos os meios de transporte mecânicos asseguraria que ninguém seria morto em acidentes envolvendo carros, trens, aviões, barcos ou naves espaciais. Entretanto, hoje poucos aceitariam tais restrições. É fácil dizer que uma proteção razoável deve ser fornecida, mas a própria palavra "razoável" tem significados diferentes entre as pessoas.

O conceito de que o benefício deve superar o risco é atraente, mas é difícil avaliar o risco de uma inovação para a qual nenhuma experiência ou dados estatísticos estão disponíveis, ou para as quais o número de acidentes é tão baixo que muitos anos seriam necessários para se acumular estatísticas adequadas. Nesse caso, nem os benefícios são claramente definidos.

Tecnicamente, RISCO é definido como o produto entre a frequência de um evento e as consequências que esse evento pode causar. Para reatores nucleares, frequência significa o número de vezes por ano de operação por reator que se espera que o incidente ocorra. As consequências são os danos, tanto imediatos quanto latentes, que podem abranger desde vidas humanas até grandes prejuízos econômicos.

Entretanto, o público percebe o risco de uma forma muita mais subjetiva. Entram em jogo fatores sociais, ambientais e psicológicos. A percepção do risco vai além do indivíduo. É uma construção social e cultural que reflete símbolos, História e ideologias. Pesquisadores de percepção pública do risco identificaram algumas regras gerais que levam as pessoas a receber o perigo ou com um grito ou um bocejo:

1.As pessoas tendem a perceber riscos naturais como menos assustadores. Talvez isso explique porque energia nuclear é tão temida, mas a radioatividade natural do gás radônio é ignorada.

2.Além disso, riscos impostos parecem piores. O indivíduo pode decidir se quer correr o risco de nadar, mas quando um incinerador de resíduos perigosos é instalado ao lado de casa, ele sente-se impotente e em pânico.

3.Há também o fato de que riscos com vantagens óbvias são menos assustadores. A Medicina nuclear é vista com melhores olhos, pois as pessoas focam nas recompensas que ela pode trazer.

4.Já os riscos associados a tecnologias complexas e catástrofes parecem ser maiores e um dos motivos para essa percepção é que a mídia insiste nas catástrofes.

Medidas de segurança podem e devem ser tomadas para tornar os riscos socialmente aceitáveis. Mas o limite do “o quão seguro é seguro?” não está bem estabelecido. Um exemplo clássico é o uso de um pesticida que assegura a proteção do fornecimento de alimentos para muitos com o perigo finito para certos indivíduos sensíveis. Para a pessoa afetada adversamente, o risco ofusca completamente o benefício. A adição de medidas de segurança é inevitavelmente acompanhada por aumento do custo do dispositivo ou produto e a capacidade ou disposição para pagar por maior proteção varia muito entre as pessoas.

A segurança nuclear, por sua vez, é uma combinação sutil de fatores técnicos e psicológicos. Esse tema insere-se no âmbito da estrutura sócio-econômica-política e está intimamente relacionada com o conflito fundamental das liberdades individuais e de proteção pública através de medidas de controle. É presunçoso exigir que todas as ações possíveis devam ser tomadas para proporcionar segurança, assim como é negligente afirmar que por causa de utilidade evidente, nenhum esforço para melhorar a segurança é necessária.

Para os defensores dessa tecnologia, entre estas visões extremas, há ainda uma oportunidade de se chegar a soluções satisfatórias para o desenvolvimento da tecnologia nuclear em todas as suas potencialidades benéficas, com a aplicação de conhecimento técnico acompanhado da responsabilidade de avaliar e minimizar as consequências sociais e ambientais.


Para saber mais

Japan Earthquake Survey - Snap Poll - Instituto Gallup

Perspective on Public Opinion - NEI

Livro: Nuclear fear: a history of images, Spencer R. Weart, 1988.

Nuclear Stigma por James Flynn, no Livro The Social Amplification of Risk, 2003.


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Um comentário:

  1. Texto muito bom. Posso usá-lo como referência para um trabalho?

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