Mostrando postagens com marcador Opinião. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Opinião. Mostrar todas as postagens

domingo, 13 de maio de 2012

A energia nuclear na revista Estudos Avançados

Às vésperas da conferência Rio+20, o Instituto de Estudos Avançados da USP lançou, na última sexta-feira, o número 74 de sua revista cujo o tema é "Sustentabilidade".

Com uma seção destinada à energia, quatro dos seis textos "discutem" a questão da energia nuclear. Na verdade, nas palavras do editorial, os textos revelam que "a hipótese da suficiência de nossas fontes é alentadora e alimenta a esperança de que é possível evitar o risco desnecessário de explorar a energia nuclear" (!).

Sim, caro leitor, todos os quatro textos que tratam do assunto são contra a energia nuclear! É interessante notar que isso reflete a opinião do editor da revista, o Dr. Alfredo Bosi, professor da Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas da USP e membro da Coalizão Brasileira contra as Usinas Nucleares. Ele já teve um texto comentado por mim aqui no blog.

Textos que eu não recomendo

O texto Repensando a energia nuclear, do ambientalista Benjamin Sovacool, fala especificamente do contexto norte-americano. Um trecho desse texto já foi comentado aqui no blog. Cuidado com esse texto, caro leitor: ele é falacioso!

O artigo Os deletérios impactos da crise nuclear no Japão, é uma confusão danada! Embora o título (e o resumo) referem-se ao acidente de Fukushima, o texto em si fala sobre aspectos negativos gerais da energia nuclear. Até que o texto começa bem, falando dos efeitos de certos produtos de fissão à saúde e ao meio ambiente. Mas depois, fala sobre as vítimas da bomba atômica e as compara às de Fukushima (!). O texto finaliza com o "sempre perigoso lixo atômico"...

Textos interessantes

A entrevista com o físico Bernard Laplonche, Qual energia desejamos para o futuro?, trata principalmente da situação da França, país cuja matriz energética é prioritariamente nuclear. É uma entrevista interessante já que Laplonche iniciou sua carreira na área nuclear, mas depois mudou de opinião sobre o uso dessa forma de energia.

Por fim, o artigo O espaço da energia nuclear no Brasil, de Joaquim Francisco de Carvalho, também é uma leitura interessante. Ele fala sobre a história da energia nuclear e suas aplicações no País, defendendo a ideia de que o Brasil pode atender sua demanda por eletricidade sem energia nuclear. O artigo analisa também os argumentos comuns na imprensa, a favor e contrários às centrais nucleares, bem como alguns aspectos comerciais e políticos do problema.

A revista Estudos Avançados está disponível integralmente na Scielo. Boa leitura!


Posts relacionados

Energia nuclear: o retrocesso do debate
Queimar carvão para enriquecer e reprocessar Urânio: que papo é esse?
Robert Gale: "O saldo de Fukushima será modesto"
Top 9 mitos sobre energia nuclear
É preciso ser antinuclear para ser ambientalista?
E o tal do "lixo atômico"?

sábado, 5 de maio de 2012

Presidente da Eletronuclear no Canal Livre

O programa de entrevistas Canal Livre, que foi ao ar na Band no último Domingo, 29 de Abril, recebeu o presidente da Eletronuclear, o Dr. Othon Pinheiro da Silva, para falar sobre o programa nuclear brasileiro.

O Dr. Othon já foi membro da Marinha do Brasil e teve um papel fundamental no desenvolvimento das centrífugas para o enriquecimento de Urânio. Veja esse post para saber mais sobre ele.

Confira a entrevista completa abaixo.








Posts relacionados

Quem é Othon Luiz Pinheiro da Silva?

Inicia-se a nova era do submarino nuclear brasileiro!

Entrevista: Enriquecendo com laser, a técnica para o futuro

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Roda Viva com José Goldemberg

No programa Roda Viva com o Dr. José Goldemberg, que foi ao ar na TV Cultura em 09/04/2012, são discutidos diversos assuntos relacionados à energia no Brasil e aos impactos disso no meio ambiente, tema que ganha novo fôlego às vésperas da Conferência Rio +20, marcada para Junho desse ano.

Embora a energia nuclear não seja o foco dessa discussão, outros aspectos da política energética brasileira, como as fontes fósseis com o petróleo do pré-Sal, as hidroelétricas com a Usina de Belo Monte, a energia eólica e a biomassa, entre outras, também são importantes no debate da energia nuclear no Brasil.

José Goldemberg é físico e possui doutorado em física nuclear pela Universidade de São Paulo (USP). É membro da Academia Brasileira de Ciências e já foi reitor da USP (1986 - 1990). No governo federal, foi secretário da Ciência e Tecnologia (1990 - 1991), ministro da Educação (1991 - 1992) e secretário do Meio Ambiente (março a julho de 1992), durante o governo de Fernando Collor de Mello. No estado de São Paulo, foi secretário do Meio Ambiente de 2002 a 2006. Dentre os prêmios recebidos, destaca-se o Prêmio Planeta Azul (2008) considerado um dos maiores da área do meio ambiente. Na mídia, Goldemberg frequentemente aparece defendendo a energia eólica e a biomassa e se opondo à construção de novas usinas nucleares no Brasil.

Confira o Roda Viva com o Dr. José Goldemberg.




Posts relacionados

Dica de livro - Energia Nuclear: do anátema ao diálogo

Palestra na rede: o futuro da energia nuclear no País

Dos fósseis aos renováveis: a difícil transição energética

domingo, 5 de fevereiro de 2012

E se o Irã cruzar a linha?

"Armas nucleares por si só têm pouca valia; elas não fizeram Saddam se render, não levaram a Sérvia a abrir mão do Kosovo nem intimidaram vietnamitas."

LEONAM DOS SANTOS GUIMARÃES
Publicado Folha de São Paulo, 
27 janeiro 2012


O Irã já tem capacidade nuclear, mas a construção de armas nucleares não é uma consequência necessária dessa constatação. A Suécia, a Alemanha e o Japão também têm capacidade nuclear. Mas esses países nunca cruzaram a linha entre "ter capacidade nuclear" e "ter armas nucleares". No Brasil, a Constituição veta cruzar essa linha. Israel, Índia, Paquistão e Coreia do Norte, por outro lado, fizeram isso.

Se o Irã vier a cruzar essa linha nos próximos anos, irá descobrir rapidamente aquilo que todos os líderes das potências que possuem armas nucleares já sabem (ou deveriam saber): as armas por si só têm pouca valia.

Os países que têm armas nucleares não podem usá-las para forçar as suas demandas a outras nações. Se pudessem, os Estados nucleares e não nucleares nunca entrariam em um conflito armado convencional, como a Guerra das Malvinas.

A posse de armas nucleares não foi suficiente para obrigar a rendição de Saddam Hussein em 1991 ou em 2003. Também não conseguiu forçar a Sérvia a abrir mão do Kosovo em 1999. Nem as armas nucleares americanas, em 1965, nem as chinesas, em 1979, conseguiram intimidar os vietnamitas.
Paradoxalmente, existem casos em que Estados que não possuem armas nucleares se lançaram em conflitos contra Estados que possuem. As armas nucleares israelenses não impediram os ataques sírios e egípcios em 1973. As armas nucleares russas não intimidaram a Geórgia em 2008, assim como não intimidam aos tchetchenos até hoje.

A Coreia do Norte tem armas nucleares há cinco anos. Ainda assim, além de não conseguir intimidar a Coreia do Sul, o país nem sequer forçou outros países a fornecer, por exemplo, alimentos suficientes para afastar a desnutrição endêmica que grassa em seu país.

A posse de armas nucleares não garante que os vizinhos de um país se curvem a seus interesses. Elas também não podem resolver litígios fronteiriços. As armas nucleares não podem impedir ataques terroristas, assim como não podem derrubar governos estrangeiros.

De fato, como o Paquistão aprendeu recentemente, armas nucleares nem mesmo garantem a própria integridade territorial, tendo em vista as ações do Taleban afegão.

Muitos argumentam que o Irã esteja sendo dirigido por um culto messiânico e apocalíptico, que não pode ser contido nem dissuadido.

Essas mesmas acusações já foram feitas, com melhores justificativas, ao Partido Comunista da China sob Mao Tsé-tung. Mas, embora o Irã, sem dúvida, exerça uma influência negativa na região, não há, de forma alguma, indícios de que o país planeje realizar o suicídio nacional, dada a esmagadora superioridade nuclear ocidental.

O desafio que a comunidade internacional enfrenta é estabelecer estratégias estruturadas de dissuasão e de contenção de países potencialmente proliferantes. É necessário também evitar a tentação de revidar impensadamente sob motivação do medo exagerado ou de "objetivos maiores" não explicitamente declarados.

A história nos mostra que a busca pela posse de armas nucleares é muito mais uma resposta dissuasória a ameaças percebidas do que a preparação para uma agressão. Gaddafi deve ter se arrependido de ter abandonado esse objetivo em 2003.


LEONAM DOS SANTOS GUIMARÃES, Doutor em engenharia naval e mestre em engenharia nuclear, é membro do grupo de assessoria permanente em energia nuclear da Agência Internacional de Energia Atômica e assistente da Presidência da Eletronuclear S.A.

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

O exército dos fantasmas da radiação

O fantasma da radiação assombra a sociedade há pelo menos meio século. E o grupo de artistas anônimos Luzinterruptus transformou esse nosso medo de fantasma em arte/protesto contra a energia nuclear.

A instalação Controle Radioativo foi montada em Hamburgo, na Alemanha, para o festival de música e arte Dockville, em Agosto desse ano. Nela, um exército de 100 figuras humanas vestidas com "roupas anti-radiação" e iluminadas "avançavam" em direção ao local do festival.

O objetivo era "convidar as pessoas à reflexão" sobre o uso da energia nuclear e seus efeitos à saúde e ao meio-ambiente. Segundo o manifesto do Luzinterruptus, eles queriam "simular, para o festival, uma vida sob constante ameaça de acidentes nucleares".

Vejam algumas fotos:






Bonito, não? Parece mesmo um exército de fantasmas da radiação! Inicialmente, achei a proposta interessante. De fato, uma das manifestações contra a energia nuclear mais artísticas que já vi.

Entretanto, gostaria de chamar a atenção para um ponto. Ao usar estas figuras fantasmagóricas e associá-las ao símbolo radioativo do trifólio, o grupo Luzinterruptus contribui para mitificar ainda mais a radiação!

De fato, o interessante dessa manifestação é que além de representar a materialização do senso comum (o medo da radiação) que a grande maioria das pessoas cultiva consciente ou incoscientemente, ela reflete, também, o clássico discurso do contra que desde a década de 60 já apela ao medo nuclear (já falei um pouco disso em outro post). A expressão "uma vida sob constante ameaça de acidentes nucleares" usada pelo grupo me leva a apostar que essa foi sua motivação.

Se a missão era realmente "convidar à reflexão" acerca do uso da energia nuclear, acho que o grupo falhou. Na prática, acredito que o máximo que eles conseguiram foi (re)acender o medo nuclear. Infelizmente.


Para saber mais:

Site dos Luzinterruptus - Under nuclear threat


Posts relacionados:

Energia nuclear: o retrocesso do debate!
A opinião pública da tecnologia nuclear em meio século de História

domingo, 30 de outubro de 2011

Palestra na rede: o futuro da energia nuclear no País

O Doutor Leonam dos Santos Guimarães, assessor da presidência da Eletronuclear, empresa responsável pela operação das usinas de Angra dos Reis, afirma que vale a pena ter mais usinas nucleares em solo brasileiro. E o aumento do número de usinas será particularmente importante depois de 2030.

Usando-se do Plano Nacional de Energia 2030 feito pela Empresa de Pesquisas Energéticas (EPE), Leonam argumenta que, depois de 2030, a expansão da geração hidrelétrica será complicada (em áreas de terras indígenas e unidades de conservação ambiental), restando a expansão da geração termelétrica, através do gás natural e da energia nuclear, para suprir a demanda energética brasileira. Mesmo antes disso, entre 2020 e 2030, para manter a expansão da oferta energética em um cenário em que o potencial hídrico encontrar-se-á em vias de esgotamento, a energia nuclear torna-se estratégica.

Segundo Leonam, “não existe panacéia. A energia nuclear não é a 'cura de todos os males' do setor energético. Mas, ela exerce um papel importante de complementação térmica dentro da matriz energética diversificada que o País mantém”. Devido à sazonalidade da oferta hídrica, todos os anos a gestão segura do sistema hidrotérmico brasileiro requer, durante o ano todo, entre 2.000 e 10.000 MegaWatts (MW) térmicos complementares. E para essa necessidade de complementação térmica, a energia nuclear mostra-se a mais econômica.

Quando questionado sobre os impactos que as novas medidas de segurança resultantes do acidente nuclear japonês terão sobre os custos da geração nucleoelétrica, Leonam explica que não haverá custos adicionais no MW elétrico para as novas usinas. Isso porque as novas medidas de segurança serão implementadas já na fase de projeto das usinas. Entretanto, ressalta que para usinas nucleares com mais de 30 anos, estes custos, nesses casos entendidos como custos de manutenção, podem ser altos.

Embora a percepção pública da energia nuclear tenha sido negativamente afetada com o acidente nuclear no Japão, Leonam acredita que isso não prejudicará de forma substancial a instalação de novas usinas em solo brasileiro. Entretanto, reforça que é preciso fornecer à população acesso ao conhecimento.

Por fim, Leonam ressalta que esse assunto não deve ser discutido emocionalmente nem resolvido com ações populistas. “A decisão por novas usinas tem que ser resultado da demanda do mercado por energia. É uma atividade econômica que se justifica por ser financeiramente autossustentável e deve ser analisada dentro do setor energético”.

A palestra na qual Leonam analisou as perspectivas da energia nuclear no País foi realizada no Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (IPEN) em São Paulo, no dia 22 de Junho deste ano. Ela foi gravada e está disponível para o público no website do IPEN, no link indicado abaixo.

*** LINK PARA A PALESTRA ***

Confira!

Posts relacionados:

Devemos ou não investir em novas usinas nucleares?
Energia nuclear no primeiro semestre de 2011

domingo, 9 de outubro de 2011

Dos fósseis aos renováveis: a difícil transição energética

Já são tão comuns os discursos que defendem a passagem IMEDIATA para as chamadas fontes renováveis de energia que nem paramos para pensar se isso de fato é possível. E muitas vezes a energia nuclear é pintada como a grande inimiga dessas fontes renováveis. Pura bobagem!

O Dr. Ronaldo Goulart Bicalho, Pesquisador do Grupo de Economia da Energia da Universidade Federal do Rio de Janeiro, esclarece as dificuldades tecnológicas, econômicas e político-institucionais de se aumentar a participação das fontes renováveis na matriz energética.


Dos fósseis aos renováveis: a difícil transição energética

Por Ronaldo Bicalho (Fonte: Blog Infopetro)


A construção de uma política energética, que administre a difícil passagem de uma economia baseada nos combustíveis fósseis para uma economia de baixo carbono, não é uma tarefa fácil.

A massiva substituição dos combustíveis fósseis pelas fontes de energia renováveis envolve mudanças tecnológicas, econômicas e institucionais significativas. Essas mudanças transcendem o setor energético e abarcam temas que dizem respeito a um conjunto de valores associados ao papel crucial da energia no desenvolvimento econômico e no bem estar social e à relação com os recursos naturais e o meio ambiente derivada, justamente, dessa crucialidade.

A compatibilização entre os imperativos da segurança energética e os da mudança climática, mediante o recurso à penalização dos combustíveis fósseis e ao incentivo às renováveis, tem-se demonstrado na prática muito mais complexa do que o imaginado inicialmente.

A idéia de reunir o melhor dos dois mundos – a autossuficiência e a baixa emissão, o aumento da segurança energética e o combate aos fatores geradores da mudança climática – em torno da ampliação das fontes renováveis na matriz energética vem encontrando dificuldades tecnológicas, econômicas e político-institucionais crescentes.

A primeira dificuldade é tecnológica e diz respeito à necessidade de que haja avanços significativos nas tecnologias renováveis para que elas possam competir de fato com as tecnologias tradicionais. Esses avanços referem-se à superação dos problemas associados às baixas estocabilidade, densidade e escala, características do atual estágio de desenvolvimento das renováveis.

O problema principal aqui é que é baixa a probabilidade de que estejamos no limiar de rupturas tecnológicas radicais nessa área, que impliquem em um desenvolvimento em escala massiva de fontes de energia limpas e baratas.

Na verdade, o desenvolvimento de novas tecnologias energéticas limpas tem-se demonstrado muito difícil e caro, o que faz com que muitos especialistas considerem que sem o apoio continuado dos subsídios e incentivos governamentais, essas tecnologias terão um impacto muito pequeno no mix energético.

Dessa maneira, deve ser encarada com certo cuidado a concepção de que o avanço tecnológico esteja às portas de tornar as renováveis competitivas na geração de eletricidade, ou de produzir uma bateria que faça com que o veículo elétrico seja capaz de competir de igual para igual com o carro a gasolina tanto em termos de preço quanto de autonomia.

Não se deve esquecer que a grande vantagem das fontes fósseis é a sua flexibilidade; ou seja, a sua capacidade de fornecer a quantidade de energia desejada, no momento desejado e no local desejado. Essa “liquidez” energética, que garante a elevada certeza do acesso imediato a um “poder energético”, quer seja em termos de calor ou de trabalho, sem “restrição” temporal ou espacial, advém, justamente, da estocabilidade e densidade elevadas, intrínsecas a essas fontes.

O grande desafio das fontes renováveis é exatamente a construção dessa flexibilidade, dessa liquidez, de tal forma a permitir a substituição em grande escala dos combustíveis fósseis sem a alteração do padrão de consumo de energia tradicional.

Na medida em que essa substituição hoje não se sustenta tecnologicamente, via uma radical redução dos seus custos, a expansão das renováveis passa a depender de mecanismos que as tornem competitivas frente às fontes fósseis.

Esses mecanismos acabam passando, de uma forma ou de outra, pela penalização do uso dos combustíveis fósseis e pelos incentivos ao uso das fontes renováveis.

Dessa forma, o estabelecimento de um preço/custo para as emissões de CO2, na forma de uma taxação ou de um sistema tipo cap-and-trade, surge como uma forma de penalizar o uso dos fósseis.

Essa é uma maneira de elevar o custo da energia derivada dos combustíveis fósseis, de tal forma que as tecnologias mais limpas possam enfrentá-la no mercado em melhores condições do que as atuais.

Por outro lado, pode-se tentar despejar pesados incentivos à expansão dos renováveis mediante o recurso a mecanismos fiscais e financeiros que por outras vias acabam construindo a competitividade que se deseja para essas fontes.

Contudo, tanto em um caso quanto no outro, trata-se de uma competitividade construída institucionalmente pelo Estado. O que coloca a política energética no centro da dinâmica de evolução do setor energético no início deste milênio.

Essa evolução passa a depender das escolhas sobre quais serão as fontes, os setores, os agentes econômicos e os atores políticos que serão penalizados e quais serão aqueles que serão incentivados por essas mesmas escolhas.

Note-se que a questão fundamental não é a substituição das fontes fósseis pelas renováveis, mas a transição entre elas, tanto no que concerne à sua duração quanto ao seu conteúdo.

A duração e o conteúdo da transição são essenciais porque eles definem a quantidade de recursos que será desembolsada pelo consumidor e/ou pelo contribuinte durante esse processo.

É evidente que quanto maior for essa quantidade, maiores serão os impactos tanto sobre a competitividade e o acesso à energia quanto sobre as contas dos governos.

Nesse caso, a busca de uma fonte de energia, que possa desempenhar o papel de ponte entre a situação atual e o futuro desejado, surge como uma maneira de administrar os custos da transição.

A escolha alemã pela energia nuclear, antes de Fukushima, e a aparente inclinação atual dos americanos pelo gás natural não convencional vão nessa direção da busca pela fonte de transição. Que pode ser uma fonte de emissão zero, como é o caso do nuclear, ou uma fonte com uma taxa de emissão mais baixa do que aquelas apresentadas pelo carvão e pelos derivados de petróleo, como é o caso do gás natural.

O recente recuo alemão, com o descarte do nuclear, pode apontar na direção da transição direta, com a radicalização do processo de mudança, que se, por um lado, reduz a duração desse processo, por outro, aumenta os seus custos e a sua incerteza. Esse aumento tem colocado dúvidas sobre as reais intenções e sustentabilidade econômica e política da proposta alemã. Principalmente, quando se contempla a crise européia.

Nesse sentido, o atual quadro de crise econômica e fiscal dos países desenvolvidos deve se tornar o maior obstáculo a implementação de uma agressiva política energética de ampliação massiva das fontes renováveis na matriz energética; principalmente, devido aos elevados custos associados a essa implementação.

No entanto, não existe uma forma única de se encarar esse quadro. Se um observador mirar a posição européia a partir de Bruxelas poderá chegar a conclusão de que os europeus estão dispostos a pagar todos os custos, quaisquer que eles sejam, relacionados ao cambio para uma economia de baixo carbono. De outra feita, se esse mesmo observador olhar para a posição da maioria republicana na Câmara dos Deputados chegará a conclusão de que os americanos não estão dispostos a pagar nenhum dos custos desse câmbio.

É evidente que tanto Bruxelas quanto os republicanos não podem ser considerados como sínteses das posições européias e americanas. Até porque é muito difícil falar em termos de posições sínteses que representem algum tipo de convergência atual em torno desses temas. Contudo, essas posições sintetizam as fortes dificuldades encontradas quando se busca construir uma convergência entre as políticas energéticas e ambientais no âmbito mundial. Convergência esta imprescindível para enfrentar a natureza global dos problemas relacionados à mudança climática.

Dessa maneira, considerar que no contexto atual não existem restrições tecnológicas e econômicas à passada dos fósseis para os renováveis, bastando simplesmente a vontade política de fazê-la, é a maneira mais certeira de inviabilizar qualquer política que pretenda justamente fazer essa passada de forma consistente econômica, tecnológica e institucionalmente.

Deve-se ter claro que as restrições tecnológicas e econômicas tornam a ampliação significativa da participação das fontes renováveis na matriz energética um objetivo que só pode ser alcançado hoje mediante a forte intervenção do Estado, utilizando-se de mecanismos de penalizações e incentivos que rebatem fortemente em custos e subsídios, que geram constrangimentos à competitividade e ao equilíbrio fiscal.

Abstrair essas restrições e esses constrangimentos é falsear o debate e se afastar de uma solução que seja, de fato, politicamente sustentável.

Não é apenas a ignorância dos efeitos da mudança climática que torna difícil a transição para uma economia de baixo carbono, a ignorância dos custos reais dessa transição também torna difícil a definição de uma política consistente que administre esse processo difícil e extremamente complexo em termos tecnológico, econômico e político.


Para saber mais:

Segurança energética e mudança climática: diferentes visões, diferentes políticas
Segurança energética e mudança climática: a difícil convergência
O acidente nuclear no Japão, a escassez energética e a mudança climática global


Posts relacionados:

Fornecedores apertados sem demanda nuclear
É preciso ser antinuclear para ser ambientalista?
Energia nuclear no primeiro semestre de 2011
Queimar carvão para enriquecer e reprocessar Urânio: que papo é esse?

terça-feira, 6 de setembro de 2011

É preciso ser antinuclear para ser ambientalista?

Recebi contribuições muito interessantes nessa última semana que, aos poucos, irei publicando aqui no blog.

Vou começar com uma que me fez pensar se é preciso ser antinuclear para ser ambientalista. Talvez eu tenha dado essa impressão aos leitores com o meu último post. Então, justiça seja feita: existem SIM pessoas que defendem o meio-ambiente sem travar uma Cruzada contra a energia nuclear.

Esse é o caso, por exemplo, do ambientalista dinamarquês Björn Lomborg, autor de dois livros (The Skeptical Environmentalist e Cool It) e diretor do Conpenhagen Consensus Centre na Escola de Negócios de Copenhagen, entre outras coisas.

Confiram esse texto de sua autoria, publicado no The Sheaf em Abril desse ano.

---------------------------------------------------------------------------------------------

É cedo demais para abandonar a energia nuclear

Björn Lomborg

Tradução de Ricardo Sovat*

NOVA YORK — Recentemente, quando partes do Japão foram devastadas por um terremoto e pelo tsunami subsequente, as notícias das perdas humanas foram rapidamente ofuscadas pelo medo global da precipitação radioativa vinda da usina nuclear de Fukushima. A preocupação era compreensível: radiação é muito assustadora. Eu cresci na Dinamarca, num tempo em que o medo da energia nuclear era generalizado.

Porém, nossos últimos medos nucleares possuem implicações mais abrangentes, especialmente quanto ao fornecimento de energia e nosso desejo de nos afastarmos da dependência de combustíveis fósseis. É difícil distanciar-se no momento de um desastre natural de modo a ter uma perspectiva mais ampla; mesmo tentar fazê-lo pode parecer estúpido. Mas existem alguns fatos que não devemos ignorar.

Durante a cobertura diária do drama nuclear, o fantasma de Chernobyl foi invocado repetidamente. Vale a pena notar que o pior desastre na história causou apenas 31 mortes diretamente. A Organização Mundial de Saúde estima que 4000 mortes possam estar ligadas àquele desastre ao longo destes de 70 anos, enquanto que a OECD (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômicos) projeta algo entre 9000 e 33000 mortes durante este tempo.

Isto é considerável. Porém, leve em conta que, de acordo com o OECD, a cada ano aproximadamente um milhão de pessoas morrem por causa de micropartículas da poluição atmosférica. Contudo, esta taxa de morte em massa não provoca nenhum medo visível no mundo desenvolvido, e não recebe virtualmente nenhuma cobertura da mídia.

Claro, cada país com instalações de energia nuclear deveria revisar suas medidas de segurança em vista do desastre japonês, que levantou questões óbvias sobre os locais escolhidos para essas instalações. Claramente, usinas localizadas próximo a áreas propensas a tsunamis precisam ser repensadas e alguns países têm usinas assustadoramente próximas a falhas sísmicas — e a grandes cidades.

Porém, enquanto o compromisso dos EUA com a energia nuclear foi rapidamente reafirmado pelo Presidente Barack Obama, alguns governos europeus tomaram a decisão submissa de congelar imediatamente todos os novos projetos de energia nuclear, e, no caso da Alemanha, não estender a vida útil dos reatores existentes. Para a Alemanha, isto vai deixar um vazio que não poderá preencher com fontes de energia alternativas, restando-lhe poucas escolhas a não ser basear-se mais intensamente na energia do carvão.

Vemos o carvão como uma fonte de energia poluente, mas razoavelmente “segura”, comparada à energia nuclear. Contudo, só na China, acidentes na minas de carvão matam mais que 2000 pessoas a cada ano — e o carvão é a principal causa do smog, da chuva ácida, do aquecimento global e da toxicidade do ar. Em decorrência da decisão da Alemanha, espera-se agora que sua emissão anual de carbono aumente em 10% — em um momento em que as emissões da União Europeia estão subindo ao mesmo tempo em que o continente é sacudido pelos efeitos da crise econômica.

A Alemanha não tem uma alternativa de baixa emissão de carbono se fechar suas usinas nucleares, e o mesmo vale para a maioria dos outros países. Fontes de energia alternativa são caras demais e de modo algum são confiáveis o suficiente para substituir combustíveis fósseis.

Embora preocupações de segurança sejam preponderantes neste momento, a construção de novas usinas enfrenta outro obstáculo: elas são muito caras. Novas usinas nucleares apresentam elevados custos prévios (o que pode ser politicamente desafiador), incluindo um processo de planejamento muito complicado, demorado e tenso. No final, o custo total de uma usina nuclear é significativamente mais alto que o da usina mais barata baseada em combustível fóssil. E a sociedade precisa suportar custos adicionais significativos em termos de riscos de armazenamento de resíduos de combustível e de acidentes em larga escala. Além disso, na maior parte do mundo onde o consumo de energia está aumentando, a proliferação nuclear é uma questão levada em conta.

E existe a questão de manter as usinas existentes. Desativar reatores nucleares pode fazer-nos sentir mais seguros, mas nós deveríamos reconhecer que isto frequentemente significará compensar a perda de produção com maior dependência do carvão, implicando mais emissões que contribuem para o aquecimento global, e mais mortes, tanto da extração do carvão como da poluição atmosférica.

Além do mais, levando-se em conta que as usinas já se pagaram, as instalações para os resíduos já estão prontas e o alto custo da desativação terá de ser pago não importa quando, os custos reais de operação são muito baixos — metade ou menos por quilowatt-hora do que o custo dos combustíveis fósseis mais baratos.

A solução em longo prazo é mais pesquisa e desenvolvimento — não só em energia nuclear mais segura, de ponta, mas também em fontes energéticas como solar e eólica, que atualmente produzem bem menos que 1% da energia do planeta. De forma alarmante, estas pesquisas foram reduzidas ao longo das últimas três décadas.

Em protestos que exigiam que os políticos se posicionassem quanto à mudança climática, um grito soou: “Sem carvão, sem gás, sem nucleares, sem brincadeira!” A dura realidade — evidenciada elo desastre japonês — é que nós não podemos ainda nos dar ao luxo de desprezar o carvão, o gás e a energia nuclear. Até que possamos ter uma alternativa viável, reduzir a dependência em qualquer um deles significa que outro do grupo tem que tomar seu lugar.


* Obrigada pela participação e tradução Ricardo. 


Posts Relacionados

Energia nuclear: o retrocesso do debate

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Energia nuclear: o retrocesso do debate


Domingo, 21 de Agosto de 2011. Eis que surge, na Folha de São Paulo, um exemplo ESPETACULAR de como NÃO conduzir o debate sobre a energia nuclear no Brasil! Na coluna Tendências e Debates, o Dr. Alfredo Bosi, professor da Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas da USP (Universidade de São Paulo) discorre sobre o tema de forma lamentável! Entretanto, antes de dar o meu pitaco, convido vocês à leitura da coluna.

................................................................................................................


Angra 3 é uma questão ética

ALFREDO BOSI

O referendo italiano que rejeitou maciçamente as usinas nucleares é modelo de participação popular; talvez seja o caso de imitá-lo aqui
 

Se a construção de uma usina nuclear fosse apenas uma questão técnica, seria reduzido o número das pessoas capazes de opinar sobre o assunto. Mas os riscos a que estão sujeitas as populações que vivem perto dos reatores são inegáveis. Como nenhum cientista pode afirmar que o risco é zero, a questão passa a ser ética.
Como delegar a sorte de milhares de cidadãos à onipotência de alguns tecnocratas e aos interesses desta ou daquela empresa? Um programa sem o respaldo da opinião pública esclarecida é acintosamente antidemocrático. O referendo italiano que rejeitou maciçamente as usinas nucleares é modelo de participação popular. Talvez seja o caso de imitá-lo.
Na Alemanha, a decisão do governo de suspender o programa nuclear atendeu a um movimento cívico que exige investimento em formas de energia renováveis e seguras. Por que o BNDES se dispõe a malbaratar bilhões de dólares em Angra 3 em vez de aplicar esse capital, arrancado aos contribuintes, na difusão em larga escala daquelas formas de energia?
As empresas nucleares preferem privatizar benefícios e socializar prejuízos, no caso, perigos.
Mas não há dinheiro que possa indenizar câncer hepático ou leucemia nas crianças vítimas dos vazamentos. O cidadão brasileiro tem o direito de perguntar: o que será feito com o lixo de Angra 1, 2 e 3? Que direito temos de legar aos pósteros esse pesadelo?
O presidente Bush autorizou a remoção dos rejeitos para depósitos a serem cavados em Yucca Mountain, mas a população do Estado de Nevada e as comunidades indígenas que lá vivem há séculos rebelaram-se contra uma decisão que violava o seu território. Obama prometeu revogar o decreto do antecessor, mas o impasse continua.
Físicos da envergadura do saudoso Mário Schenberg (que condenou a instalação de uma usina em Iguape), J. Goldemberg, Pinguelli Rosa, Cerqueira Leite, Ildo Sauer e Joaquim Carvalho alertam para o caráter desnecessário da energia nuclear no Brasil. As potencialidades de nossa biomassa, bem como de outras fontes renováveis, fornecem base segura para um desenvolvimento sustentável.
Nossos cientistas são evidentemente favoráveis a pesquisas na área nuclear que tenham aplicações na biologia, na medicina e na agricultura. A energia nuclear é cara. Dados do Greenpeace: "O preço da tarifa ao consumidor pode sair por US$ 113/MWh, contra US$ 74/ MWh da energia gerada pela biomassa e US$ 82/MWh da eólica".
Arriscada, desnecessária, cara..., mas dirão que é limpa; desde quando lixo atômico é sinal de limpeza?
O enriquecimento do urânio depende de eletricidade gerada por combustíveis fósseis, como o carvão. Duas das minas de carvão mais poluentes dos Estados Unidos, em Ohio e em Indiana, produzem eletricidade para enriquecer urânio. É o que informa B. Sovacool no número 150 da "Foreign Policy".
Enfim, uma boa notícia. A OAB anunciou, em 4 de julho de 2011, que está recorrendo ao Supremo Tribunal Federal exigindo que a eventual retomada das obras de Angra 3 só possa fazer-se com autorização do Congresso Nacional e mediante nova legislação federal.
Assim o requer a Constituição de 1988. Que os parlamentares ouçam a voz dos eleitores e não se dobrem às pressões de empresários gananciosos e políticos desinformados.


ALFREDO BOSI, 74, é professor emérito da USP, membro da Academia Brasileira de Letras e participante da Coalizão Brasileira contra as Usinas Nucleares. 
.....................................................................................................................................

E aí, o que acharam? Bem, eu digo o que eu achei. Este texto é cheio de pré-conceitos e trapaças.

Notem que já no primeiro parágrafo, o autor tenta desmoralizar, com argumentos banais, os cientistas, mais precisamente aqueles que passaram anos de suas vidas se dedicando ao estudo de reatores nucleares. Isso, claro, numa tentativa de justificar por que os leitores devem continuar lendo a opinião do "não-cientista". Eu considero esse tipo de postura inaceitável em uma pessoa que se diz formadora de opinião. É certo que a Ciência não tem todas as respostas para os problemas da Humanidade, mas desacreditar completamente os cientistas não é o caminho, a menos que o objetivo seja criar uma nova seita ou religião! 

Também é certo que nenhum cientista possa afirmar que o risco a que estão sujeitas as populações que vivem perto dos reatores seja nulo, porque de fato não o é. Nada tem risco zero! Vivemos cercados de riscos por todos os lados. Ao comer uma simples paçoca, ou andar de ônibus, ou fazer aula de natação!

Em um aspecto eu concordo com o autor: sou a favor de uma opinião pública esclarecida (tanto o é que fiz esse blog!). Mas, ao mesmo tempo em que defende isso, o autor esconde muitas informações nas entrelinhas! Ele não disse, por exemplo, que 95% do que ele chama de "lixo atômico" pode ser reaproveitado para gerar mais energia. Que pesadelo deixaremos aos nossos descendentes: uma fonte de energia para o futuro!

Entretanto, o mais cruel desse texto é sua falsa aparência de cordeiro. Por trás da figura nobre da participação popular, há um discurso tão traiçoeiro quanto um lobo faminto!

Substituam a palavra "ética" por "ideologia" e, voilá, estamos de volta aos anos 70! Para quem não era nem nascida(o), como eu, os anos 70 ficaram marcados pelo discurso anti-nuclear proclamado aos quatro ventos pelo movimento ambientalista. Compreensível, considerando-se os eventos da época: os testes de armas nucleares durante a guerra fria.

Porém, mesmo após serem interrompidos os testes das bombas nucleares (com a assinatura do Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares) e de serem adotadas medidas para se aumentar a segurança das usinas nucleares e do armazenamento dos resíduos radioativos, ambas reivindicações do movimento, o discurso anti-nuclear continuou, por ideologia mesmo, igual. E é aí que mora o perigo!

Esse discurso dos anos 70 foi marcado pelo medo cada vez mais crescente das pessoas. O físico Spencer Weart, em seu livro "Nuclear Fear", esclarece que o medo nuclear não foi a única forma de imaginação, e muito menos a única força social, por trás do movimento ambiental. Mas, o medo nuclear teve um lugar especial. Ele despertou emoções mais cedo e em um nível mais visceral do que qualquer outro assunto. E serviu como uma bandeira que reuniu diferentes tribos. Em troca, o ambientalismo deu uma base sólida de medo nuclear para as massas de seguidores, para um conjunto de ideais e para a oposição aos reatores nucleares.

E estamos diante desse discurso novamente. As imagens do medo nuclear ainda são muito fortes no imaginário popular e expressões como "nenhum cientista pode afirmar que o risco é zero", "não há dinheiro que possa indenizar câncer hepático ou leucemia nas crianças vítimas dos vazamentos" e "esse pesadelo (...) lixo atômico", além de carregadas de pré-conceitos, incitam, automaticamente, a mente do leitor ao medo.



Sendo o medo uma das formas mais eficazes de CONTROLE SOCIAL, pergunto: usar e abusar de um discurso que induz o medo nuclear na sociedade é, realmente, uma forma ÉTICA e DEMOCRÁTICA de conduzir o debate sobre a energia nuclear no Brasil?



Não, Não e NÃO! Falo e repito: 
ISSO É UM RETROCESSO NO DEBATE!



Posts relacionados

Dica de livro - Energia Nuclear: do anátema ao diálogo

Devemos ou não investir em novas usinas nucleares?

E o tal do "lixo atômico"?

sábado, 28 de maio de 2011

Lições de Fukushima

Olá pessoal.
Antes de mais nada, desculpem-me por não publicar nenhum post semana passada! É que o bicho está pegando! A boa notícia é que enquanto eu tento manter a lucidez em meio ao caos de tantos prazos se esgotando, teremos hoje uma participação especial que não nos deixará sem o nosso post semanal. O físico nuclear Dr. Airton Deppman, professor do Instituto de Física da Universidade de São Paulo desde 1998, fala-nos sobre as lições de Fukushima.




O desastre provocado no Japão pelo forte terremoto no último dia 11 de março, seguido de tsunami, é de proporções gigantescas quando comparado com acontecimentos naturais registrados nas últimas décadas. Não bastassem as perdas humanas, segue-se ainda o acidente nuclear, muito provavelmente induzido pelo abalo sísmico e pela onda gigante.

Qualquer acidente nuclear é, em si, um problema preocupante. Vazamento de material radioativo gera riscos à população que, se mal administrados, perdurarão por vários anos, e se bem administrados, gerarão custos financeiros extremamente altos. Some-se a isso danos ao ecossistema regional, ou eventualmente global, dependendo da magnitude do acidente.

O acidente de Fukushima é de natureza completamente diferente daquele de Tchernobyl, em 1986. Neste, o desastre ambiental foi provocado por falhas na segurança da usina, enquanto no Japão foi o desastre natural responsável pelas falhas do sistema. A escala do desastre, medida em energia liberada, também é completamente diferente: enquanto em Tchernobyl houve perda do controle da criticalidade do núcleo do reator, causando uma elevação brutal da temperatura do reator em um curto intervalo de tempo e a explosão subsequente, em Fukushima a reação em cadeia foi bloqueada com sucesso nos primeiros tremores de terra, "desligando" o reator. O efeito desses dois acidentes, no entanto, causam sobre a população do mundo inteiro reações muito semelhantes. A aversão à alternativa nuclear voltou a crescer e a despeito de ser uma fonte de energia praticamente tão limpa quanto a eólica, apesar de sua eficiência energética ser muito maior do que qualquer outra fonte, o medo das consequências de um acidente nuclear transformam em vilã uma opção ao uso de combustíveis fósseis que vinha ganhando espaço em vários países.

Mas será que o acidente de Fukushima de fato nos leva a essas conclusões? O terremoto seguido de tsunami dizimou cidades inteiras, paralisou a economia do país, destruiu plantas industriais. Industrias químicas e refinarias de petróleo despejaram toneladas de produtos tóxicos no meio-ambiente, casas e prédios foram transformados em destroços. Enquanto isso, nas usinas nucleares o sistema de segurança que controla a parte mais delicada do sistema funcionou perfeitamente e a reação em cadeia foi bloqueada. Os problemas que aconteceram foram devidos a falhas no sistema de refrigeração, que deveria permitir a troca de calor gerado pelo decaimento de material radioativo produzido durante o funcionamento da usina. Este mecanismo é natural, não pode ser parado, e a energia liberada aquece o reservatório de água dentro da usina. Sem esse sistema de refrigeração a temperatura subiu lentamente e a usina se transformou numa panela de pressão, até que o teto explodiu liberando uma nuvem de vapor.

O problema é que junto com essa nuvem saem também gases radioativos produzidos no núcleo do reator durante seu funcionamento normal. Como a temperatura é baixa quando comparada com aquelas de Tchernobyl, esses gases atingiram algumas dezenas de quilômetros e depois caíram sobre o solo. As correntes de ar dissiparam esses gases numa região limitada, que felizmente atingiu principalmente a costa do Pacífico.

O aumento da radioatividade na região aumentou, mas chegou a níveis pouco acima dos níveis naturais médios. Poderá causar prejuízos à saúde da população local, exigirá o isolamento ou a limpeza das regiões vizinhas às usinas, mas nada comparado a Tchernobyl. Será provavelmente mais próximo do acidente de Goiânia, onde nenhuma usina nuclear estava envolvida.

Fukushima nos deixará muitas lições. Aprenderemos muito sobre como melhorar a segurança das usinas nucleares, mas sobretudo já aprendemos que elas são muito mais seguras do que em geral esperávamos. Apesar da gravidade dos abalos sofridos pela usina, ainda foi possível manter um controle razoável da situação. Não há, portanto, motivos para se deixar de lado a opção nuclear numa rede híbrida de geração de energia, mesmo para o Brasil, onde biomassa e a eólica são opções também promissoras.

Mais que isso, a tecnologia nuclear não é uma opção, é uma necessidade. Além da energia, ela nos dá radiofármacos, métodos de diagnóstico clínico, métodos e produtos para quimioterapia. Investir em usinas nucleares é investir na tecnologia nuclear, na formação de pessoal técnico qualificado, e não apenas na geração de energia. O momento é de reflexão, mas na direção de aprender com o acidente no Japão. Este é o momento de investir no capital humano que temos no Brasil, e que poderá aprender com os acontecimentos em Fukushima e gerar novos conhecimentos para o nosso desenvolvimento tecnológico.


Dr. Airton Deppman



Posts relacionados:

Chernobil: 25 anos! Fatos e Mitos sobre o acidente nuclear - Parte 2
Como funcionam os reatores nucleares?
Devemos ou não investir em novas usinas nucleares?
Para não dizer que não falei de Fukushima!

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Devemos ou não investir em novas usinas nucleares?

"A construção de usinas nucleares, por si só, não garante avanços significativos no domínio da tecnologia nuclear. A consolidação de nossa capacidade nuclear, inclusive para geração elétrica, depende de planejamento, projeto, desenvolvimento e construção de reatores, especialmente de pesquisa, no país." Dr. Ildo Sauer, coordenador do Programa de Pós-Graduação em Energia do IEE/USP e diretor de energia da Fiesp, em TENDÊNCIAS/DEBATES da Folha de São Paulo, 05/04/2011.


A ideia defendida pelo Dr. Ildo Sauer é a de que NÃO devemos investir em novos reatores de potência. Devemos aplicar recursos financeiros (isto é, uma parcela bem pequena daqueles previstos para novas usinas) apenas nos projetos de reatores de pesquisa, como o da Marinha e o RMB (Reator Multipropósito Brasileiro).

Você, leitor, concorda com essa ideia? Eu, não.

Quando li essa frase no texto do Dr. Ildo Sauer, algo me incomodou. Demorei um pouco para perceber o que era. Mas agora caiu a ficha (nossa, essa é velha!). Penso que essa conclusão, "a construção de usinas nucleares não garante avanços significativos no domínio da tecnologia nuclear", é um tanto quanto limitada e fora do contexto mais amplo da área nuclear brasileira. Eu explico.

O Brasil possui poucos reatores nucleares em seu solo. Temos dois reatores de potência (para geração de eletricidade) em funcionamento - Angra 1 e Angra 2 - e mais um em construção - Angra 3 (foto). Há também quatro reatores de pesquisa - o IEA-R1 e o IPEN-MB-01 em São Paulo, o Argonauta no Rio de Janeiro e o Triga Mark 1 em Belo Horizonte - e, como o próprio Ildo destacou, mais dois na fase de projeto - o da Marinha e o RMB (Reator Multipropósito Brasileiro). Nesse universo pequeno de reatores nucleares, toda a experiência adquirida nas etapas de construção, operação e manutenção dos reatores é extremamente importante para uma melhor compreensão e domínio da tecnologia nuclear em seus mais diversos aspectos.

O domínio da tecnologia nuclear inclui, além dos aspectos técnicos/tecnológicos, apectos de gestão. A gestão do conhecimento nuclear, por exemplo, é um conceito relativamente recente, que ganhou espaço internacional na década de 1990 (veja o esforço mundial da Agência Internacional de Energia Atômica). As pessoas são a componente mais importante nesse sistema de gestão e a criação de novos conhecimentos é um de seus subprodutos mais valiosos. Para um sistema de gestão do conhecimento funcionar adequadamente, as pessoas envolvidas devem estar dispostas a compartilhar e utilizar os conhecimentos existentes e a gerar novos conhecimentos de forma cooperativa.

Nesse sentido, embora o foco dos reatores de potência seja bem diferente daqueles dos reatores de pesquisa, é possível ocorrer (e ocorre!) uma sinergia entre eles. Vamos considerar, por exemplo, a importante questão da formação dos recursos humanos para a operação das usinas. A Eletronuclear, empresa responsável pela operação e manutenção dos reatores de potência brasileiros, tem décadas de experiência no treinamento dos operadores. Tal treinamento é licenciado pelo órgão regulador brasileiro, a CNEN (Comissão Nacional de Energia Nuclear), e inclui aulas teóricas e práticas em simuladores. Em Mambucaba (RJ), há um centro específico para esse treinamento, com locais apropriados para o ensino prático de tarefas de manutenção e com um simulador que reproduz a sala de controle de Angra 2, onde são treinados, além dos operadores da Eletronuclear, operadores de usinas estrangeiras (por exemplo, os argentinos da usina Atucha 1). E onde entra a sinergia nesse caso? Em primeiro lugar, parte desse treinamento dos operadores é, por norma, realizado em reatores de pesquisa. Em segundo lugar, para licenciar suas plantas, os futuros reatores (como o da Marinha e o RMB) terão que treinar seus operadores, podendo, para isso, aproveitar a experiência da Eletronuclear nesse assunto.

Além disso, a Eletronuclear absorve boa parte da mão-de-obra altamente especializada em tecnologia nuclear. Isso significa que os mestres e doutores formados na área de engenharia de reatores, por exemplo, podem permanecer em suas áreas de formação graças à Eletronuclear. Isso é particularmente importante porque a maior parte do pessoal que está hoje no setor é da geração de formados entre 1975-1980, e estão para se aposentar. É necessário haver uma superposição no mercado de trabalho entre quem está saindo e quem está entrando para que haja a transferência do conhecimento.

No Brasil, o setor público é o principal responsável pela oferta de empregos na área de reatores nucleares e suas áreas correlatas (combustível nuclear, análise de segurança, etc.). Uma rápida análise dos editais de concursos públicos realizados entre 2007 e 2011 (figura abaixo) revela a importância da Eletronuclear nessa oferta de empregos: ela, sozinha, é responsável por 52% da oferta de cargos para Engenheiros e Físicos, basicamente.


Para que ocorra um crescimento do setor nuclear brasileiro como um todo, incluindo aí as pesquisas e as diversas aplicações da tecnologia nuclear, a existência de mão-de-obra qualificada é fundamental. Precisamos de braços e cérebros na área nuclear brasileira! Pergunto ao leitor: como atrair jovens profisionais para se especializarem na área se não houver uma expansão da oferta de empregos no setor? Você dedicaria quatro anos da sua vida (mestrado + doutorado ou graduação na área) estudando algo que, na prática, tenha um mercado de trabalho reduzidíssimo? A formação de mão-de-obra qualificada vem aumentando na última década em função da construção da usina de Angra 2 (no final da década de 1990) e da promessa de crescimento do setor feita pelo Programa Nuclear Brasileiro. Esse crescimento é mostrado na figura abaixo para o caso do IPEN (Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares em São Paulo), o maior formador brasileiro de mão-de-obra especializada na área nuclear. Note que somente a partir do final da década de 1990 é que o número de titulados ultrapassa aquele do final da década de 1970.

Investimentos em estudos científicos e desenvolvimento tecnológico são importantíssimos para a área nuclear, concordo. Mas o desenvolvimento das aplicações comerciais (e a consequente ampliação do mercado de trabalho) também o é! Somente quando estas três esferas (ciência, tecnologia e mercado) se desenvolverem juntas, a área de aplicações nucleares brasileira consiguirá crescer.

Tudo isso para dizer que, diferentemente do que foi defendido pelo Dr. Ildo Sauer, os investimentos em reatores de potência (uma das aplicações comerciais da tecnologia nuclear) são importantes sim para a consolidação de nossa capacidade nuclear.

Por fim, cabe ressaltar que "investimentos em reatores de potência" não siginfica abraçar a geração nucleo-elétrica de forma a torná-la nossa principal fonte de geração de energia! Não! A proposta de investimentos no setor é bem mais modesta que isso: ampliar a participação da energia nuclear na geração de eletricidade dos atuais 3% para 5%. Isso mesmo: só 5%!


Deixo aqui um apelo aos leitores: antes de dizer não às usinas nucleares, considere as implicações que isso pode acarretar ao setor nuclear brasileiro como um todo (inclusive nas aplicações médicas). Pense nisso!

sábado, 26 de março de 2011

Para não dizer que não falei de Fukushima!

Bom, assunto nuclear do momento. Não dá para negar!

O acidente nuclear no Japão desperta medo e curiosidade sobre tudo que envolva a palavra nuclear. Embora eu ache cedo para proferir opiniões sobre Fukushima, esse foi um dos melhores textos que li sobre o assunto. Ele foi escrito por quem entende do tema: Leonam dos Santos Guimarães, doutor em Engenharia Naval e mestre em Engenharia Nuclear, assessor da Presidência da Eletrobrás Eletronuclear e membro do Grupo Permanente de Assessoria da Agência Internacional de Energia Atômica.

Boa leitura!