Em 02 de Dezembro de 1942 "o navegador italiano chegou ao novo mundo! E os nativos eram amigáveis!" Foi assim, em código, que os governantes norte-americanos em Washington ficaram sabendo do sucesso do experimento conduzido pelo físico italiano Enrico Fermi.
Há 70 anos atrás, Enrico Fermi e sua equipe conseguiram, pela primeira vez na História da Humanidade, sustentar uma reação de fissão em cadeia de forma controlada! Esse experimento, conhecido como pilha número 1 de Chicago (ou Chicago Pile 1, em inglês) foi montado em uma quadra abandonada na Universidade de Chicago e pode ser considerado o primeiro reator nuclear feito pelo homem.
O experimento consistia em blocos de grafite, semi-esferas de óxido de urânio e de urânio metálico e barras de cádmio empilhados de forma organizada. As primeiras e últimas camadas continham apenas blocos de grafite e formavam a base e o topo da pilha. Já nas camadas intermediárias, alternavam-se camadas de grafite contendo semi-esferas de urânio e camadas contendo grafite apenas, como mostra a figura abaixo.
Na época, esse experimento custou cerca de 2,7 milhões de dólares pagos
com os recursos do Projeto Manhattan, o projeto que desenvolveu as
primeras bombas atômicas. Na figura abaixo, é possível ter uma ideia melhor do tamanho desse experimento. Ao todo foram 56 camadas empilhadas com 350 toneladas de grafite puro, 36,3 toneladas de óxido de urânio e 5,4 toneladas de urânio metálico. A pilha final tomou a forma de um elipisóide achatado com aproximadamente 7,6 metros de altura e 6,1 metros de largura.
O processo da fissão nuclear funciona mais ou menos assim: o urânio-235 é um núcleo atômico meio instável. Quando ele captura um nêutron que estava "dando sopa" perto dele, essa instabilidade do urânio-235 cresce bastante a ponto de não ser mais possível segurar todos os prótons e nêutrons do núcleo juntos. Esse nêutron extra faz o núcleo de urânio-235 "perder as estribeiras"! O núcleo acaba então se dividindo, formando núcleos mais leves (isto é, com menos prótons e nêutrons) e liberando alguns nêutrons. Esses nêutrons passam a vagar livremente, podendo ser capturados por outros núcleos de urânio-235, o que, por sua vez, ocasionam mais fissões nesses núcleos, liberando mais nêutrons e por aí vai!
Como cada fissão libera entre 1 e 3 nêutrons, mais e mais reações de fissão vão acontecendo com o passar do tempo. Chamamos isso de reação em cadeia. O que o experimento de Fermi mostrou foi que essa reação em cadeia pode ser controlada, ou em outras palavras, o número de fissões ao longo do tempo pode ser controlado.
No experimento, ao adicionar os blocos de grafite, Fermi pensou em uma forma de aumentar a chance das fissões do urânio-235 acontecerem. Isso porque a chance de um núcleo de urânio-235 capturar um nêutron é maior quanto mais devagar esse nêutron se deslocar. Os nêutrons que são liberados na fissão têm energias cinéticas muito altas, ou seja, viajam com velocidades altissímas. Quando esses nêutrons apressadinhos interagem com o grafite, eles acabam perdendo energia e são freados. Dizemos que os blocos de grafite servem como moderadores dos nêutros rápidos.
Já as barras de cádmio, inseridas no meio dessa pilha, eram usadas para controlar a reação em cadeia. Isso porque o cádmio é um excelente absorvedor de nêutrons (mas ele não sofre fissão como o urânio-235). Ora, com menos nêutrons "no mercado" disponíveis para a fissão do urânio-235, a reação nuclear não se sustenta e o número de fissões vai caindo com o tempo. E acontece o contrário se retirarmos a barra da pilha, isto é, as fissões aumentam. É por isso que as barras de cádmio permitem que controlemos a reação em cadeia!
De fato, a criticalidade da pilha (termo usado para dizer que a reação em cadeia se sustenta) foi obtida retirando-se de pouco em pouco as barras de controle. No esquema abaixo, vemos um homem retirando manualmente a barra de controle da pilha!
Observe ainda que havia um outro conjunto de barras na parte de cima da pilha. Essas eram as barras de segurança! Caso alguma coisa desse errado, um homem posicionado no balcão superior cortaria a corda que segura as barras com um machado(!) e estas cairiam no núcleo, interrompendo a reação em cadeia. Isso, inclusive, parece ser a origem do termo SCRAM, termo usado até hoje para o desligamento de emergência dos reatores nucleares: SCRAM é o acrônimo de "Safety Control Rod Ax Men" (algo como "homem do machado para as barras de segurança").
O vídeo a seguir (em inglês) foi lançado esse ano pelo Laboratório Nacional de Argonne em comemoração aos 70 anos do experimento e traz o relato de pessoas que trabalharam para alcançar a primeira reação em cadeia controlada da história da humanidade.
Taí uma bela imagem do núcleo do reator de pesquisa ATR (Advanced Test Reactor), do Laboratório Nacional de Idaho, nos Estados Unidos.
O fantástico brilho azul que vemos na imagem ao lado é conhecido como Radiação Cherenkov (ou Cerenkov ou Tcherencov). Essa radiação eletromagnética é produzida quando partículas carregadas, como os elétrons, deslocam-se em um meio com velocidades maiores que a da luz nesse meio!
Esse fenômeno foi observado pela primeira vez em 1934 pelo cientista russo Pavel Cherenkov que percebeu um brilho azulado em uma garrafa de água sujeita a um bombardeamento radioativo. Esses estudos renderam-lhe o prêmio Nobel em 1958, juntamente com Vavilov (seu supervisor na época) e Frank e Tamm que forneceram a explicação formal do fenômeno.
Veja a imagem abaixo para entender melhor como isso funciona. À medida que uma partícula carregada se desloca em um meio, ela perturba o campo eletromagnético local desse meio. Como resultado, os elétrons ligados aos átomos do meio são levemente deslocados, tornando tais átomos temporariamente polarizados pela passagem da partícula carregada. Quando os átomos voltam à sua configuração normal, eles emitem fótons para se livrar do excesso de energia que a passagem da partícula carregada ocasionou em suas configurações eletrônicas.
Polarização causada por um elétron livre deslocando-se a velocidades maiores que a da luz no meio. Nesse caso, os elétrons ligados aos átomos tendem a se afastar do elétron livre, produzindo uma polarização temporária nos átomos do meio.
Os reatores nucleares refrigerados a água leve são ambientes bastante favoráveis para a produção dessa radiação, pois nos reatores há partículas carregadas circulando para todos os lados. E os elétrons, em especial, por serem bastante leves, podem atingir velocidades altissímas, maiores que a da luz da água!
Elétrons são produzidos de diversas maneiras nos reatores nucleares. Eles podem, por exemplo, ser emitidos pelos produtos de fissão instáveis - aqueles elementos químicos que são formados após a fissão nuclear mas ainda não atingiram uma configuração de equilíbrio. Mas, para tais elétrons produzirem essa radiação azul, é necessário que eles se desloquem pela água com velocidades superiores a 225 mil kilômetros por segundo - a velocidade da luz na água.
Note que isso não viola a famosa lei da Física de que nada viaja mais rápido que a luz no vácuo! Embora a velocidade da luz no vácuo seja aproximadamente igual a 300 mil kilômetros por segundo, quando a luz se desloca em um meio,
sua velocidade pode ser bem menor do que isso e algumas partículas podem atingir velocidades maiores que a da luz no meio!
Essa alta velocidade produz um efeito bastante curioso: a radiação produzida por uma partícula carregada é altamente colimada e desloca-se atrás da partícula carregada (já que a luz é mais lenta que a partícula no meio!). É por isso, inclusive, que a radiação Cherenkov é dita a análoga luminosa do estrondo sônico ("sonic boom") dos aviões supersônicos! O vídeo abaixo (em inglês) explica de forma bem didática esse fenômeno.
Como o próprio vídeo apresentou, a radiação Cherenkov não é exclusiva dos reatores nucleares. Esse fenômeno serviu como base para o desenvolvimento dos detectores Cherenkov, detectores de partículas de altas energias muito utilizados em experimentos de física de partículas (como o famoso LHC) e na detecção de raios cósmicos (como no Observatório Pierre Auger).
Se você quiser ver ao vivo e "em azul" essa radiação, você pode visitar um dos dois reatores nucleares de pesquisa do tipo piscina existentes no Brasil: o IEA-R1, localizado no IPEN em São Paulo, e o TRIGA, localizado no CDTN em Belo Horizonte.
Depois de um ano e meio na rede, o blog ganhou, finalmente, uma página no Facebook!
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Está em cartaz nos cinemas brasileiros, desde o dia 20 de Julho, o filme de terror Chernobil - Sinta a radiação.
Roteirizado e produzido por Oren Peli de Atividade Paranormal, o filme conta a história de um grupo de
jovens que, ao buscar um pouco de emoção durante as férias, viaja para o
Leste Europeu, mais precisamente à cidade de Pripyat, abandonada após o acidente nuclear na usina de Chernobyl em 1986. Lá, eles se deparam com estranhos acontecimentos!
Veja o trailer do filme:
Mas, não se anime muito não, pois a crítica "caiu matando" no filme.
Segundo Roberto Guerra, Pripyat "é o cenário para a enxurrada de clichês que vem adiante para tentar arrancar sustos dos espectadores – o que consegue algumas vezes –, mas nada o suficiente para apagar a sensação de que estamos assistindo a mais do mesmo (...) O problema é que o cenário sombrio e cheio de possibilidades é mal aproveitado e a direção tacanha não consegue salvar o que um roteiro mal pensado já condenava ao fracasso (...) O enredo é bastante óbvio e abundante em incongruências narrativas que destroem aos poucos a credibilidade e realismo presente no início da trama (...) mais um filme de terror de baixa qualidade e nenhuma imaginação".
Luiz Zanin, outro crítico de cinema, concorda: o filme é "nada notável, em suma. Rotina".
Eu ainda não vi, mas acho que vou esperar chegar até as locadoras... e você leitor, já viu o filme?
Renato Archer foi uma personalidade marcante na vida política do País e grande incentivador do desenvolvimento tecnológico nacional, principalmente no setor nuclear.
O livro Renato Archer - Energia Atômica, Soberania e Desenvolvimento revela-nos, através de uma compilação de diversas entrevistas com o próprio Archer, a luta política de líderes como ele, o almirante Álvaro Alberto e outros que enfrentaram pressões internacionais – e internas – para atingir o domínio da tecnologia nuclear.
O deputado Aldo Rebelo fez uma resenha do livro que pode ser conferida nesse link.
A exportação de areia monazítica para os Estados Unidos, a CPI da energia atômica em 1956 e o acordo com a Alemanha são apenas alguns dos assuntos abordados no livro. Essa é uma leitura muito interessante para quem quer saber mais sobre a política nuclear brasileira, desde seus primeiros passos na década de 30.
Título: Renato Archer - Energia Atômica, Soberania e Desenvolvimento
Organizadores: Alvaro da Rocha Filho & Joao Carlos Vitor Garcia
O sol em Cherbourg, litoral da Normandia, na França, anda escasso. Dias nublados, de chuva e vento frio soprando de sudoeste, enganam quem espera o calor do verão. Ainda assim, na sexta-feira, com o termômetro batendo nos 13 graus, houve festa nos estaleiros da DCNS, a Direction des Constructions Navales et Services.
O parceiro francês no programa de construção de quatro avançados submarinos diesel-elétricos e de um outro movido a energia atômica, para a Marinha, festejou com o grupo brasileiro de especialistas em treinamento - cerca de 50 deles - a oficialização da data do início do ProSub - o Projeto do Submarino com Propulsão Nuclear Brasileiro. A cerimônia que marca a contagem do tempo foi realizada no Centro Tecnológico da Marinha, em São Paulo, no campus da USP.
O contrato, incluind0 obras civis, vale 6,7 bilhões, cerca de R$ 21 bilhões, um dos três maiores empreendimentos públicos do País. O grupo brasileiro majoritário no empreendimento é a Odebrecht Defesa e Tecnologia (ODT). A contar do dia 6 de julho, a agência de desenvolvimento dos projetos vinculados ao ProSub terá três anos, talvez pouco menos, para produzir a concepção básica do submarino. Segundo o coordenador, almirante José Alberto Accioly Fragelli, "terá início, então, a parte dos planos detalhados, junto com a construção do navio em 2016, no estaleiro que está sendo estruturado em Itaguaí, no Rio".
A previsão para as etapas de conclusão situam em 2021 ou 2022 a finalização da embarcação. A montagem eletrônica, o carregamento do reator compacto e os testes de mar devem consumir, talvez, mais dois anos. Um almirante ouvido pelo Estado acredita que sob pressão estratégica - uma eventual ameaça externa - o SN-Br pode entrar em operação efetiva em 2023. Se não, é coisa para 2025. O empreendimento, de longo prazo, contempla uma frota de seis submarinos nucleares e 20 convencionais; 15 novos, S-Br, da classe Scorpène e cinco revitalizados. Tudo isso até 2047, conforme o Paemb - Plano de Articulação e de Equipamento da Marinha.
A frota de submarinos de ataque será o principal elemento dissuasivo da Defesa brasileira. Um oficial especializado, que não pode ser identificado, sustenta que "a percepção do agressor deve ser a de que haverá resposta rápida e devastadora a qualquer aventura, vinda de uma fonte difícil de identificar, capaz de surgir em qualquer lugar". Mais comedido, o comandante da Força, almirante Júlio Moura Neto, lembra a "necessidade de dar prioridade à estratégia do temor das consequências considerados fatores como o Pré-Sal, a posição do Brasil no contexto internacional, a garantia da segurança marítima e a vigilância sobre as águas jurisdicionais, que somam 4,5 milhões de quilômetros quadrados, uma Amazônia no mar".
Dinheiro garantido
Não está faltando dinheiro para o Pro Sub. Em 2011 o investimento foi de R$ 1,8 bilhão. Para 2012, o governo destinou R$ 2,15 bilhões - recursos livres de cortes. Em Itaguaí, litoral sul do Rio, há 6,3 mil pessoas trabalhando no complexo formado pelo novo estaleiro e nova base de operações - 500 desses funcionários foram treinados no canteiro que recebe este mês a primeira equipe de engenheiros e projetistas da DCNS. Vão trabalhar com o pessoal da Marinha no navio nuclear.
Em novembro terminam as obras da construção da Unidade de Fabricação de Estruturas Metálicas (Ufem), onde serão construídos os submarinos S-Br, com motores diesel-elétricos. Um mês depois, chegam da França as seções 3 e 4 do primeiro navio, que foram juntadas por soldagem de alta tecnologia em Cherbourg, em dezembro de 2011. Em 2015 fica pronto o estaleiro, e em 2017 será entregue o S-Br que abre a série de quatro, recebidos um a cada 18 meses. A gleba do conjunto tem 980 mil metros quadrados, dos quais 750 mil metros quadrados sob a água. Haverá dois píeres de 150 metros e três docas de 170 metros. Base e estaleiro ocuparão 27 prédios. A dragagem mobiliza 6 milhões de metros cúbicos. As especificações dos navios brasileiros ainda estão sendo definidas. O Scorpène Br é cerca de 100 toneladas mais pesado e 5 metros mais longo que a configuração padrão, forma de aumentar a autonomia e o conforto a bordo.
O programa brasileiro não é o único da América do Sul. Na Venezuela, Hugo Chávez negocia com a Rússia a compra de 7 a 11 submarinos - um deles nuclear, o Akula, de 12,7 mil toneladas, armado com torpedos e mísseis. Na Argentina, a presidente Cristina Kirchner anunciou, em junho de 2010, um programa considerado tecnicamente pouco viável. A ideia é converter a motorização de três velhos modelos de origem alemã, o San Juan, o Santa Cruz e o Domec, dos anos 1970, concluídos no início dos 1980, atualmente em fase de revitalização. Todos receberiam um reator de concepção local, o Carem, desconhecido fora da Invap, empresa que teria criado o produto. Um dos navios modernizados estaria pronto para uso em 2015, outro em 2020. O terceiro ficaria dependente dos resultados apurados no procedimento.
Complexo de Itaguaí poderá receber até 16 navios ao mesmo tempo
O conjunto formado pelo estaleiro e a base de Itaguaí terá capacidade para atracar 16 navios ao mesmo tempo, sendo 6 submarinos nucleares, 4 convencionais, 1 socorro especializado, 3 rebocadores portuários, 1 lancha oceânica de apoio a mergulhadores e 1 de recolhimento de torpedos.
A área industrial poderá conduzir a construção simultânea de dois submarinos de quaisquer tipos, e a troca da carga nuclear ou dos reatores completos.
Versão artística da nuvem radioativa de Chernobil. Fonte: Radioactive Wolves.
Chernobil, 1986. O maior acidente nuclear da História. Derretimento do núcleo do reator. Explosão. Incêndio. Vazamento de radiação. Nuvem radioativa... Chuva radioativa... Água, solo e alimentos contaminados... Pânico! Zona de exclusão: cerca de 340 mil pessoas evacuadas, fugindo da mortal radiação...
Chernobil hoje: terra abandonada. Vinte e cinco anos sem a presença do homem. Cidades fantasma. Será ela uma terra assassinada pela venenosa radiação? O que aconteceu com os animais e plantas deixados à própria sorte dentro da zona de exclusão? Estarão todos mortos? Ou terão se transformado em monstros mutados geneticamente?
Zona de exclusão. Fonte: Radioactive Wolves.
Bem... nem uma coisa, nem outra! É o que nos mostra o documentário Radioactive Wolves (2011). Filmado na zona de exclusão de Chernobil, o filme revela que os efeitos da radiação no meio ambiente não foram tão catastróficos quanto nossa fértil imaginação sugere!
Reator de Chernobil e arredores. Fonte: Radioactive Wolves.
A radiação, embora ainda presente na região, parece não afetar de forma negativa os animais e plantas. A vegetação cresce e avança lentamente pela cidade de Pripyat, retomando o espaço que um dia fora seu. Animais, como aves, roedores e lobos, usam as estruturas deixadas pelos humanos para se protegerem dos inversos rigorosos e se reproduzirem.
Animais em Chernobil. Fonte: Radioactive Wolves.
Flores de Chernobil. Fonte: Radioactive Wolves.
Animais em Chernobil. Fonte: Radioactive Wolves.
Os lobos, em particular, são os objetos de estudo dos cientistas do documentário, pois eles são o topo da cadeia alimentar do ecossistema local e podem dar pistas de como a radiação afetou esse meio ambiente.
Lobo radioativo na zona de exclusão de Chernobil. Fonte: Radioactive Wolves.
Lobinhos na zona de exclusão. Fonte: Radioactive Wolves
Haviam rumores de que a população de lobos havia aumentado dentro da zona de exclusão, chegando até a 300 indivíduos. Através de coleiras com localizadores GPS e mapeando os rastros deixados pelos lobos, os pesquisadores concluíram que há cerca de 120 espécimes no local, número parecido ao de uma área de controle, fora da zona de exclusão. Além disso, eles descobiram que os lobos, bem como outros animais, estão se reproduzindo na zona de exclusão!
Lobo radioativo. Fonte: Radioactive Wolves.
Mas, e a radiação? Como ela afeta os animais? Bem, o documentário nos mostra que os animais são radioativos. As partículas radioativas liberadas no acidente nuclear penetraram o solo e a água e depois foram absorvidas pelas plantas. Os animais, ao se alimentarem e beberem dessa água, também acabaram acumulando partículas radioativas em seus órgãos e ossos.
Além disso, os pesquisadores concluíram que a quantidade de mutação genética observada nos animais da região por causa da radiação é o dobro das observadas fora da zona de exclusão. Isso significa que, embora alguns animais sofram com a radiação, a população em geral permanece saudável.
Dona falcoa e sua ninhada. Fonte: Radioactive Wolves.
As condições de reprodução das espécies parecem ser até melhores nessa região devido à ausência do homem. Lobos, peixes, alguns roedores, águias e falcões estão entre os animais que conseguiram estabelecer ninhadas na zona de exclusão.
Cabe ressaltar que a principal ameaça para esses animais antes do acidente nuclear era a presença humana. Em particular, o desmatamento da região para a expansão da agricultura, com o "slogan" do "melhoramento da terra", forçava-os a migrar para outros locais.
De fato, fora da zona de exclusão, a paisagem ainda parece a mesma, com vastos campos de agricultura. Dentro da zona de exclusão, por outro lado, a natureza se recuperou. Os canais, outrora de irrigação, hoje permitem o retorno dos castores que, através de suas barragens, criam ambientes favoráveis à reprodução dos peixes. O cisne, também natural dessa região, voltou a habitá-la.
Agricultura fora da zona de exclusão. Fonte: Radioactive Wolves.
Antigos canais de irrigação na zona de exclusão.
Fonte: Radioactive Wolves.
Além disso, já foram contadas mais de 120 espécies de pássaros na região e cavalos selvagens, que hoje só vivem em cativeiro, foram soltos nas florestas de Chernobil.
Passáros em Chernobil. Fonte: Radioactive Wolves.
Águia na zona de exclusão. Fonte: Radioactive Wolves.
Ironicamente, o maior desastre nuclear da História transformou-se em um refúgio único para espécies outrora ameaçadas pelo homem. Para os humanos, essa terra está perdida. Pelo menos aparentemente, só para os humanos!
O premiado documentário da PBS pode ser inteiramente visto abaixo, com som original em inglês e sem legendas (vamos "dessenferrujar" o inglês pessoal!). O canal Globosat HD também está exibindo esse documentário com legendas em português para seus assinantes. A próxima exibição será amanhã (05/07) às 11h30.
A equipe de filmagem de Radioactive Wolves passou mais tempo na zona de exclusão do que qualquer outra equipe da imprensa jamais conseguiu. Foram 100 dias de filmagem no período de um ano e a primeira equipe estrangeira a filmar na parte bielorrussa da área, trazendo as primeiras imagens aéreas em 20 anos. O resultado é a inédita imagem panorâmica da zona de Chernobyl, uma vista de 360 graus da região mais selvagem da Europa. Vale a pena conferir!
Observação: Cabe ressaltar que isso não esgota o assunto de como a radioatividade afeta o ecossistema. Só o monitoramento contínuo da área por um longo período poderá nos fornecer pistas de como responder essa questão!
Diga isso em voz alta: NUCLEAR. Como você se sente? Muitas pessoas têm associações negativas com a palavra, sentimentos que foram amplificados desde que um terremoto e um tsunami de severidade inusitada atingiram as usinas da Central de Fukushima Daiichi, no Japão, dia 11 de março de 2011.
As autoridades de saúde continuam a enfatizar que os níveis de radioatividade não vão chegar a prejudicar a saúde humana. Foram traços que não constituem motivos de preocupação.
Se não há perigo real, por que o medo? As pessoas geralmente pensam sobre risco do ponto de vista emocional, não de uma avaliação racional. Veja como você realmente pode calcular o risco: multiplique a probabilidade de evento indesejado pela gravidade de sua consequência. Mas, se você pedir às pessoas para avaliar riscos, certamente esse cálculo não funcionará. Elas responderão com sua intuição. Uma alta porcentagem das pessoas associa usinas nucleares a armas nucleares. Essa associação ainda está no coração e mentes e condicionam as reações à geração elétrica nuclear.
Alguns dizem que nossa aversão à energia nuclear vai mais longe do que isso. A forma como pensamos sobre a energia nuclear tem raízes anteriores à descoberta da radioatividade em 1896. os alquimistas medievais, por exemplo, estavam interessados em transmutação, que se define como o renascimento através da destruição. Ideias sobre a transmutação e cenários apocalípticos se reuniram em torno do potencial da radiação, percebida como perigosa demais.
Alquimistas medievais
Na década de 1930, a maioria das pessoas associava a radioatividade com raios estranhos que podiam causar uma morte horrenda ou o milagre de uma nova vida, com cientistas loucos e seus montros ambíguos, com segredos cósmicos da morte ou da vida, com uma futura Idade do Ouro, talvez alcançada apenas por meio de um apocalipse e com armas potentes o suficiente para destruir o mundo.
Ressonância Nuclear Magnética
Hoje, as pessoas são submetidas regularmente a procedimentos diagnósticos chamados de "ressonância magnética", mas a técnica foi originalmente chamada de "ressonância nuclear magnética", com o primeiro testes com seres humanos feiots na década de 1970. Mas, por causa das más associações, ninguém queria entrar em ma máquina chamada "nuclear", e assim o nome foi alterado.
Diversos estudos internacionais mostram que, na indústria de geração elétrica, a nuclear é aquela que provoca o menor número de mortes por quilowatt-hora produzido. Aqui estão alguns números reais: 10.000 mil pessoas terão morrido de câncer resultante de Chernobyl, o maior acidente nuclear do mundo, de acordo com algumas estimativas bastante pessimistas. Só que a poluição das usinas a carvão causa um número bem maior de mortes a cada ano. Mas, estams falando de uma forma invisível de morrer mais cedo - por câncer, em Chernobyl - versus outra forma: a poluição do ar por partículas finas.
Em Fukushima Daiichi ninguém morreu por doenças decorrentes da radiação, mas o número de mortos decorrentes dos efeitos do terremoto e tsunami foi maior que 16.000 pessoas. Ao invés do nos preocuparmos com traços de radioatividade que são eventualmente encontrados em diversos locais do mundo, porque são muitos fáceis de medir, seria mais importante nos mobilizarmos para ajudar as vítimas do tsunami e do terremoto.
A familiraridade com o risco é parte fundamental da sua percepção. Algo que é relativamente desconhecido pra você vai parecer mais perigoso do que algo que você já se expôs anteriormente. E a geração elétrica nuclear e seu funcionamento não são temas com os quais as pessoas estejam familiarizadas.
Isso explica porque é nas comunidades mais próximas das usinas nucleares que se encontram os altos níveis de aceitação, decorrentes da convivência e maior conhecimento, que fazem com que a percepção dos riscos seja mais realista, mas também por uma percepção mais clara dos benefícios associados.
Curiosamente, a radiação deveria ser familiar a todos, já que está em toda parte. A radiação está em torno do nós, vinda do Sol, do espaço e de outras fontes naturais na própria Terra. E ele é empregada rotineiramente em procedimentos médicos, como raios-X e tratamentos de câncer. Mas a consciência de que a radiação pode levar à temida consequência de câncer nos faz sentir mal sobre a exposição a usinas nucleares.
A radioatividade natural existe na Terra desde que o planeta se formou. São cerca de 60 radionuclídeos presentes na natureza. Eles são encontrados no ar, água, solos, rochas e minerais, bem como nos alimentos e no nosso próprio corpo. Cerca de 90% desta radiação ambiental provêm de fontes naturais, sendo a maior delas o gás radônio.
Alguns locais do mundo, chamados de Áreas de Alta Radiação de Fundo (High Background Radiation Areas - HBRAs) têm, anomalamente, altos níveis de radioatividade naturais, muito superiores à média do planeta. A geologia e geoquímica das rochas e dos minerais encontrados nessas áreas têm a maior influência na determinação de onde esta alta radiação natural aparece.
Áreas de Alta Radiação de Fundo na Terra
HBRAs extremas são encontradas principalmente em regiões tropicais, áridas ou semi-áridas, como Guarapari (Brasil), sudoeste da França, Ramsar (Irã), partes da China e Costa do Kerala (Índia). Em certas praias do sudeste do Brasil, especialmente no sul do estado do Espírito Santo, os depósitos de areia monazíticas são abundantes. Os níveis de radiação externa nessas areias corresponde a quase 400 vezes o nível normal de radiação de fundo. Essas areias da costa brasileira tẽm vários minerais radioativos, dentre eles monazita, zircônio, torianita e columbita-tantalita, bem como minerais não-radioativos, incluindo elmenita, rutiló, pirocloro e cassiterita.
Areia monazítica no Brasil
No sudoeste da Índia, ao longo dos 570 km de extensão da costa do estado de Kerala (Índia), há também grandes jazidas de areias ricas em monazita, com elevada radiação natural. Os depósitos de monazita são ainda maiores do que aqueles encontrados no Brasil, mas a dose externa de radiação é, em média, semelhante às verificadas em nosso País.
Ramsar, uma cidade no norte do Irã, tem os mais altos níveis de radiação natural do mundo. Exposições tão elevadas, como 260 mGy/ano já foram registrados em Ramsar. A unidade de radiação ionizante utilizada aqui, Grays por ano, corresponde a 1 Joule de energia transferida a 1 kg de tecido vivo (o miligray, mGy, que é um milionésimo de Gray, é mais comumente usado). Uma exposição de corpo inteiro a uma dose uniforme de 3-5 Gy mataria 50% dos organismos expostos num período de 1 a 2 meses.
A característica mais interessante em todos estes casos é que estudos epidemiológicos mostram que pessoas que vivem nestes locais HBRAs não parecem sofrer de qualquer efeito adverso sobre a saúde como resultado de suas exposições elevadas à radiação. Pelo contrário, em alguns casos os indivíduos que vivem nessas HBRAs parecem ser ainda mais saudáveis e viver mais do que aqueles em locais de controle que não são classificados como HBRAs.
Tais fenômenos colocam muitas questões intrigantes. Se eles fossem mais conhecidos do público, talvez criasse aquela familiaridade, tão fundamental para a percepção de riscos, que possibilitaria não termos tanto medo do "nuclear".
* Leonam dos Santos Guimarães é Assistente da Presidência da Eletronuclear e membro do Grupo Permenente de Assessoria em Energia Nuclear do Diretor-Geral da AIEA.
A maioria das empresas alemãs está preocupada em perder competitividade devido a um aumento nos custos de energia elétrica decorrentes da decisão do governo do país de abandonar a energia nuclear e investir em fontes renováveis. Essa é a conclusão de uma pesquisa feita pela Ernst & Young com 235 empresas privadas e públicas. A consulta foi encomendada pela Agência de Energia Alemã (Dena).
O relatório afirma que 60% das companhias consultadas esperam um aumento nos custos de produção devido aos preços crescentes da energia elétrica. Além disso, mais de 40% esperam uma deterioração significativa no fornecimento energético.
Segundo a pesquisa, a indústria alemã expressou grande preocupação em relação à legislação e à regulação do setor, à viabilidade econômica do suprimento de energia elétrica no país e à segurança energética. Há ainda uma grande discrepância entre o clima na indústria e nos círculos políticos, onde a visão da transição energética pela qual o país passará é muito mais positiva, afirma o documento.
Transição custará bilhões de euros
O governo alemão pretende investir bilhões de euros na matriz elétrica nacional, na medida em que o país se prepara para ser abastecido predominantemente por energia eólica e solar, além de novas usinas a carvão e gás, o que pode exigir subsídios públicos.
A coalizão governante no país marcou para 2022 a data de desligamento de todas as 17 usinas nucleares alemãs. Os sete reatores mais antigos, que foram desligados temporariamente depois do acidente de Fukushima Daiichi, e a usina de Kruemmel – que estava desligada desde 2009 devido a problemas técnicos – não voltarão mais a operar.
Seis outras unidades seriam desligadas, no máximo, até 2021. As três usinas mais novas – Neckarwestheim 2 (que entrou em operação comercial em 1989), Isar 2 (1988) e Emsland (1988) – seriam, por fim, desativadas em 2022. Mais informações podem ser encontradas no site da Dena.
Usinas nucleares na Alemanha: desligamento previsto de todas as usinas em 2022. Legenda: Barra amarela: início do funcionamento comercial Barra laranja: término do funcionamento, devido à lei nuclear de 2002, pelo governo anterior Barra listrada: prorrogação do funcionamento, autorizado em 2010, pelo governo atual (antes de Fukushima)
Ponto amarelo: em funcionamento Ponto laranja: desligada
Com a Rio+20 começando essa samana eu poderia escrever um looongo texto discutindo os impactos de cada fonte energética, em particular a nuclear, no meio ambiente. Afinal, já virou senso comum que o grande desafio desse século seja o tal do desenvolvimento sustentável!
Entretanto, ao invés do texto, optei por uma abordagem diferente (e bem mais legal!). Convido você, caro leitor, a sentir na pele como é díficil promover o crescimento econômico de uma região, minimizando os impactos ambientais e deixando a população satisfeita.
No jogo de estratégia ELECTROCITY você pode ser o prefeito de uma cidadezinha de 10 mil habitantes e, com as escolhas certas, transformá-la em uma grande cidade - rica, com mais de 1 milhão de habitantes e com baixo impacto ambiental.
Mas atenção: é necessário garantir suprimento energético suficiente para o crescimento da cidade. Você pode escolher entre energia eólica, termoelétrica a gás, termoelétrica a carvão, nuclear, hidroelétrica, geotérmica, biomassa (cogeração), solar e energia a partir das ondas do mar!
Veja a minha cidade:
É claro que o jogo simplifica bastante as complexas relações ambientais, socias e econômicas alí envolvidas, mas vale a pena dar uma conferida (é tão fofo!).
O jogo é mantido pela Genesis Energy, uma companhia de energia da Nova Zelândia que investe em termoelétricas a carvão e a gás, em hidroelétricas e em energia eólica (deve ter um viés aí, não?).
OBS.: fica uma sugestão para os professores: tendo o jogo como elemento central, pode ser interessante desenvolver uma atividade com os alunos sobre a questão energética, envolvendo diversas disciplinas:
1) Física: para explicar cada forma de geração de energia usada no jogo;
2) Biologia: para discutir os impactos ambientais e como minimizar esses efeitos;
3) Geografia: para discutir os aspectos sociais e econômicos de cada forma energética;
4) Matemática: para discutir o planejamento financeiro da cidade;
5) Inglês: para trabalhar o vocabulário dos alunos, já que o jogo é em inglês;
6) Português: o trabalho final poderia ser um texto narrativo que contasse a história do desenvolvimento da cidade, justificando cada escolha e discutindo seus impactos sociais, ambientais e econômicos.
O 2º Festival Internacional de Filmes sobre Energia Nuclear, Urânio em Movi(e)mento, começa 6 dias após a Cúpula da Terra (Rio + 20), na Cinemateca do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, MAM.
Entre 28 de junho e 13 de julho, o Festival vai exibir mais de 50 filmes de todos os continentes, sobre energia nuclear e radioatividade. A programação completa do festival já pode ser acessada no site.
Depois do Rio de Janeiro, o festival viaja para outras cidades do Brasil e do Mundo, mas as datas e cidades ainda não foram divulgadas.
O festival foi criado em 2010 no Rio de Janeiro e é o primeiro festival mundial de filmes independentes sobre a temática nuclear. Ele é realizado pelo Arquivo Amarelo, organização cultural sem fins lucrativos, sediada no Rio de Janeiro, que tem como projeto criar a primeira cinemateca do Brasil e da América Latina especializada em assuntos nucleares.
Até o momento, a maioria dos documentários sobre isso tem sido produzido por países não lusofônicos, geralmente em inglês, alemão ou francês. O Arquivo Amarelo traduz estes filmes para a língua portuguesa e também traduz as produções lusofônicas para outras línguas.
O Festival premia, com o Yellow Oscar, os filmes inscritos que se destacaram. Nesse ano foram nomeados oito filmes, representando oito países, em três categorias: Melhor Curta (até 40 min), Melhor Longa (a partir de 41 min) e Melhor Animação. Um júri oficial irá escolhear os vencedores e a premiação ocorrerá no dia 14 de Julho.
Informações gerais:
Quando: De 28 de junho a 14 de julho de 2012
Onde: Cinemateca do Museu de Arte Moderna doRio de Janeiro
Av Infante Dom Henrique, 85
Parque do Flamengo
Rio de Janeiro - RJ
Quanto: R$ 5,00 a entrada inteira e R$ 2,00 para os maiores de 60 anos e estudantes maiores de 12 anos
Embora a proposta de reunir filmes com a temática nuclear em um único festival seja muito interessante, cabe uma ressalva: os filmes selecionados para o festival desse ano retratam apenas aspectos negativos da energia nuclear e da radioatividade.
O próprio festival, no entanto, abre espaço para os aspectos positivos das tecnologias nucleares, tais como medicina nuclear e irradiação de alimentos. Mas acho que os cineastas nucleares independentes não querem falar disso...
De qualquer forma, esse deve ser um evento bastante interessante. Veja o video convite:
Cachaça boa é aquela envelhecida em tonel de madeira! Quem aprecia a bebida mais tradicional do país sabe que esse período de maturação, imprescindível para a obtenção de uma melhor qualidade, pode levar até três anos, já que, nesse tempo de amadurecimento, o produto estocado sofre reações químicas, melhorando suas características, inclusive sensoriais, e agregando mais valor.
Para esse amadurecimento, muitas pesquisas já foram realizadas nos laboratórios de Irradiação de Alimentos e Radioentomologia do Cena/USP; Departamento de Agroindústria, Alimentos e Nutrição da Esalq/USP; Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares – Ipen/SP; Faculdade de Tecnologia de Piracicaba – Fatec e, recentemente, no laboratório de Radiobiologia e Ambiente, do Cena/USP. Todas são unânimes em afirmar que o processo de irradiação pode ser utilizado como um método alternativo de envelhecimento de cachaça, já que essa técnica acelera o processo convencional.
A fórmula tradicional de envelhecimento da cachaça consiste em sua interação com madeiras, realizada pelo armazenamento do líquido por um longo período em barris. “Esse processo é uma das etapas mais importantes para a obtenção de uma cachaça de alta qualidade. As reações que ocorrem durante esse tempo favorecem a formação de compostos que influenciam no aroma, sabor e aparência da bebida”, explica Valter Arthur, professor que coordena um estudo que abrevia consideravelmente esse longo período.
Baseados nos experimentos realizados neste e em outros laboratórios, é possível afirmar que o uso da irradiação numa dose 0,3 kGy (kilogray: quantidade de energia absorvida pelo material), considerada relativamente baixa, pode acelerar o processo de envelhecimento de cachaça. “Com essa metodologia, aceleramos o envelhecimento e obtivemos uma cachaça similar à convencional, quando comparado aos mesmos parâmetros”, comenta Arthur.
Outra vantagem apresentada é a diminuição dos aldeídos, componente responsável pela famigerada dor de cabeça. “Conseguimos uma diminuição expressiva desse composto químico que está diretamente relacionado ao desconforto que se sente ao ingerir a bebida numa dose além do limite”, disse Juliana Angelo Pires, pós-graduanda do laboratório de Radiobiologia e Ambiente.
Porém, para o aprimoramento do aspecto visual da bebida, a cachaça irradiada também vem sofrendo um período de envelhecimento. “Os apreciadores ainda preferem o destilado de cana-de-açúcar com a cor amarelada. Assim, ainda estamos utilizando a bebida semienvelhecida em tonéis de amendoim, pois essa coloração é normalmente obtida com a ajuda da madeira”.
Pesquisa com métodos alternativos, como adição de caramelo, para a coloração da cachaça já está sendo realizada para eliminar a necessidade da estocagem em tonéis de madeira. “Além disso, já estamos incorporando extratos vegetais como própolis, urucum e outros para dar essa coloração à cachaça e incrementar atributos com propriedades biológicas. Consequentemente, isso aumentará ainda mais a viabilidade prática e econômica do processo de irradiação em larga escala de cachaça, pois somente o produto final, ou seja, as cachaças já engarrafadas e encaixotadas serão irradiadas para o envelhecimento”, finaliza Arthur.
Em 2008, o Greenpeace denunciou, com um baita estardalhaço, a contaminação da água no distrito de Lagoa Real, em Caetité (Bahia), devido à atividade de mineração de urânio realizada pela Indústrias Nucleares do Brasil (INB), classificada pela Organização Não-Governamental (ONG) como perigosa e poluente.
O Relatório Ciclo do Perigo – Impactos da Produção de Combustível Nuclear no Brasil, realizado pelo Greenpeace, concluiu que há
contaminação na água da região, pois duas amostras de água coletas no
entorno da mina de Caetité apresentaram concentrações de urânio
superiores a 0,015 mg/L, concentração máxima de urânio permitida pela
Organização Mundial de Saúde (OMS).
Veja abaixo o vídeo produzido pelo Greenpeace:
E uma pequena amostra das repercussões dessa denúncia junto à população local:
Esse assunto repercurtiu na mídia por um bom tempo e ainda hoje "dá pano pra manga"!
Cerca de um ano depois da publicação do Greenpeace, por exemplo, o governador da Bahia Jaques Wagner (PT) encampou a denúncia e, em dezembro de 2009, o
Instituto de Gestão das Águas e Clima da Bahia interditou boa parte dos
poços na cidade. Resultado: foi preciso contratar um serviço de
caminhões-pipa para abastecer de água potável os 3.000 habitantes da
zona rural de Caetité.
A prefeitura, paupérrima, gastou mais de 70.000,00
reais nisso até que, em Abril de 2010, a Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) liberou o consumo da água de Caetité. De acordo com o estudo da CNEN, as águas que passam pela INB Caetité nem sequer chegam às comunidades onde os poços foram fechados.
Monitoração ambiental pela INB
A INB afirma que as análises que vêm sendo realizadas desde 1990, nove anos
antes da implantação da unidade de mineração, atestam que a atividade
mineradora não contribui para o aumento da presença de urânio na
região. São mais de 16 mil análises por ano que monitoram mais de 150 poços situados em Maniaçu, São Timóteo, Juazeiro, Lagoa Real e Caetité.
Entretanto, a falta de divulgação dos resultados dessas análises até a época da denúncia feita pelo Greenpeace corroborou para espalhar o medo na população.
A boa notícia dessa confusão toda é que agora os resultados dos testes sobre a qualidade das águas de Caetité ganharam mais transparência e são divulgados pela própria INB em seu site. A última pesquisa realizada pela INB ao longo de 2011 foi divulgada em Janeiro desse ano.
"A concentração de urânio nas águas de superfície em diferentes
localidades ao redor da Unidade de Mineração e Beneficiamento de Urânio
das Indústrias Nucleares do Brasil em Caetité (BA), medidas em
diferentes épocas do ano de 2011, apresenta valores sempre abaixo de um
terço do limite estabelecido pelo Conselho Nacional de Meio Ambiente,
órgão vinculado ao IBAMA",
informou o físico Delcy Py, especialista em radiação.
Resultados da monitoração das águas ao redor da mina de Caetité feita pelas
Indústrias Nucleares do Brasil no ano de 2011.
Fiscalização pela CNEN
A Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) é um dos órgãos responsáveis por fiscalizar as atividades das Indústrias Nucleares do Brasil. E para a CNEN, a ocorrência de urânio nas águas subterrâneas da região é natural, não podendo ser atribuída à operação da INB.
A INB deve executar um programa de monitoração ambiental (PMA), previamente aprovado pela CNEN, e apresentar os resultados obtidos, periodicamente, à Comissão. Além da água, são feitas análises de amostras de ar, sedimentos, vegetais, leite etc, colhidas em pontos estabelecidos no PMA e localizados ao redor da área de propriedade da instalação.
“Os resultados dessas análises são avaliados pelos especialistas da CNEN. Para verificar a qualidade, periodicamente também são realizadas campanhas de coleta conjunta”, afirma o ex-diretor de radioproteção e segurança nuclear da CNEN, Dr. Laércio Vinhas, em entrevista à Atividades Nucleares.
Para chegar a conclusão de que não há contaminação do lençol freático devido à atividade de mineração da INB, os especialistas da CNEN colhem amostras nos mesmos pontos e nos mesmos instantes que os funcionários da INB. Elas são então analisadas nos laboratórios dos institutos da CNEN. Com base nos resultados de medidas de amostras de água do lençol freático, colhidas no interior da instalação, nas áreas circunvizinhas e em estudos de hidrogeologia se chega ao resultado.
Segundo a Cnen, as doses de radiação encontram-se abaixo do limite recomendado para exposição pública em poços abertos nas proximidades da mina da INB. A média histórica das taxas de radiação das águas de Caetité é de 0,1 Bq/L, ou seja, um valor 5 vezes menor que o máximo permitido que é de 0,5 Bq/L (bequerel por litro).
A radioatividade encontrada nessas águas é menor do que a de estâncias turísticas como Araxá (MG), Águas de Lindóia (SP) e Guarapari (ES).
A última pesquisa feita em 2011 pela CNEN (através do
Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares – IPEN) mostra que os
mananciais de Caetité estão com índices normais de urânio. O IPEN realizou análises das
amostras de águas dos poços situados nas Fazendas Mangabeira, Gameleira e
Lajedo, e nos distritos de Juazeiro e São Timóteo. Em todos esses
pontos, as médias de concentração de urânio ficaram abaixo da do limite
estabelecido para consumo humano, determinado pelo Ministério da Saúde,
em 0,03 mg/L, e pelo CONAMA, em 0,015mg/L.
Monitoração das águas subterrâneas de Caetité feita pelo IPEN/CNEN em 2011
O gráfico acima mostra a quantidade encontrada
em cada ponto, com a respectiva distância deles da mina de urânio,
representada por zero. Nota-se que não há maior concentração de urânio
em poços mais próximos da mina. Na Fazenda Gameleira, a distância é
representada negativamente, para indicar que o poço se localiza no
caminho oposto da direção do percurso da água.
Recente pesquisa da Universidade Federal de Sergipe
Devido à grande repercussão da campanha desenvolvida pela ONG junto à população local e das cidades vizinhas, um grupo de
pesquisadoras da Universidade Federal de Sergipe, em parceria com a
Universidade de São Paulo, decidiram investigar as causas
da presença de urânio nas águas da região de Caetité e os os impactos da mineração no ambiente e na saúde da população que vive na região. Orientadas pela
professora Susana Lalic, com o apoio de Roseli Gennari da USP, as
pesquisadoras Geângela Almeida e Simara Campos coletaram e analisaram amostras de
água e solo em uma área de 100 km no entorno da mina de Caetité, desde Lagoa Real até o povoado de Maniaçu.
As amostras de água e de solo foram coletadas em Fevereiro de 2010 em fazendas que utilizam
poços subterrâneos e cisternas para consumo animal, para irrigar a
plantação e para consumo próprio, e solo onde é feito o plantio.
Coletou-se, também, água na própria cidade, em praças e nas residências
que utilizam água encanada.
Em apenas 2 das amostras analisadas as concentrações de
urânio chegaram ao limite definido pelo Conselho Nacional do Meio
Ambiente (CONAMA) de 0,0015 miligramas de urânio por litro. As duas
amostras foram coletadas em poços localizados no município de Lagoa
Real, onde existe uma grande reserva de urânio ainda não explorada.
As pesquisadoras concluíram que “O solo de Caetité é muito rico em urânio, portanto, o que
ocorre nas águas e no solo é um processo natural e não um processo de
contaminação devido à exploração de urânio”.
Para se certificar dos
resultados das pesquisas feitas na Bahia, o grupo decidiu também
investigar amostras de água da região de Santa Quitéria (CE), região com grande disponibilidade de urânio, mas que atualmente ainda não é explorada, para verificar se o mesmo fenômeno
acontece no sertão cearense.
"Comparamos os dados de radiação ambiental de Caetité, que é uma região
explorada, com os de Santa Quitéria, no Ceará, onde ainda não há
atividade mineira, e verificamos que os resultados encontrados são muito
próximos. Isto é um indicativo que nos mostra que o que existe no local é
influência da própria natureza e não consequência puramente de uma
contaminação" – afirma a pesquisadora Geângela Almeida.
Simara Campos explica
que o urânio é um dos elementos que compõem naturalmente o solo de todo
planeta, sendo encontrado em maior quantidade em localidades como
Caetité. “Um das causas para se encontrar o minério nas águas é que ele
pode ser arrastado pela chuva ou pelos córregos, poços e rios”, informou
a pesquisadora em entrevista à INB.
Urânio nas águas
Em resposta às denúncias do Greenpeace, as análises realizadas pelo
Laboratório Ambiental da INB, pela CNEN e pelo grupo de cientistas da
Universidade Federal de Sergipe estabeleceram, de forma independente, que o
nível de urânio encontrado está abaixo do limite estabelecido pela legislação.
A explicação melhor fundamentada cientificamente para a origem do urânio nas águas de Caetité é a de que se trata de um processo natural, característico da região que apresenta rochas com alta quantidade de urânio.
O urânio é mobilizado a
partir das rochas pelo intemperismo de uraninita (UO2). A ação das
águas superficiais e subterrâneas causa a dissolução oxidativa da
uraninita do íon solúvel uranilo (UO2 2+). Em todo o mundo, de 27 mil a 32 mil toneladas de urânio são liberadas
anualmente a partir de rochas ígneas, xisto, arenito e calcário pela
erosão natural e intemperismo.
Assim, acredita-se que a concentração de U-238 determinada nos diversos pontos de coleta de água seja devida a processos de lixiviação natural das rochas da região que
contêm urânio. Esse urânio entra em solução e atravessa o solo, alcançando o lençol freático. E essa quantidade de urânio nas águas subterrâneas pode variar ao longo do tempo, tanto por razões climáticas quanto geológicas.
Embora natural, é importante monitar frequentemente a quantidade de urânio nas águas da região para evitar danos à saúde da população local.