sexta-feira, 1 de junho de 2012

Vai uma cachaça irradiada aí?

Cachaça boa é aquela envelhecida em tonel de madeira! Quem aprecia a bebida mais tradicional do país sabe que esse período de maturação, imprescindível para a obtenção de uma melhor qualidade, pode levar até três anos, já que, nesse tempo de amadurecimento, o produto estocado sofre reações químicas, melhorando suas características, inclusive sensoriais, e agregando mais valor. 

Para esse amadurecimento, muitas pesquisas já foram realizadas nos laboratórios de Irradiação de Alimentos e Radioentomologia do Cena/USP; Departamento de Agroindústria, Alimentos e Nutrição da Esalq/USP; Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares – Ipen/SP; Faculdade de Tecnologia de Piracicaba – Fatec e, recentemente, no laboratório de Radiobiologia e Ambiente, do Cena/USP. Todas são unânimes em afirmar que o processo de irradiação pode ser utilizado como um método alternativo de envelhecimento de cachaça, já que essa técnica acelera o processo convencional. 

A fórmula tradicional de envelhecimento da cachaça consiste em sua interação com madeiras, realizada pelo armazenamento do líquido por um longo período em barris. “Esse processo é uma das etapas mais importantes para a obtenção de uma cachaça de alta qualidade. As reações que ocorrem durante esse tempo favorecem a formação de compostos que influenciam no aroma, sabor e aparência da bebida”, explica Valter Arthur, professor que coordena um estudo que abrevia consideravelmente esse longo período. 

Baseados nos experimentos realizados neste e em outros laboratórios, é possível afirmar que o uso da irradiação numa dose 0,3 kGy (kilogray: quantidade de energia absorvida pelo material), considerada relativamente baixa, pode acelerar o processo de envelhecimento de cachaça. “Com essa metodologia, aceleramos o envelhecimento e obtivemos uma cachaça similar à convencional, quando comparado aos mesmos parâmetros”, comenta Arthur. 

Fonte: Blog do CENA

Outra vantagem apresentada é a diminuição dos aldeídos, componente responsável pela famigerada dor de cabeça. “Conseguimos uma diminuição expressiva desse composto químico que está diretamente relacionado ao desconforto que se sente ao ingerir a bebida numa dose além do limite”, disse Juliana Angelo Pires, pós-graduanda do laboratório de Radiobiologia e Ambiente. 

Porém, para o aprimoramento do aspecto visual da bebida, a cachaça irradiada também vem sofrendo um período de envelhecimento. “Os apreciadores ainda preferem o destilado de cana-de-açúcar com a cor amarelada. Assim, ainda estamos utilizando a bebida semienvelhecida em tonéis de amendoim, pois essa coloração é normalmente obtida com a ajuda da madeira”. 

Pesquisa com métodos alternativos, como adição de caramelo, para a coloração da cachaça já está sendo realizada para eliminar a necessidade da estocagem em tonéis de madeira. “Além disso, já estamos incorporando extratos vegetais como própolis, urucum e outros para dar essa coloração à cachaça e incrementar atributos com propriedades biológicas. Consequentemente, isso aumentará ainda mais a viabilidade prática e econômica do processo de irradiação em larga escala de cachaça, pois somente o produto final, ou seja, as cachaças já engarrafadas e encaixotadas serão irradiadas para o envelhecimento”, finaliza Arthur. 

Fonte: Blog do Centro de Energia Nuclear na Agricultura

domingo, 27 de maio de 2012

Contaminação de Urânio nas águas de Caetité: que papo é esse?


Em 2008, o Greenpeace denunciou, com um baita estardalhaço, a contaminação da água no distrito de Lagoa Real, em Caetité (Bahia), devido à atividade de mineração de urânio realizada pela Indústrias Nucleares do Brasil (INB), classificada pela Organização Não-Governamental (ONG) como perigosa e poluente.

O Relatório Ciclo do Perigo – Impactos da Produção de Combustível Nuclear no Brasil, realizado pelo Greenpeace, concluiu que há contaminação na água da região, pois duas amostras de água coletas no entorno da mina de Caetité apresentaram concentrações de urânio superiores a 0,015 mg/L, concentração máxima de urânio permitida pela Organização Mundial de Saúde (OMS).

Veja abaixo o vídeo produzido pelo Greenpeace:



E uma pequena amostra das repercussões dessa denúncia junto à população local:

 

Esse assunto repercurtiu na mídia por um bom tempo e ainda hoje "dá pano pra manga"!

Cerca de um ano depois da publicação do Greenpeace, por exemplo, o governador da Bahia Jaques Wagner (PT) encampou a denúncia e, em dezembro de 2009, o Instituto de Gestão das Águas e Clima da Bahia interditou boa parte dos poços na cidade. Resultado: foi preciso contratar um serviço de caminhões-pipa para abastecer de água potável os 3.000 habitantes da zona rural de Caetité.

A prefeitura, paupérrima, gastou mais de 70.000,00 reais nisso até que, em Abril de 2010, a Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) liberou o consumo da água de Caetité. De acordo com o estudo da CNEN, as águas que passam pela INB Caetité nem sequer chegam às comunidades onde os poços foram fechados.


Monitoração ambiental pela INB

A INB afirma que as análises que vêm sendo realizadas desde 1990, nove anos antes da implantação da unidade de mineração, atestam que a atividade mineradora não contribui para o aumento da presença de urânio na região. São mais de 16 mil análises por ano que monitoram mais de 150 poços situados em Maniaçu, São Timóteo, Juazeiro, Lagoa Real e Caetité.

Entretanto, a falta de divulgação dos resultados dessas análises até a época da denúncia feita pelo Greenpeace corroborou para espalhar o medo na população.

A boa notícia dessa confusão toda é que agora os resultados dos testes sobre a qualidade das águas de Caetité ganharam mais transparência e são divulgados pela própria INB em seu site. A última pesquisa realizada pela INB ao longo de 2011 foi divulgada em Janeiro desse ano.

"A concentração de urânio nas águas de superfície em diferentes localidades ao redor da Unidade de Mineração e Beneficiamento de Urânio das Indústrias Nucleares do Brasil em Caetité (BA), medidas em diferentes épocas do ano de 2011, apresenta valores sempre abaixo de um terço do limite estabelecido pelo Conselho Nacional de Meio Ambiente, órgão vinculado ao IBAMA", informou o físico Delcy Py, especialista em radiação.

Resultados da monitoração das águas ao redor da mina de Caetité feita pelas
Indústrias Nucleares do Brasil no ano de 2011.

Fiscalização pela CNEN

A Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) é um dos órgãos responsáveis por fiscalizar as atividades das Indústrias Nucleares do Brasil. E para a CNEN, a ocorrência de urânio nas águas subterrâneas da região é natural, não podendo ser atribuída à operação da INB. 

A INB deve executar um programa de monitoração ambiental (PMA), previamente aprovado pela CNEN, e apresentar os resultados obtidos, periodicamente, à Comissão. Além da água, são feitas análises de amostras de ar, sedimentos, vegetais, leite etc, colhidas em pontos estabelecidos no PMA e localizados ao redor da área de propriedade da instalação.

“Os resultados dessas análises são avaliados pelos especialistas da CNEN. Para verificar a qualidade, periodicamente também são realizadas campanhas de coleta conjunta”, afirma o ex-diretor de radioproteção e segurança nuclear da CNEN, Dr. Laércio Vinhas, em entrevista à Atividades Nucleares.

Para chegar a conclusão de que não há contaminação do lençol freático devido à atividade de mineração da INB, os especialistas da CNEN colhem amostras nos mesmos pontos e nos mesmos instantes que os funcionários da INB. Elas são então analisadas nos laboratórios dos institutos da CNEN. Com base nos resultados de medidas de amostras de água do lençol freático, colhidas no interior da instalação, nas áreas circunvizinhas e em estudos de hidrogeologia se chega ao resultado.

Segundo a Cnen, as doses de radiação encontram-se abaixo do limite recomendado para exposição pública em poços abertos nas proximidades da mina da INB. A média histórica das taxas de radiação das águas de Caetité é de 0,1 Bq/L, ou seja, um valor 5 vezes menor que o máximo permitido que é de 0,5 Bq/L (bequerel por litro).

A radioatividade encontrada nessas águas é menor do que a de estâncias turísticas como Araxá (MG), Águas de Lindóia (SP) e Guarapari (ES).

A última pesquisa feita em 2011 pela CNEN (através do Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares – IPEN) mostra que os mananciais de Caetité estão com índices normais de urânio. O IPEN realizou análises das amostras de águas dos poços situados nas Fazendas Mangabeira, Gameleira e Lajedo, e nos distritos de Juazeiro e São Timóteo. Em todos esses pontos, as médias de concentração de urânio ficaram abaixo da do limite estabelecido para consumo humano, determinado pelo Ministério da Saúde, em 0,03 mg/L, e pelo CONAMA, em 0,015mg/L.

Monitoração das águas subterrâneas de Caetité feita pelo IPEN/CNEN em 2011

O gráfico acima mostra a quantidade encontrada em cada ponto, com a respectiva distância deles da mina de urânio, representada por zero. Nota-se que não há maior concentração de urânio em poços mais próximos da mina. Na Fazenda Gameleira, a distância é representada negativamente, para indicar que o poço se localiza no caminho oposto da direção do percurso da água.  


Recente pesquisa da Universidade Federal de Sergipe

Devido à grande repercussão da campanha desenvolvida pela ONG junto à população local e das cidades vizinhas, um grupo de pesquisadoras da Universidade Federal de Sergipe, em parceria com a Universidade de São Paulo, decidiram investigar as causas da presença de urânio nas águas da região de Caetité e os os impactos da mineração no ambiente e na saúde da população que vive na região.

Orientadas pela professora Susana Lalic, com o apoio de Roseli Gennari da USP, as pesquisadoras Geângela Almeida e Simara Campos coletaram e analisaram amostras de água e solo em uma área de 100 km no entorno da mina de Caetité, desde Lagoa Real até o povoado de Maniaçu.

As amostras de água e de solo foram coletadas em Fevereiro de 2010 em fazendas que utilizam poços subterrâneos e cisternas para consumo animal, para irrigar a plantação e para consumo próprio, e solo onde é feito o plantio. Coletou-se, também, água na própria cidade, em praças e nas residências que utilizam água encanada.

Em apenas 2 das amostras analisadas as concentrações de urânio chegaram ao limite definido pelo Conselho Nacional do Meio Ambiente (CONAMA) de 0,0015 miligramas de urânio por litro. As duas amostras foram coletadas em poços localizados no município de Lagoa Real, onde existe uma grande reserva de urânio ainda não explorada. 

As pesquisadoras concluíram que “O solo de Caetité é muito rico em urânio, portanto, o que ocorre nas águas e no solo é um processo natural e não um processo de contaminação devido à exploração de urânio”. 

Para se certificar dos resultados das pesquisas feitas na Bahia, o grupo decidiu também investigar amostras de água da região de Santa Quitéria (CE), região com grande disponibilidade de urânio, mas que atualmente ainda não é explorada, para verificar se o mesmo fenômeno acontece no sertão cearense.

"Comparamos os dados de radiação ambiental de Caetité, que é uma região explorada, com os de Santa Quitéria, no Ceará, onde ainda não há atividade mineira, e verificamos que os resultados encontrados são muito próximos. Isto é um indicativo que nos mostra que o que existe no local é influência da própria natureza e não consequência puramente de uma contaminação" – afirma a pesquisadora Geângela Almeida. 

Simara Campos explica que o urânio é um dos elementos que compõem naturalmente o solo de todo planeta, sendo encontrado em maior quantidade em localidades como Caetité. “Um das causas para se encontrar o minério nas águas é que ele pode ser arrastado pela chuva ou pelos córregos, poços e rios”, informou a pesquisadora em entrevista à INB


Urânio nas águas

Em resposta às denúncias do Greenpeace, as análises realizadas pelo Laboratório Ambiental da INB, pela CNEN e pelo grupo de cientistas da Universidade Federal de Sergipe estabeleceram, de forma independente, que o nível de urânio encontrado está abaixo do limite estabelecido pela legislação. 

A explicação melhor fundamentada cientificamente para a origem do urânio nas águas de Caetité é  a de que se trata de um processo natural, característico da região que apresenta rochas com alta quantidade de urânio.

O urânio é mobilizado a partir das rochas pelo intemperismo de uraninita (UO2). A ação das águas superficiais e subterrâneas causa a dissolução oxidativa da uraninita do íon solúvel uranilo (UO2 2+). Em todo o mundo, de 27 mil a 32 mil toneladas de urânio são liberadas anualmente a partir de rochas ígneas, xisto, arenito e calcário pela erosão natural e intemperismo.

Assim, acredita-se que a concentração de U-238 determinada nos diversos pontos de coleta de água seja devida a processos de lixiviação natural das rochas da região que contêm urânio. Esse urânio entra em solução e atravessa o solo, alcançando o lençol freático. E essa quantidade de urânio nas águas subterrâneas pode variar ao longo do tempo, tanto por razões climáticas quanto geológicas.

Embora natural, é importante monitar frequentemente a quantidade de urânio nas águas da região para evitar danos à saúde da população local.


Para saber mais

Presença de urânio na água e em solo de Caetité deve-se a fatores ambientais - REVISTA BRASIL NUCLEAR, Ano 16, No. 38, 16/05/2012

Denúncia: água consumida em Caetité (BA) está contaminada por urânio

Relatório do Greenpeace: Ciclo do Perigo - Impactos da Produção de Combustível Nuclear no Brasil

Cnen esclarece situação da mina de urânio em Caetité - Newsletter Atividades Nucleares

Análises confirmam normalidade das águas dos poços de Caetité - site da INB

Dose de exposição radiométrica no entorno das minas de Caetité - BA e Santa Quitéria - CE. Dissertação de Mestrado de Geângela Almeida, UFS.

sábado, 19 de maio de 2012

Um novo olhar sobre a exposição à radiação

Estudo do MIT sugere que, a baixas taxas de dose, a radiação apresenta pouco risco ao DNA. 
Por Anne Trafton, do MIT News Office
Tradução de Pamela Piovezan

Um novo estudo de cientistas do MIT (Massachusetts Institute of Technology) sugere que as diretrizes que os governos usam para determinar quando evacuar as pessoas na sequência de um acidente nuclear podem ser muito conservadoras.
 
O estudo, liderado por Bevin Engelward e Jacquelyn
Yanch e publicado na revista Environmental Health Perspectives , descobriu que quando ratos foram expostos a doses de radiação cerca de 400 vezes maiores do que a dos níveis de fundo (background) por cinco semanas, nenhum dano de DNA pôde ser detectado.

A regulamentação atual dos Estados Unidos exige que os moradores de qualquer área que atinja níveis de radiação oito vezes maiores que a do fundo devem evacuar o local. No entanto, o custo financeiro e emocional de tal deslocamento pode não valer a pena, dizem os pesquisadores.
 
"Não existem dados que digam que esse é um nível perigoso", diz Yanch, professora sênior do departamento de Engenharia Nuclear do MIT. "Este estudo mostra que você pode ir a níveis até 400 vezes superiores aos níveis médios de fundo e ainda não detectar danos genéticos. Isso potencialmente teria um grande impacto em dezenas, se não centenas, de milhares de pessoas nas proximidades de uma usina nuclear após um acidente ou da detonação de uma bomba nuclear, se descobrirmos exatamente quando deveríamos evacuar e quando não há problema em ficar onde estamos."

Até agora, muito poucos estudos mediram os efeitos de baixas doses de radiação em períodos de tempo longos. Este estudo é o primeiro a medir o dano genético em um nível de radiação tão baixo quanto 400 vezes a de fundo (0,0002 centiGray por minuto, ou 105 cGy em um ano).
 
"Quase todos os estudos de radiação são feitos com uma exposição rápida à radiação. Isso causa um resultado totalmente diferente do ponto de vista biológico em comparação às exposições de longo prazo", diz Engelward, professora associada de Engenharia Biológica do MIT.

Quanto é demais?

A radiação de fundo origina-se da radiação cósmica de isótopos naturalmente radioativos presentes no meio ambiente. Estas fontes somam até cerca de 0,3 cGy por ano, por pessoa, em média.

"A exposição a baixas taxas de dose de radiação é natural e algumas pessoas podem até dizer que é essencial para a vida. A questão é: quão alta uma taxa de dose precisa ser antes que nós precisemos nos preocupar com seus efeitos nocivos sobre a nossa saúde?" diz Yanch.

Estudos anteriores demonstraram que um nível de radiação de 10,5 cGy, a dose total utilizada no presente estudo, produz danos no DNA quando recebida de uma só vez. No entanto, para este estudo, os investigadores distribuíram a dose ao longo de cinco semanas, utilizando iodo radioativo como fonte. A radiação emitida pelo iodo radioativo é semelhante a que é emitida pelo reator de  Fukushima danificado no Japão.

No final das cinco semanas, os investigadores testaram vários tipos de danos no DNA do ratos, utilizando as técnicas mais sensíveis disponíveis. Esses tipos de danos dividem-se em duas classes principais: as lesões de base, em que a estrutura da base de DNA (nucleotídeos) é alterada, e as quebras na cadeia de DNA. Eles não encontraram aumentos significativos em nenhum tipo de dano.

Danos no DNA ocorrem espontaneamente, mesmo a níveis de radiação de fundo,  a uma taxa conservadora de cerca de 10.000 mudanças por célula por dia. A maioria dos danos é consertada por sistemas de reparação do DNA no interior de cada célula. Os investigadores estimam que a quantidade de radiação utilizada neste estudo produz uma dúzia de lesões adicionais por célula por dia, todas as quais parecem ter sido reparadas.
 

Embora o estudo tenha terminado depois de cinco semanas, Engelward acredita que os resultados seriam os mesmos para exposições mais longas. "Minha opinião sobre isso é que essa quantidade de radiação não está criando muitas lesões e você já tem bons sistemas de reparação de DNA. Meu palpite é que você provavelmente poderia deixar os ratos lá indefinidamente e o dano não seria significativo", diz ela.
 
Doug Boreham, um professor de Física Médica e Ciências Aplicadas da Radiação da Universidade McMaster, diz que o estudo adiciona-se à evidência crescente de que baixas doses de radiação não são tão prejudiciais quanto as pessoas muitas vezes temem.
 
"Hoje, acredita-se que toda a radiação é ruim para o ser humano, e toda vez que uma pessoa recebe um pouco de radiação, o seu o risco de câncer aumenta", diz Boreham, que não estava envolvido neste estudo. "Há agora evidências de que esse não é o caso." 

Estimativas conservadoras
 
A maioria dos estudos de radiação em que as orientações de evacuação foram baseadas foram originalmente feitos para estabelecer níveis seguros de radiação no local de trabalho, diz Yanch, o que significa que eles são muito conservadores. No caso dos trabalhadores, isso faz sentido porque o empregador pode pagar para a proteção dos seus empregados de uma só vez, o que reduz o custo, diz ela.

No entanto, "quando você tem um ambiente contaminado, então a fonte não é mais controlada, e cada cidadão tem de pagar para evitar a sua própria dose", diz Yanch. "Eles têm que deixar sua casa ou sua comunidade, talvez até para sempre. Eles muitas vezes perdem seus empregos, como você viu em Fukushima. É aí que você realmente deve se perguntar o quão conservadora sua análise do efeito da radiação deve ser. Em vez de ser conservadora, faz mais sentido olhar para uma melhor estimativa do quão perigosa a radiação é realmente."

Essas estimativas conservadoras se baseiam na exposição aguda à radiação, e, em seguida, extrapolam o que poderia acontecer em doses e taxas de doses mais baixas, diz Engelward. "Basicamente, você está usando um conjunto de dados coletados a partir de uma exposição aguda a alta dose para fazer previsões sobre o que está acontecendo em doses muito baixas durante um longo período de tempo, e você realmente não tem quaisquer dados diretos. É adivinhação ", diz ela. "As pessoas discutem constantemente sobre como prever o que está acontecendo em doses e taxas de doses mais baixas".

No entanto, as pesquisadoras dizem que mais estudos são necessários antes que as orientações de evacuação possam ser revistas.

"Claramente, estes estudos tiveram que ser feito em animais ao invés de pessoas, mas muitos estudos mostram que ratos e humanos compartilham respostas semelhantes à radiação. Este trabalho, portanto, fornece um quadro para a investigação adicional e avaliação cuidadosa das nossas diretrizes atuais", diz Engelward

"É interessante que, apesar da evacuação de cerca de 100.000 habitantes, o governo japonês foi criticado por não impor evacuações para mais pessoas. A partir dos nossos estudos, preveríamos que a população que não foi evacuada não mostraria danos em excesso no DNA - isso é algo que pode ser testado usando as tecnologias recentemente desenvolvidos em nosso laboratório", acrescenta ela.

O primeiro autor deste estudo é o ex-pós-doutorando do MIT Werner Olipitz, e o trabalho foi feito em colaboração com
Leona Samson e Peter Dedon do Departamento de Ciências Biológicas da Faculdade de Engenharia. Estes estudos foram apoiados pelo Departamento de Energia (DOE) e pelo Centro de Ciências de Saúde Ambiental do MIT.


Para saber mais

Artigo científico da pesquisa: Integrated Molecular Analysis Indicates Undetectable DNA Damage in Mice after Continuous Irradiation at ~400-fold Natural Background Radiation -

Radiações Ionizantes e a Vida - Apostila da CNEN 


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domingo, 13 de maio de 2012

A energia nuclear na revista Estudos Avançados

Às vésperas da conferência Rio+20, o Instituto de Estudos Avançados da USP lançou, na última sexta-feira, o número 74 de sua revista cujo o tema é "Sustentabilidade".

Com uma seção destinada à energia, quatro dos seis textos "discutem" a questão da energia nuclear. Na verdade, nas palavras do editorial, os textos revelam que "a hipótese da suficiência de nossas fontes é alentadora e alimenta a esperança de que é possível evitar o risco desnecessário de explorar a energia nuclear" (!).

Sim, caro leitor, todos os quatro textos que tratam do assunto são contra a energia nuclear! É interessante notar que isso reflete a opinião do editor da revista, o Dr. Alfredo Bosi, professor da Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas da USP e membro da Coalizão Brasileira contra as Usinas Nucleares. Ele já teve um texto comentado por mim aqui no blog.

Textos que eu não recomendo

O texto Repensando a energia nuclear, do ambientalista Benjamin Sovacool, fala especificamente do contexto norte-americano. Um trecho desse texto já foi comentado aqui no blog. Cuidado com esse texto, caro leitor: ele é falacioso!

O artigo Os deletérios impactos da crise nuclear no Japão, é uma confusão danada! Embora o título (e o resumo) referem-se ao acidente de Fukushima, o texto em si fala sobre aspectos negativos gerais da energia nuclear. Até que o texto começa bem, falando dos efeitos de certos produtos de fissão à saúde e ao meio ambiente. Mas depois, fala sobre as vítimas da bomba atômica e as compara às de Fukushima (!). O texto finaliza com o "sempre perigoso lixo atômico"...

Textos interessantes

A entrevista com o físico Bernard Laplonche, Qual energia desejamos para o futuro?, trata principalmente da situação da França, país cuja matriz energética é prioritariamente nuclear. É uma entrevista interessante já que Laplonche iniciou sua carreira na área nuclear, mas depois mudou de opinião sobre o uso dessa forma de energia.

Por fim, o artigo O espaço da energia nuclear no Brasil, de Joaquim Francisco de Carvalho, também é uma leitura interessante. Ele fala sobre a história da energia nuclear e suas aplicações no País, defendendo a ideia de que o Brasil pode atender sua demanda por eletricidade sem energia nuclear. O artigo analisa também os argumentos comuns na imprensa, a favor e contrários às centrais nucleares, bem como alguns aspectos comerciais e políticos do problema.

A revista Estudos Avançados está disponível integralmente na Scielo. Boa leitura!


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sábado, 5 de maio de 2012

Presidente da Eletronuclear no Canal Livre

O programa de entrevistas Canal Livre, que foi ao ar na Band no último Domingo, 29 de Abril, recebeu o presidente da Eletronuclear, o Dr. Othon Pinheiro da Silva, para falar sobre o programa nuclear brasileiro.

O Dr. Othon já foi membro da Marinha do Brasil e teve um papel fundamental no desenvolvimento das centrífugas para o enriquecimento de Urânio. Veja esse post para saber mais sobre ele.

Confira a entrevista completa abaixo.








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segunda-feira, 30 de abril de 2012

Roda Viva com José Goldemberg

No programa Roda Viva com o Dr. José Goldemberg, que foi ao ar na TV Cultura em 09/04/2012, são discutidos diversos assuntos relacionados à energia no Brasil e aos impactos disso no meio ambiente, tema que ganha novo fôlego às vésperas da Conferência Rio +20, marcada para Junho desse ano.

Embora a energia nuclear não seja o foco dessa discussão, outros aspectos da política energética brasileira, como as fontes fósseis com o petróleo do pré-Sal, as hidroelétricas com a Usina de Belo Monte, a energia eólica e a biomassa, entre outras, também são importantes no debate da energia nuclear no Brasil.

José Goldemberg é físico e possui doutorado em física nuclear pela Universidade de São Paulo (USP). É membro da Academia Brasileira de Ciências e já foi reitor da USP (1986 - 1990). No governo federal, foi secretário da Ciência e Tecnologia (1990 - 1991), ministro da Educação (1991 - 1992) e secretário do Meio Ambiente (março a julho de 1992), durante o governo de Fernando Collor de Mello. No estado de São Paulo, foi secretário do Meio Ambiente de 2002 a 2006. Dentre os prêmios recebidos, destaca-se o Prêmio Planeta Azul (2008) considerado um dos maiores da área do meio ambiente. Na mídia, Goldemberg frequentemente aparece defendendo a energia eólica e a biomassa e se opondo à construção de novas usinas nucleares no Brasil.

Confira o Roda Viva com o Dr. José Goldemberg.




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domingo, 22 de abril de 2012

O cinema pós-traumático do Japão


DENNIS LIM, do "NEW YORK TIMES". Tradução de PAULO MIGLIACCI.



Presume-se há muito que os cineastas devem caminhar com cuidado ao filmar sobre uma tragédia. Quer se trate de uma guerra ou genocídio, ataque terrorista ou desastre natural, a importância de registrar um testemunho entra em choque com o perigo de trivializar ou explorar a calamidade.

Foto de 12 de fevereiro deste ano, destruíção pelo tsunami.
 Nos anais do cinema-catástrofe, o triplo desastre japonês provou ser um caso incomumente acelerado. Meses depois do poderoso tsunami e terremoto que mataram milhares de pessoas e causaram derretimento de reatores na usina nuclear Fukushima Daiichi, já surgiram filmes sobre o assunto em número suficiente para constituir um subgênero.

O Festival de Cinema de Berlim, em Fevereiro, exibiu três documentários sobre o desastre e suas consequências, lidando coletivamente com tópicos como as complicações do esforço de limpeza, o sofrimento das pessoas evacuadas e o movimento de oposição à energia nuclear, que ganhou nova energia.

A Japan Society, de Nova York, marcou a passagem do primeiro aniversário da calamidade com exibições de filmes como "The Tsunami and the Cherry Blossom", um documentário de curta metragem indicado ao Oscar e dirigido por Lucy Walker, e "Pray for Japan", que o diretor Stu Levy rodou enquanto trabalhava como voluntário nas operações de resgate em Tohoku, uma das regiões devastadas pelo desastre.

A lista de documentários é longa e está crescendo. A crise de Fukushima foi tema de uma edição recente do programa norte-americano "Frontline", e a rede de televisão japonesa NHK exibiu um programa por dia sobre o assunto na semana que antecedeu o 11 de março.

Mas essa nova onda de cinema pós-traumático também inclui diversos trabalhos de ficção, entre os quais "Women on the Edge", filme de Masashiro Kobayashi que mostra três irmãs distanciadas que voltam a se unir em meio aos destroços de sua aldeia natal, e "Himizu", adaptação de um mangá sobre adolescentes perturbados que o diretor Sion Siono reescreveu rapidamente a fim de incorporar a devastação concreta da região como pano de fundo.

A primeira tentativa de montar um panorama sobre a visão do cinema quanto ao 11 de março aconteceu em outubro de 2011, no Festival Internacional de Documentários de Yamagata, cidade que fica do lado oposto da cordilheira que se ergue sobre a região de Fukushima. Ao perceber o grande número de trabalhos inscritos que tinham temas relacionados ao desastre, Asako Fujioka, a diretora do escritório do festival em Tóquio, diz que ela e seus colegas decidiram exibir tudo que lhes fosse apresentado.

PECADO

A ideia, informou Fujioka em mensagem de e-mail, era "eliminar a curadoria" e em lugar disso apresentar um "arquivo visual improvisado". O festival de Yamagata exibiu 29 filmes sobre o terremoto e suas consequências, como parte de um programa chamado "Cinema Conosco". Alguns dos trabalhos adotavam abordagens oblíquas, como o projeto colaborativo iniciado pela cineasta Naomi Kawase, que incluía colaborações de realizadores famosos, a exemplo do tailandês Apichatpong Weerasethakul e do chinês Jia Zhangke, sobre o conceito de lar, mas a maioria consistia de imagens rodadas nas áreas mais atingidas.

O grande volume de respostas, e a velocidade com que os cineastas reagiram, podem ser efeito de diversos fatores: a conveniência da tecnologia digital de filmagem, a velocidade do ciclo permanente de notícias, a escala da catástrofe (que matou milhares de pessoas e deixou muito mais desabrigados) e a percepção de que era necessário contestar as posições do governo e as reportagens dos grandes veículos de imprensa (que foram alvo de análise e críticas rigorosas).

Há quem sugira impulsos mais profundos: "Tornou-se quase uma obrigação fazer alguma coisa sobre o terremoto, ao ponto de que filmar sobre alguma outra coisa era visto como uma espécie de pecado", diz Toshi Fujiwara, cujo filme "No Man's Zone", sobre as cidades abandonadas na região de Fukushima, foi exibido em Berlim.

Soldados da Defesa Civil japonesa resgatam moradores ilhados após o terremoto em Fukushima, no Japão.

Chris Fujiwara, diretor artístico do Festival de Cinema de Edimburgo e ex-professor da Universidade de Tóquio, apontou que muitos dos filmes "mencionam explicitamente ou aludem a um contexto muito amplo e rico para compreender o que o desastre revelou sobre a sociedade japonesa".

"No Man's Zone" é um filme-ensaio, que considera de uma perspectiva filosófica o que significa filmar algo invisível: as moléculas radiativas que podem tornar a região inabitável por décadas, e pôr fim ao modo de vida agrícola que já estava desaparecendo e agora pode ser extinto.

Atsushi Funahashi, com "Nuclear Nation", também exibido em Berlim, retrata as vidas cotidianas dos refugiados nucleares que foram forçados a abandonar a cidade de Futaba e o arrependimento do prefeito, agora desprovido de cidade para governar, que fala com franqueza da dependência fáustica de seu governo quanto ao dinheiro do setor nuclear.

URGÊNCIA E DEVER

Os filmes inspiraram debate não apenas sobre questões mas sobre os métodos dos cineastas. Alguns dos documentários exibidos em Yamagata resultaram em discussões vigorosas, de acordo com Fujioka, que acrescentou que os filmes "muitas vezes revelam a intranquilidade do cineasta, apanhado entre duas emoções: a urgência e o dever de registrar a realidade e o sentimento de culpa pela intrusão e por possivelmente tirar vantagem da tragédia que se abateu sobre as vítimas".
Muitas das questões éticas quanto a documentar o desastre giram em torno da dificuldade de conciliar as perspectivas de quem vê de fora e as experiências das pessoas diretamente afetadas. No caso dos filmes sobre o 11 de março, essas preocupações podem ser "coloridas pelas ideias japonesas quanto a decência e vergonha", disse Chris Fujiwara, que não é parente do cineasta Toshi Fujiwara.

Em "311", um dos mais controversos entre os filmes exibidos em Yamagata, quatro cineastas de Tóquio registram sua jornada à região de Fukushima. O que começa como uma "road trip" complicada e de humor negro, com as câmeras registrando contadores Geiger, se torna ainda mais incômodo quando eles entrevistam os moradores desorientados, acompanham a retirada de corpos e recebem, mais de uma vez, ordens de parar de filmar.

O conflito entre os moradores locais e os intrujões da cidade grande espelha uma dinâmica subjacente à crise em Fukushima: a usina destruída era operada pela Tokyo Electric Power Company e gerava energia consumida em Tóquio, a 150 quilômetros de distância.

Ética e estética se entrelaçam de modo especial nesses filmes, o que traz à memória o famoso pronunciamento de Jean-Luc Godard: "Travellings são uma questão de moralidade". Como no caso dos filmes sobre o furacão Katrina, muitos desses trabalhos mostram destroços e ruínas, tipicamente em longas tomadas filmadas de um veículo em movimento. Esse motivo visual captura a magnitude da devastação mas também transforma o desastre em turismo.

Entre os filmes mais sutis sobre Fukushima, "No Man's Land" talvez também seja aquele que revela mais consciência sobre os problemas do subgenêro. Fujiwara opera basicamente com uma câmera montada em tripé que registra demoradamente a beleza intrínseca das paisagens; a narração em off questiona nossa atração mórbida pelas imagens de destruição e menciona a relutância do cinegrafista quanto a caminhar pelas ruínas.

Alguns outros cineastas também buscaram um tom contemplativo, Jon Jost, veterano cineasta independente norte-americano (autor de "Sure Fire"), participou do Festival de Yamagata no ano passado e visitou as regiões devastadas. Agora, está concluindo um filme que rodou em uma ilha próxima do epicentro do abalo.

Intitulado "The Narcissus Flowers of Katsura-shima", o trabalho incorpora imagens de paisagens e poesia japonesa tradicional. A resposta não convencional do cineasta experimental Takashi Makino a Fukushima é um curta chamado "Generator", que vê Tóquio como organismo em desintegração por meio de imagens abstratas e pulsantes.

SABER O QUE FILMAR

O programa "Cinema Conosco" do Festival de Yamagata percorreu o Japão nos últimos meses. Fujioka diz que alguns espectadores, especialmente nas regiões devastadas, se comoveram, mas em outras regiões ela percebeu certa falta de interesse. "As pessoas, especialmente os jovens, querem ir adiante, agora que não estão em perigo", disse. "Há alguma fadiga de desastre".

Mas não parece que o número de filmes diminuirá. Alguns dos cineastas que já trabalharam com o 11 de março, entre os quais Funahashi e Fujiwara, preparam continuações. Fujiwara também diz que continua determinado a investigar outros aspectos da área de Fukushima, entre os quais sua história arqueológica, mas não sabe se o debate público causado pelo desastre seguirá adiante.

"Continuamos a evitar o debate", diz, acrescentando que boa parte do diálogo gira em torno da "fetichização do desastre". Em sua opinião, o maior crime para um cineasta é tratar do tema sem ponto de vista claro.

Dada a gravidade da situação, diz, já não basta simplesmente refletir o persistente sentimento de confusão. "Essas pessoas perderam parentes, perderam casas, perderam todo um estilo de vida. Se você não sabe o que filmar, não filme. Deixe-as em paz".


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