domingo, 24 de junho de 2012

Por que "nuclear" assusta tanto?

Em artigo, o assistente da presidência da Eletronuclear, Leonam dos Santos Guimarães, desmistifica alguns preconceitos contra a energia nuclear. 

Por Leonam dos Santos Guimarães*
 

Diga isso em voz alta: NUCLEAR. Como você se sente? Muitas pessoas têm associações negativas com a palavra, sentimentos que foram amplificados desde que um terremoto e um tsunami de severidade inusitada atingiram as usinas da Central de Fukushima Daiichi, no Japão, dia 11 de março de 2011.

As autoridades de saúde continuam a enfatizar que os níveis de radioatividade não vão chegar a prejudicar a saúde humana. Foram traços que não constituem motivos de preocupação.

Se não há perigo real, por que o medo? As pessoas geralmente pensam sobre risco do ponto de vista emocional, não de uma avaliação racional. Veja como você realmente pode calcular o risco: multiplique a probabilidade de evento indesejado pela gravidade de sua consequência. Mas, se você pedir às pessoas para avaliar riscos, certamente esse cálculo não funcionará. Elas responderão com sua intuição. Uma alta porcentagem das pessoas associa usinas nucleares a armas nucleares. Essa associação ainda está no coração e mentes e condicionam as reações à geração elétrica nuclear.

Alguns dizem que nossa aversão à energia nuclear vai mais longe do que isso. A forma como pensamos sobre a energia nuclear tem raízes anteriores à descoberta da radioatividade em 1896. os alquimistas medievais, por exemplo, estavam interessados em transmutação, que se define como o renascimento através da destruição. Ideias sobre a transmutação e cenários apocalípticos se reuniram em torno do potencial da radiação, percebida como perigosa demais.

Alquimistas medievais

Na década de 1930, a maioria das pessoas associava a radioatividade com raios estranhos que podiam causar uma morte horrenda ou o milagre de uma nova vida, com cientistas loucos e seus montros ambíguos, com segredos cósmicos da morte ou da vida, com uma futura Idade do Ouro, talvez alcançada apenas por meio de um apocalipse e com armas potentes o suficiente para destruir o mundo.

Ressonância Nuclear Magnética
Hoje, as pessoas são submetidas regularmente a procedimentos diagnósticos chamados de "ressonância magnética", mas a técnica foi originalmente chamada de "ressonância nuclear magnética", com o primeiro testes com seres humanos feiots na década de 1970. Mas, por causa das más associações, ninguém queria entrar em ma máquina chamada "nuclear", e assim o nome foi alterado.

Diversos estudos internacionais mostram que, na indústria de geração elétrica, a nuclear é aquela que provoca o menor número de mortes por quilowatt-hora produzido. Aqui estão alguns números reais: 10.000 mil pessoas terão morrido de câncer resultante de Chernobyl, o maior acidente nuclear do mundo, de acordo com algumas estimativas bastante pessimistas. Só que a poluição das usinas a carvão causa um número bem maior de mortes a cada ano. Mas, estams falando de uma forma invisível de morrer mais cedo - por câncer, em Chernobyl - versus outra forma: a poluição do ar por partículas finas.

Em Fukushima Daiichi ninguém morreu por doenças decorrentes da radiação, mas o número de mortos decorrentes dos efeitos do terremoto e tsunami foi maior que 16.000 pessoas. Ao invés do nos preocuparmos com traços de radioatividade que são eventualmente encontrados em diversos locais do mundo, porque são muitos fáceis de medir, seria mais importante nos mobilizarmos para ajudar as vítimas do tsunami e do terremoto.

A familiraridade com o risco é parte fundamental da sua percepção. Algo que é relativamente desconhecido pra você vai parecer mais perigoso do que algo que você já se expôs anteriormente. E a geração elétrica nuclear e seu funcionamento não são temas com os quais as pessoas estejam familiarizadas.

Isso explica porque é nas comunidades mais próximas das usinas nucleares que se encontram os altos níveis de aceitação, decorrentes da convivência e maior conhecimento, que fazem com que a percepção dos riscos seja mais realista, mas também por uma percepção mais clara dos benefícios associados.

Curiosamente, a radiação deveria ser familiar a todos, já que está em toda parte. A radiação está em torno do nós, vinda do Sol, do espaço e de outras fontes naturais na própria Terra. E ele é empregada rotineiramente em procedimentos médicos, como raios-X e tratamentos de câncer. Mas a consciência de que a radiação pode levar à temida consequência de câncer nos faz sentir mal sobre a exposição a usinas nucleares.

A radioatividade natural existe na Terra desde que o planeta se formou. São cerca de 60 radionuclídeos presentes na natureza. Eles são encontrados no ar, água, solos, rochas e minerais, bem como nos alimentos e no nosso próprio corpo. Cerca de 90% desta radiação ambiental provêm de fontes naturais, sendo a maior delas o gás radônio.

Alguns locais do mundo, chamados de Áreas de Alta Radiação de Fundo (High Background Radiation Areas - HBRAs) têm, anomalamente, altos níveis de radioatividade naturais, muito superiores à média do planeta. A geologia e geoquímica das rochas e dos minerais encontrados nessas áreas têm a maior influência na determinação de onde esta alta radiação natural aparece.

Áreas de Alta Radiação de Fundo na Terra

HBRAs extremas são encontradas principalmente em regiões tropicais, áridas ou semi-áridas, como Guarapari (Brasil), sudoeste da França, Ramsar (Irã), partes da China e Costa do Kerala (Índia). Em certas praias do sudeste do Brasil, especialmente no sul do estado do Espírito Santo, os depósitos de areia monazíticas são abundantes. Os níveis de radiação externa nessas areias corresponde a quase 400 vezes o nível normal de radiação de fundo. Essas areias da costa brasileira tẽm vários minerais radioativos, dentre eles monazita, zircônio, torianita e columbita-tantalita, bem como minerais não-radioativos, incluindo elmenita, rutiló, pirocloro e cassiterita.

Areia monazítica no Brasil

No sudoeste da Índia, ao longo dos 570 km de extensão da costa do estado de Kerala (Índia), há também grandes jazidas de areias ricas em monazita, com elevada radiação natural. Os depósitos de monazita são ainda maiores do que aqueles encontrados no Brasil, mas a dose externa de radiação é, em média, semelhante às verificadas em nosso País.

Ramsar, uma cidade no norte do Irã, tem os mais altos níveis de radiação natural do mundo. Exposições tão elevadas, como 260 mGy/ano já foram registrados em Ramsar. A unidade de radiação ionizante utilizada aqui, Grays por ano, corresponde a 1 Joule de energia transferida a 1 kg de tecido vivo (o miligray, mGy, que é um milionésimo de Gray, é mais comumente usado). Uma exposição de corpo inteiro a uma dose uniforme de 3-5 Gy mataria 50% dos organismos expostos num período de 1 a 2 meses.

A característica mais interessante em todos estes casos é que estudos epidemiológicos mostram que pessoas que vivem nestes locais HBRAs não parecem sofrer de qualquer efeito adverso sobre a saúde como resultado de suas exposições elevadas à radiação. Pelo contrário, em alguns casos os indivíduos que vivem nessas HBRAs parecem ser ainda mais saudáveis e viver mais do que aqueles em locais de controle que não são classificados como HBRAs.

Tais fenômenos colocam muitas questões intrigantes. Se eles fossem mais conhecidos do público, talvez criasse aquela familiaridade, tão fundamental para a percepção de riscos, que possibilitaria não termos tanto medo do "nuclear".


* Leonam dos Santos Guimarães é Assistente da Presidência da Eletronuclear e membro do Grupo Permenente de Assessoria em Energia Nuclear do Diretor-Geral da AIEA.


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domingo, 17 de junho de 2012

Empresas na Alemanha temem consequências de abandono da energia nuclear por parte do país

Fonte: Site da Eletronuclear (via Nucnet)

A maioria das empresas alemãs está preocupada em perder competitividade devido a um aumento nos custos de energia elétrica decorrentes da decisão do governo do país de abandonar a energia nuclear e investir em fontes renováveis. Essa é a conclusão de uma pesquisa feita pela Ernst & Young com 235 empresas privadas e públicas. A consulta foi encomendada pela Agência de Energia Alemã (Dena).

O relatório afirma que 60% das companhias consultadas esperam um aumento nos custos de produção devido aos preços crescentes da energia elétrica. Além disso, mais de 40% esperam uma deterioração significativa no fornecimento energético.

Segundo a pesquisa, a indústria alemã expressou grande preocupação em relação à legislação e à regulação do setor, à viabilidade econômica do suprimento de energia elétrica no país e à segurança energética. Há ainda uma grande discrepância entre o clima na indústria e nos círculos políticos, onde a visão da transição energética pela qual o país passará é muito mais positiva, afirma o documento.

Transição custará bilhões de euros

O governo alemão pretende investir bilhões de euros na matriz elétrica nacional, na medida em que o país se prepara para ser abastecido predominantemente por energia eólica e solar, além de novas usinas a carvão e gás, o que pode exigir subsídios públicos.

A coalizão governante no país marcou para 2022 a data de desligamento de todas as 17 usinas nucleares alemãs. Os sete reatores mais antigos, que foram desligados temporariamente depois do acidente de Fukushima Daiichi, e a usina de Kruemmel – que estava desligada desde 2009 devido a problemas técnicos – não voltarão mais a operar.

Seis outras unidades seriam desligadas, no máximo, até 2021. As três usinas mais novas – Neckarwestheim 2 (que entrou em operação comercial em 1989), Isar 2 (1988) e Emsland (1988) – seriam, por fim, desativadas em 2022. Mais informações podem ser encontradas no site da Dena.

Usinas nucleares na Alemanha: desligamento previsto de todas as usinas em 2022.
Legenda:
Barra amarela: início do funcionamento comercial
Barra laranja: término do funcionamento, devido à lei nuclear de 2002,
pelo governo anterior
Barra listrada: prorrogação do funcionamento, autorizado em 2010,
pelo governo atual (antes de Fukushima)

Ponto amarelo: em funcionamento
Ponto laranja: desligada


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domingo, 10 de junho de 2012

Desafio: faça sua cidade crescer de forma sustentável!

Com a Rio+20 começando essa samana eu poderia escrever um looongo texto discutindo os impactos de cada fonte energética, em particular a nuclear, no meio ambiente. Afinal, já virou senso comum que o grande desafio desse século seja o tal do desenvolvimento sustentável!

Entretanto, ao invés do texto, optei por uma abordagem diferente (e bem mais legal!). Convido você, caro leitor, a sentir na pele como é díficil promover o crescimento econômico de uma região, minimizando os impactos ambientais e deixando a população satisfeita.

No jogo de estratégia ELECTROCITY você pode ser o prefeito de uma cidadezinha de 10 mil habitantes e, com as escolhas certas, transformá-la em uma grande cidade - rica, com mais de 1 milhão de habitantes e com baixo impacto ambiental.

Mas atenção: é necessário garantir suprimento energético suficiente para o crescimento da cidade. Você pode escolher entre energia eólica, termoelétrica a gás, termoelétrica a carvão, nuclear, hidroelétrica, geotérmica, biomassa (cogeração), solar e energia a partir das ondas do mar!

Veja a minha cidade:



É claro que o jogo simplifica bastante as complexas relações ambientais, socias e econômicas alí envolvidas, mas vale a pena dar uma conferida (é tão fofo!).

O jogo é mantido pela Genesis Energy, uma companhia de energia da Nova Zelândia que investe em termoelétricas a carvão e a gás, em hidroelétricas e em energia eólica (deve ter um viés aí, não?).

Confira o jogo no site do ELECTROCITY e depois me conte como foi!

OBS.: fica uma sugestão para os professores: tendo o jogo como elemento central, pode ser interessante desenvolver uma atividade com os alunos sobre a questão energética, envolvendo diversas disciplinas:
1) Física: para explicar cada forma de geração de energia usada no jogo;
2) Biologia: para discutir os impactos ambientais e como minimizar esses efeitos;
3) Geografia: para discutir os aspectos sociais e econômicos de cada forma energética;
4) Matemática: para discutir o planejamento financeiro da cidade;
5) Inglês: para trabalhar o vocabulário dos alunos, já que o jogo é em inglês;
6) Português: o trabalho final poderia ser um texto narrativo que contasse a história do desenvolvimento da cidade, justificando cada escolha e discutindo seus impactos sociais, ambientais e econômicos.


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quinta-feira, 7 de junho de 2012

2º Festival Internacional de Filmes sobre Energia Nuclear

O 2º Festival Internacional de Filmes sobre Energia Nuclear, Urânio em Movi(e)mento, começa 6 dias após a Cúpula da Terra (Rio + 20), na Cinemateca do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, MAM.

Entre 28 de junho e 13 de julho, o Festival vai exibir mais de 50 filmes de todos os continentes, sobre energia nuclear e radioatividade. A programação completa do festival já pode ser acessada no site.

Depois do Rio de Janeiro, o festival viaja para outras cidades do Brasil e do Mundo, mas as datas e cidades ainda não foram divulgadas.

O festival foi criado em 2010 no Rio de Janeiro e é o primeiro festival mundial de filmes independentes sobre a temática nuclear. Ele é realizado pelo Arquivo Amarelo, organização cultural sem fins lucrativos, sediada no Rio de Janeiro, que tem como projeto criar a primeira cinemateca do Brasil e da América Latina especializada em assuntos nucleares.

Até o momento, a maioria dos documentários sobre isso tem sido produzido por países não lusofônicos, geralmente em inglês, alemão ou francês. O Arquivo Amarelo traduz estes filmes para a língua portuguesa e também traduz as produções lusofônicas para outras línguas.

O Festival premia, com o Yellow Oscar, os filmes inscritos que se destacaram. Nesse ano foram nomeados oito filmes, representando oito países, em três categorias: Melhor Curta (até 40 min), Melhor Longa (a partir de 41 min) e Melhor Animação. Um júri oficial irá escolhear os vencedores e a premiação ocorrerá no dia 14 de Julho.


Informações gerais:

Quando: De 28 de junho a 14 de julho de 2012

Onde: Cinemateca do Museu de Arte Moderna doRio de Janeiro
Av Infante Dom Henrique, 85
Parque do Flamengo
Rio de Janeiro - RJ

Quanto: R$ 5,00 a entrada inteira e R$ 2,00 para os maiores de 60 anos e estudantes maiores de 12 anos

Site: http://www.uraniofestival.org/index.php/pt/



Embora a proposta de reunir filmes com a temática nuclear em um único festival seja muito interessante, cabe uma ressalva: os filmes selecionados para o festival desse ano retratam apenas aspectos negativos da energia nuclear e da radioatividade.

O próprio festival, no entanto, abre espaço para os aspectos positivos das tecnologias nucleares, tais como medicina nuclear e irradiação de alimentos. Mas acho que os cineastas nucleares independentes não querem falar disso...

De qualquer forma, esse deve ser um evento bastante interessante. Veja o video convite:




Para saber mais

Segundo Festival Internacional de Filmes sobre Energia Nuclear

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sexta-feira, 1 de junho de 2012

Vai uma cachaça irradiada aí?

Cachaça boa é aquela envelhecida em tonel de madeira! Quem aprecia a bebida mais tradicional do país sabe que esse período de maturação, imprescindível para a obtenção de uma melhor qualidade, pode levar até três anos, já que, nesse tempo de amadurecimento, o produto estocado sofre reações químicas, melhorando suas características, inclusive sensoriais, e agregando mais valor.

Para esse amadurecimento, muitas pesquisas já foram realizadas nos laboratórios de Irradiação de Alimentos e Radioentomologia do Cena/USP; Departamento de Agroindústria, Alimentos e Nutrição da Esalq/USP; Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares – Ipen/SP; Faculdade de Tecnologia de Piracicaba – Fatec e, recentemente, no laboratório de Radiobiologia e Ambiente, do Cena/USP. Todas são unânimes em afirmar que o processo de irradiação pode ser utilizado como um método alternativo de envelhecimento de cachaça, já que essa técnica acelera o processo convencional. 

A fórmula tradicional de envelhecimento da cachaça consiste em sua interação com madeiras, realizada pelo armazenamento do líquido por um longo período em barris. “Esse processo é uma das etapas mais importantes para a obtenção de uma cachaça de alta qualidade. As reações que ocorrem durante esse tempo favorecem a formação de compostos que influenciam no aroma, sabor e aparência da bebida”, explica Valter Arthur, professor que coordena um estudo que abrevia consideravelmente esse longo período. 

Baseados nos experimentos realizados neste e em outros laboratórios, é possível afirmar que o uso da irradiação numa dose 0,3 kGy (kilogray: quantidade de energia absorvida pelo material), considerada relativamente baixa, pode acelerar o processo de envelhecimento de cachaça. “Com essa metodologia, aceleramos o envelhecimento e obtivemos uma cachaça similar à convencional, quando comparado aos mesmos parâmetros”, comenta Arthur. 

Fonte: Blog do CENA

Outra vantagem apresentada é a diminuição dos aldeídos, componente responsável pela famigerada dor de cabeça. “Conseguimos uma diminuição expressiva desse composto químico que está diretamente relacionado ao desconforto que se sente ao ingerir a bebida numa dose além do limite”, disse Juliana Angelo Pires, pós-graduanda do laboratório de Radiobiologia e Ambiente. 

Porém, para o aprimoramento do aspecto visual da bebida, a cachaça irradiada também vem sofrendo um período de envelhecimento. “Os apreciadores ainda preferem o destilado de cana-de-açúcar com a cor amarelada. Assim, ainda estamos utilizando a bebida semienvelhecida em tonéis de amendoim, pois essa coloração é normalmente obtida com a ajuda da madeira”. 

Pesquisa com métodos alternativos, como adição de caramelo, para a coloração da cachaça já está sendo realizada para eliminar a necessidade da estocagem em tonéis de madeira. “Além disso, já estamos incorporando extratos vegetais como própolis, urucum e outros para dar essa coloração à cachaça e incrementar atributos com propriedades biológicas. Consequentemente, isso aumentará ainda mais a viabilidade prática e econômica do processo de irradiação em larga escala de cachaça, pois somente o produto final, ou seja, as cachaças já engarrafadas e encaixotadas serão irradiadas para o envelhecimento”, finaliza Arthur. 

Fonte: Blog do Centro de Energia Nuclear na Agricultura

domingo, 27 de maio de 2012

Contaminação de Urânio nas águas de Caetité: que papo é esse?


Em 2008, o Greenpeace denunciou, com um baita estardalhaço, a contaminação da água no distrito de Lagoa Real, em Caetité (Bahia), devido à atividade de mineração de urânio realizada pela Indústrias Nucleares do Brasil (INB), classificada pela Organização Não-Governamental (ONG) como perigosa e poluente.

O Relatório Ciclo do Perigo – Impactos da Produção de Combustível Nuclear no Brasil, realizado pelo Greenpeace, concluiu que há contaminação na água da região, pois duas amostras de água coletas no entorno da mina de Caetité apresentaram concentrações de urânio superiores a 0,015 mg/L, concentração máxima de urânio permitida pela Organização Mundial de Saúde (OMS).

Veja abaixo o vídeo produzido pelo Greenpeace:



E uma pequena amostra das repercussões dessa denúncia junto à população local:

 

Esse assunto repercurtiu na mídia por um bom tempo e ainda hoje "dá pano pra manga"!

Cerca de um ano depois da publicação do Greenpeace, por exemplo, o governador da Bahia Jaques Wagner (PT) encampou a denúncia e, em dezembro de 2009, o Instituto de Gestão das Águas e Clima da Bahia interditou boa parte dos poços na cidade. Resultado: foi preciso contratar um serviço de caminhões-pipa para abastecer de água potável os 3.000 habitantes da zona rural de Caetité.

A prefeitura, paupérrima, gastou mais de 70.000,00 reais nisso até que, em Abril de 2010, a Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) liberou o consumo da água de Caetité. De acordo com o estudo da CNEN, as águas que passam pela INB Caetité nem sequer chegam às comunidades onde os poços foram fechados.


Monitoração ambiental pela INB

A INB afirma que as análises que vêm sendo realizadas desde 1990, nove anos antes da implantação da unidade de mineração, atestam que a atividade mineradora não contribui para o aumento da presença de urânio na região. São mais de 16 mil análises por ano que monitoram mais de 150 poços situados em Maniaçu, São Timóteo, Juazeiro, Lagoa Real e Caetité.

Entretanto, a falta de divulgação dos resultados dessas análises até a época da denúncia feita pelo Greenpeace corroborou para espalhar o medo na população.

A boa notícia dessa confusão toda é que agora os resultados dos testes sobre a qualidade das águas de Caetité ganharam mais transparência e são divulgados pela própria INB em seu site. A última pesquisa realizada pela INB ao longo de 2011 foi divulgada em Janeiro desse ano.

"A concentração de urânio nas águas de superfície em diferentes localidades ao redor da Unidade de Mineração e Beneficiamento de Urânio das Indústrias Nucleares do Brasil em Caetité (BA), medidas em diferentes épocas do ano de 2011, apresenta valores sempre abaixo de um terço do limite estabelecido pelo Conselho Nacional de Meio Ambiente, órgão vinculado ao IBAMA", informou o físico Delcy Py, especialista em radiação.

Resultados da monitoração das águas ao redor da mina de Caetité feita pelas
Indústrias Nucleares do Brasil no ano de 2011.

Fiscalização pela CNEN

A Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) é um dos órgãos responsáveis por fiscalizar as atividades das Indústrias Nucleares do Brasil. E para a CNEN, a ocorrência de urânio nas águas subterrâneas da região é natural, não podendo ser atribuída à operação da INB. 

A INB deve executar um programa de monitoração ambiental (PMA), previamente aprovado pela CNEN, e apresentar os resultados obtidos, periodicamente, à Comissão. Além da água, são feitas análises de amostras de ar, sedimentos, vegetais, leite etc, colhidas em pontos estabelecidos no PMA e localizados ao redor da área de propriedade da instalação.

“Os resultados dessas análises são avaliados pelos especialistas da CNEN. Para verificar a qualidade, periodicamente também são realizadas campanhas de coleta conjunta”, afirma o ex-diretor de radioproteção e segurança nuclear da CNEN, Dr. Laércio Vinhas, em entrevista à Atividades Nucleares.

Para chegar a conclusão de que não há contaminação do lençol freático devido à atividade de mineração da INB, os especialistas da CNEN colhem amostras nos mesmos pontos e nos mesmos instantes que os funcionários da INB. Elas são então analisadas nos laboratórios dos institutos da CNEN. Com base nos resultados de medidas de amostras de água do lençol freático, colhidas no interior da instalação, nas áreas circunvizinhas e em estudos de hidrogeologia se chega ao resultado.

Segundo a Cnen, as doses de radiação encontram-se abaixo do limite recomendado para exposição pública em poços abertos nas proximidades da mina da INB. A média histórica das taxas de radiação das águas de Caetité é de 0,1 Bq/L, ou seja, um valor 5 vezes menor que o máximo permitido que é de 0,5 Bq/L (bequerel por litro).

A radioatividade encontrada nessas águas é menor do que a de estâncias turísticas como Araxá (MG), Águas de Lindóia (SP) e Guarapari (ES).

A última pesquisa feita em 2011 pela CNEN (através do Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares – IPEN) mostra que os mananciais de Caetité estão com índices normais de urânio. O IPEN realizou análises das amostras de águas dos poços situados nas Fazendas Mangabeira, Gameleira e Lajedo, e nos distritos de Juazeiro e São Timóteo. Em todos esses pontos, as médias de concentração de urânio ficaram abaixo da do limite estabelecido para consumo humano, determinado pelo Ministério da Saúde, em 0,03 mg/L, e pelo CONAMA, em 0,015mg/L.

Monitoração das águas subterrâneas de Caetité feita pelo IPEN/CNEN em 2011

O gráfico acima mostra a quantidade encontrada em cada ponto, com a respectiva distância deles da mina de urânio, representada por zero. Nota-se que não há maior concentração de urânio em poços mais próximos da mina. Na Fazenda Gameleira, a distância é representada negativamente, para indicar que o poço se localiza no caminho oposto da direção do percurso da água.  


Recente pesquisa da Universidade Federal de Sergipe

Devido à grande repercussão da campanha desenvolvida pela ONG junto à população local e das cidades vizinhas, um grupo de pesquisadoras da Universidade Federal de Sergipe, em parceria com a Universidade de São Paulo, decidiram investigar as causas da presença de urânio nas águas da região de Caetité e os os impactos da mineração no ambiente e na saúde da população que vive na região.

Orientadas pela professora Susana Lalic, com o apoio de Roseli Gennari da USP, as pesquisadoras Geângela Almeida e Simara Campos coletaram e analisaram amostras de água e solo em uma área de 100 km no entorno da mina de Caetité, desde Lagoa Real até o povoado de Maniaçu.

As amostras de água e de solo foram coletadas em Fevereiro de 2010 em fazendas que utilizam poços subterrâneos e cisternas para consumo animal, para irrigar a plantação e para consumo próprio, e solo onde é feito o plantio. Coletou-se, também, água na própria cidade, em praças e nas residências que utilizam água encanada.

Em apenas 2 das amostras analisadas as concentrações de urânio chegaram ao limite definido pelo Conselho Nacional do Meio Ambiente (CONAMA) de 0,0015 miligramas de urânio por litro. As duas amostras foram coletadas em poços localizados no município de Lagoa Real, onde existe uma grande reserva de urânio ainda não explorada. 

As pesquisadoras concluíram que “O solo de Caetité é muito rico em urânio, portanto, o que ocorre nas águas e no solo é um processo natural e não um processo de contaminação devido à exploração de urânio”. 

Para se certificar dos resultados das pesquisas feitas na Bahia, o grupo decidiu também investigar amostras de água da região de Santa Quitéria (CE), região com grande disponibilidade de urânio, mas que atualmente ainda não é explorada, para verificar se o mesmo fenômeno acontece no sertão cearense.

"Comparamos os dados de radiação ambiental de Caetité, que é uma região explorada, com os de Santa Quitéria, no Ceará, onde ainda não há atividade mineira, e verificamos que os resultados encontrados são muito próximos. Isto é um indicativo que nos mostra que o que existe no local é influência da própria natureza e não consequência puramente de uma contaminação" – afirma a pesquisadora Geângela Almeida. 

Simara Campos explica que o urânio é um dos elementos que compõem naturalmente o solo de todo planeta, sendo encontrado em maior quantidade em localidades como Caetité. “Um das causas para se encontrar o minério nas águas é que ele pode ser arrastado pela chuva ou pelos córregos, poços e rios”, informou a pesquisadora em entrevista à INB


Urânio nas águas

Em resposta às denúncias do Greenpeace, as análises realizadas pelo Laboratório Ambiental da INB, pela CNEN e pelo grupo de cientistas da Universidade Federal de Sergipe estabeleceram, de forma independente, que o nível de urânio encontrado está abaixo do limite estabelecido pela legislação. 

A explicação melhor fundamentada cientificamente para a origem do urânio nas águas de Caetité é  a de que se trata de um processo natural, característico da região que apresenta rochas com alta quantidade de urânio.

O urânio é mobilizado a partir das rochas pelo intemperismo de uraninita (UO2). A ação das águas superficiais e subterrâneas causa a dissolução oxidativa da uraninita do íon solúvel uranilo (UO2 2+). Em todo o mundo, de 27 mil a 32 mil toneladas de urânio são liberadas anualmente a partir de rochas ígneas, xisto, arenito e calcário pela erosão natural e intemperismo.

Assim, acredita-se que a concentração de U-238 determinada nos diversos pontos de coleta de água seja devida a processos de lixiviação natural das rochas da região que contêm urânio. Esse urânio entra em solução e atravessa o solo, alcançando o lençol freático. E essa quantidade de urânio nas águas subterrâneas pode variar ao longo do tempo, tanto por razões climáticas quanto geológicas.

Embora natural, é importante monitar frequentemente a quantidade de urânio nas águas da região para evitar danos à saúde da população local.


Para saber mais

Presença de urânio na água e em solo de Caetité deve-se a fatores ambientais - REVISTA BRASIL NUCLEAR, Ano 16, No. 38, 16/05/2012

Denúncia: água consumida em Caetité (BA) está contaminada por urânio

Relatório do Greenpeace: Ciclo do Perigo - Impactos da Produção de Combustível Nuclear no Brasil

Cnen esclarece situação da mina de urânio em Caetité - Newsletter Atividades Nucleares

Análises confirmam normalidade das águas dos poços de Caetité - site da INB

Dose de exposição radiométrica no entorno das minas de Caetité - BA e Santa Quitéria - CE. Dissertação de Mestrado de Geângela Almeida, UFS.

sábado, 19 de maio de 2012

Um novo olhar sobre a exposição à radiação

Estudo do MIT sugere que, a baixas taxas de dose, a radiação apresenta pouco risco ao DNA. 
Por Anne Trafton, do MIT News Office
Tradução de Pamela Piovezan

Um novo estudo de cientistas do MIT (Massachusetts Institute of Technology) sugere que as diretrizes que os governos usam para determinar quando evacuar as pessoas na sequência de um acidente nuclear podem ser muito conservadoras.
 
O estudo, liderado por Bevin Engelward e Jacquelyn
Yanch e publicado na revista Environmental Health Perspectives , descobriu que quando ratos foram expostos a doses de radiação cerca de 400 vezes maiores do que a dos níveis de fundo (background) por cinco semanas, nenhum dano de DNA pôde ser detectado.

A regulamentação atual dos Estados Unidos exige que os moradores de qualquer área que atinja níveis de radiação oito vezes maiores que a do fundo devem evacuar o local. No entanto, o custo financeiro e emocional de tal deslocamento pode não valer a pena, dizem os pesquisadores.
 
"Não existem dados que digam que esse é um nível perigoso", diz Yanch, professora sênior do departamento de Engenharia Nuclear do MIT. "Este estudo mostra que você pode ir a níveis até 400 vezes superiores aos níveis médios de fundo e ainda não detectar danos genéticos. Isso potencialmente teria um grande impacto em dezenas, se não centenas, de milhares de pessoas nas proximidades de uma usina nuclear após um acidente ou da detonação de uma bomba nuclear, se descobrirmos exatamente quando deveríamos evacuar e quando não há problema em ficar onde estamos."

Até agora, muito poucos estudos mediram os efeitos de baixas doses de radiação em períodos de tempo longos. Este estudo é o primeiro a medir o dano genético em um nível de radiação tão baixo quanto 400 vezes a de fundo (0,0002 centiGray por minuto, ou 105 cGy em um ano).
 
"Quase todos os estudos de radiação são feitos com uma exposição rápida à radiação. Isso causa um resultado totalmente diferente do ponto de vista biológico em comparação às exposições de longo prazo", diz Engelward, professora associada de Engenharia Biológica do MIT.

Quanto é demais?

A radiação de fundo origina-se da radiação cósmica de isótopos naturalmente radioativos presentes no meio ambiente. Estas fontes somam até cerca de 0,3 cGy por ano, por pessoa, em média.

"A exposição a baixas taxas de dose de radiação é natural e algumas pessoas podem até dizer que é essencial para a vida. A questão é: quão alta uma taxa de dose precisa ser antes que nós precisemos nos preocupar com seus efeitos nocivos sobre a nossa saúde?" diz Yanch.

Estudos anteriores demonstraram que um nível de radiação de 10,5 cGy, a dose total utilizada no presente estudo, produz danos no DNA quando recebida de uma só vez. No entanto, para este estudo, os investigadores distribuíram a dose ao longo de cinco semanas, utilizando iodo radioativo como fonte. A radiação emitida pelo iodo radioativo é semelhante a que é emitida pelo reator de  Fukushima danificado no Japão.

No final das cinco semanas, os investigadores testaram vários tipos de danos no DNA do ratos, utilizando as técnicas mais sensíveis disponíveis. Esses tipos de danos dividem-se em duas classes principais: as lesões de base, em que a estrutura da base de DNA (nucleotídeos) é alterada, e as quebras na cadeia de DNA. Eles não encontraram aumentos significativos em nenhum tipo de dano.

Danos no DNA ocorrem espontaneamente, mesmo a níveis de radiação de fundo,  a uma taxa conservadora de cerca de 10.000 mudanças por célula por dia. A maioria dos danos é consertada por sistemas de reparação do DNA no interior de cada célula. Os investigadores estimam que a quantidade de radiação utilizada neste estudo produz uma dúzia de lesões adicionais por célula por dia, todas as quais parecem ter sido reparadas.
 

Embora o estudo tenha terminado depois de cinco semanas, Engelward acredita que os resultados seriam os mesmos para exposições mais longas. "Minha opinião sobre isso é que essa quantidade de radiação não está criando muitas lesões e você já tem bons sistemas de reparação de DNA. Meu palpite é que você provavelmente poderia deixar os ratos lá indefinidamente e o dano não seria significativo", diz ela.
 
Doug Boreham, um professor de Física Médica e Ciências Aplicadas da Radiação da Universidade McMaster, diz que o estudo adiciona-se à evidência crescente de que baixas doses de radiação não são tão prejudiciais quanto as pessoas muitas vezes temem.
 
"Hoje, acredita-se que toda a radiação é ruim para o ser humano, e toda vez que uma pessoa recebe um pouco de radiação, o seu o risco de câncer aumenta", diz Boreham, que não estava envolvido neste estudo. "Há agora evidências de que esse não é o caso." 

Estimativas conservadoras
 
A maioria dos estudos de radiação em que as orientações de evacuação foram baseadas foram originalmente feitos para estabelecer níveis seguros de radiação no local de trabalho, diz Yanch, o que significa que eles são muito conservadores. No caso dos trabalhadores, isso faz sentido porque o empregador pode pagar para a proteção dos seus empregados de uma só vez, o que reduz o custo, diz ela.

No entanto, "quando você tem um ambiente contaminado, então a fonte não é mais controlada, e cada cidadão tem de pagar para evitar a sua própria dose", diz Yanch. "Eles têm que deixar sua casa ou sua comunidade, talvez até para sempre. Eles muitas vezes perdem seus empregos, como você viu em Fukushima. É aí que você realmente deve se perguntar o quão conservadora sua análise do efeito da radiação deve ser. Em vez de ser conservadora, faz mais sentido olhar para uma melhor estimativa do quão perigosa a radiação é realmente."

Essas estimativas conservadoras se baseiam na exposição aguda à radiação, e, em seguida, extrapolam o que poderia acontecer em doses e taxas de doses mais baixas, diz Engelward. "Basicamente, você está usando um conjunto de dados coletados a partir de uma exposição aguda a alta dose para fazer previsões sobre o que está acontecendo em doses muito baixas durante um longo período de tempo, e você realmente não tem quaisquer dados diretos. É adivinhação ", diz ela. "As pessoas discutem constantemente sobre como prever o que está acontecendo em doses e taxas de doses mais baixas".

No entanto, as pesquisadoras dizem que mais estudos são necessários antes que as orientações de evacuação possam ser revistas.

"Claramente, estes estudos tiveram que ser feito em animais ao invés de pessoas, mas muitos estudos mostram que ratos e humanos compartilham respostas semelhantes à radiação. Este trabalho, portanto, fornece um quadro para a investigação adicional e avaliação cuidadosa das nossas diretrizes atuais", diz Engelward

"É interessante que, apesar da evacuação de cerca de 100.000 habitantes, o governo japonês foi criticado por não impor evacuações para mais pessoas. A partir dos nossos estudos, preveríamos que a população que não foi evacuada não mostraria danos em excesso no DNA - isso é algo que pode ser testado usando as tecnologias recentemente desenvolvidos em nosso laboratório", acrescenta ela.

O primeiro autor deste estudo é o ex-pós-doutorando do MIT Werner Olipitz, e o trabalho foi feito em colaboração com
Leona Samson e Peter Dedon do Departamento de Ciências Biológicas da Faculdade de Engenharia. Estes estudos foram apoiados pelo Departamento de Energia (DOE) e pelo Centro de Ciências de Saúde Ambiental do MIT.


Para saber mais

Artigo científico da pesquisa: Integrated Molecular Analysis Indicates Undetectable DNA Damage in Mice after Continuous Irradiation at ~400-fold Natural Background Radiation -

Radiações Ionizantes e a Vida - Apostila da CNEN 


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