DENNIS LIM, do "NEW YORK TIMES". Tradução de PAULO MIGLIACCI.
Presume-se há muito que os cineastas devem caminhar com cuidado ao
filmar sobre uma tragédia. Quer se trate de uma guerra ou genocídio,
ataque terrorista ou desastre natural, a importância de registrar um
testemunho entra em choque com o perigo de trivializar ou explorar a
calamidade.
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Foto de 12 de fevereiro deste ano, destruíção pelo tsunami. |
Nos anais do cinema-catástrofe, o triplo desastre japonês provou ser um
caso incomumente acelerado. Meses depois do poderoso tsunami e terremoto
que mataram milhares de pessoas e causaram derretimento de reatores na
usina nuclear Fukushima Daiichi, já surgiram filmes sobre o assunto em
número suficiente para constituir um subgênero.
O Festival de Cinema de Berlim, em Fevereiro, exibiu três
documentários sobre o desastre e suas consequências, lidando
coletivamente com tópicos como as complicações do esforço de limpeza, o
sofrimento das pessoas evacuadas e o movimento de oposição à energia
nuclear, que ganhou nova energia.
A Japan Society, de Nova York, marcou a passagem do primeiro aniversário
da calamidade com exibições de filmes como "The Tsunami and the Cherry
Blossom", um documentário de curta metragem indicado ao Oscar e dirigido
por Lucy Walker, e "Pray for Japan", que o diretor Stu Levy rodou
enquanto trabalhava como voluntário nas operações de resgate em Tohoku,
uma das regiões devastadas pelo desastre.
A lista de documentários é longa e está crescendo. A crise de Fukushima
foi tema de uma edição recente do programa norte-americano "Frontline", e
a rede de televisão japonesa NHK exibiu um programa por dia sobre o
assunto na semana que antecedeu o 11 de março.
Mas essa nova onda de cinema pós-traumático também inclui diversos
trabalhos de ficção, entre os quais "Women on the Edge", filme de
Masashiro Kobayashi que mostra três irmãs distanciadas que voltam a se
unir em meio aos destroços de sua aldeia natal, e "Himizu", adaptação de
um mangá sobre adolescentes perturbados que o diretor Sion Siono
reescreveu rapidamente a fim de incorporar a devastação concreta da
região como pano de fundo.
A primeira tentativa de montar um panorama sobre a visão do cinema
quanto ao 11 de março aconteceu em outubro de 2011, no Festival
Internacional de Documentários de Yamagata, cidade que fica do lado
oposto da cordilheira que se ergue sobre a região de Fukushima. Ao
perceber o grande número de trabalhos inscritos que tinham temas
relacionados ao desastre, Asako Fujioka, a diretora do escritório do
festival em Tóquio, diz que ela e seus colegas decidiram exibir tudo que
lhes fosse apresentado.
PECADO
A ideia, informou Fujioka em mensagem de e-mail, era "eliminar a
curadoria" e em lugar disso apresentar um "arquivo visual improvisado". O
festival de Yamagata exibiu 29 filmes sobre o terremoto e suas
consequências, como parte de um programa chamado "Cinema Conosco".
Alguns dos trabalhos adotavam abordagens oblíquas, como o projeto
colaborativo iniciado pela cineasta Naomi Kawase, que incluía
colaborações de realizadores famosos, a exemplo do tailandês Apichatpong
Weerasethakul e do chinês Jia Zhangke, sobre o conceito de lar, mas a
maioria consistia de imagens rodadas nas áreas mais atingidas.
O grande volume de respostas, e a velocidade com que os cineastas
reagiram, podem ser efeito de diversos fatores: a conveniência da
tecnologia digital de filmagem, a velocidade do ciclo permanente de
notícias, a escala da catástrofe (que matou milhares de pessoas e deixou
muito mais desabrigados) e a percepção de que era necessário contestar
as posições do governo e as reportagens dos grandes veículos de imprensa
(que foram alvo de análise e críticas rigorosas).
Há quem sugira impulsos mais profundos: "Tornou-se quase uma obrigação
fazer alguma coisa sobre o terremoto, ao ponto de que filmar sobre
alguma outra coisa era visto como uma espécie de pecado", diz Toshi
Fujiwara, cujo filme "No Man's Zone", sobre as cidades abandonadas na
região de Fukushima, foi exibido em Berlim.
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Soldados da Defesa Civil japonesa resgatam moradores ilhados após o terremoto em Fukushima, no Japão. |
Chris Fujiwara, diretor artístico do Festival de Cinema de Edimburgo e
ex-professor da Universidade de Tóquio, apontou que muitos dos filmes
"mencionam explicitamente ou aludem a um contexto muito amplo e rico
para compreender o que o desastre revelou sobre a sociedade japonesa".
"No Man's Zone" é um filme-ensaio, que considera de uma perspectiva
filosófica o que significa filmar algo invisível: as moléculas
radiativas que podem tornar a região inabitável por décadas, e pôr fim
ao modo de vida agrícola que já estava desaparecendo e agora pode ser
extinto.
Atsushi Funahashi, com "Nuclear Nation", também exibido em Berlim,
retrata as vidas cotidianas dos refugiados nucleares que foram forçados a
abandonar a cidade de Futaba e o arrependimento do prefeito, agora
desprovido de cidade para governar, que fala com franqueza da
dependência fáustica de seu governo quanto ao dinheiro do setor nuclear.
URGÊNCIA E DEVER
Os filmes inspiraram debate não apenas sobre questões mas sobre os
métodos dos cineastas. Alguns dos documentários exibidos em Yamagata
resultaram em discussões vigorosas, de acordo com Fujioka, que
acrescentou que os filmes "muitas vezes revelam a intranquilidade do
cineasta, apanhado entre duas emoções: a urgência e o dever de registrar
a realidade e o sentimento de culpa pela intrusão e por possivelmente
tirar vantagem da tragédia que se abateu sobre as vítimas".
Muitas das questões éticas quanto a documentar o desastre giram em torno
da dificuldade de conciliar as perspectivas de quem vê de fora e as
experiências das pessoas diretamente afetadas. No caso dos filmes sobre o
11 de março, essas preocupações podem ser "coloridas pelas ideias
japonesas quanto a decência e vergonha", disse Chris Fujiwara, que não é
parente do cineasta Toshi Fujiwara.
Em "311", um dos mais controversos entre os filmes exibidos em Yamagata,
quatro cineastas de Tóquio registram sua jornada à região de Fukushima.
O que começa como uma "road trip" complicada e de humor negro, com as
câmeras registrando contadores Geiger, se torna ainda mais incômodo
quando eles entrevistam os moradores desorientados, acompanham a
retirada de corpos e recebem, mais de uma vez, ordens de parar de
filmar.
O conflito entre os moradores locais e os intrujões da cidade grande
espelha uma dinâmica subjacente à crise em Fukushima: a usina destruída
era operada pela Tokyo Electric Power Company e gerava energia consumida
em Tóquio, a 150 quilômetros de distância.
Ética e estética se entrelaçam de modo especial nesses filmes, o que
traz à memória o famoso pronunciamento de Jean-Luc Godard: "Travellings
são uma questão de moralidade". Como no caso dos filmes sobre o furacão
Katrina, muitos desses trabalhos mostram destroços e ruínas, tipicamente
em longas tomadas filmadas de um veículo em movimento. Esse motivo
visual captura a magnitude da devastação mas também transforma o
desastre em turismo.
Entre os filmes mais sutis sobre Fukushima, "No Man's Land" talvez
também seja aquele que revela mais consciência sobre os problemas do
subgenêro. Fujiwara opera basicamente com uma câmera montada em tripé
que registra demoradamente a beleza intrínseca das paisagens; a narração
em off questiona nossa atração mórbida pelas imagens de destruição e
menciona a relutância do cinegrafista quanto a caminhar pelas ruínas.
Alguns outros cineastas também buscaram um tom contemplativo, Jon Jost,
veterano cineasta independente norte-americano (autor de "Sure Fire"),
participou do Festival de Yamagata no ano passado e visitou as regiões
devastadas. Agora, está concluindo um filme que rodou em uma ilha
próxima do epicentro do abalo.
Intitulado "The Narcissus Flowers of Katsura-shima", o trabalho
incorpora imagens de paisagens e poesia japonesa tradicional. A resposta
não convencional do cineasta experimental Takashi Makino a Fukushima é
um curta chamado "Generator", que vê Tóquio como organismo em
desintegração por meio de imagens abstratas e pulsantes.
SABER O QUE FILMAR
O programa "Cinema Conosco" do Festival de Yamagata percorreu o Japão
nos últimos meses. Fujioka diz que alguns espectadores, especialmente
nas regiões devastadas, se comoveram, mas em outras regiões ela percebeu
certa falta de interesse. "As pessoas, especialmente os jovens, querem
ir adiante, agora que não estão em perigo", disse. "Há alguma fadiga de
desastre".
Mas não parece que o número de filmes diminuirá. Alguns dos cineastas
que já trabalharam com o 11 de março, entre os quais Funahashi e
Fujiwara, preparam continuações. Fujiwara também diz que continua
determinado a investigar outros aspectos da área de Fukushima, entre os
quais sua história arqueológica, mas não sabe se o debate público
causado pelo desastre seguirá adiante.
"Continuamos a evitar o debate", diz, acrescentando que boa parte do
diálogo gira em torno da "fetichização do desastre". Em sua opinião, o
maior crime para um cineasta é tratar do tema sem ponto de vista claro.
Dada a gravidade da situação, diz, já não basta simplesmente refletir o
persistente sentimento de confusão. "Essas pessoas perderam parentes,
perderam casas, perderam todo um estilo de vida. Se você não sabe o que
filmar, não filme. Deixe-as em paz".
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