domingo, 15 de abril de 2012

Radio Bikini e os soldados atômicos

Entre 1946 e 1962, os Estados Unidos conduziram diversos testes de bombas atômicas nos quais milhares de militares foram expostos à radiação. Tais testes começaram na pequena ilha de Bikini (no oceano Pacífico) e, depois de 1951, grande parte foi conduzida no sítio de testes de Nevada.

Segundo a Agência de Defesa Nuclear, cerca de 225 mil militares - os soldados atômicos - estiveram envolvidos nestes testes depois da Segunda Guerra Mundial. Isso porque se queria determinar se, em uma guerra nuclear, as tropas poderiam sobreviver à radiação, fosse após uma exposição de cinco minutos ou de cinco dias!

Nas décadas de 1940 e 1950 era impossível determinar uma relação causal entre uma exposição à radiação e o desenvolvimento de um câncer específico. Sabia-se apenas, como resultado do Projeto Manhattan (devido a acidentes como o Demon Core), que altas doses de radiação levaria uma pessoa à morte em poucos dias. Caber ressaltar que mesmo hoje é difícil estabelecer uma relação causal entre baixas doses de radiação e câncer.

Os documentos sobre os testes de armas nucleares e os soldados atômicos foram classificados como secretos e ficaram sob a posse do governo norte-americano até a década de 1970, quando o Ato de Privacidade de 1974 (Privacy Act) complementou o Ato de Liberdade de Informação de 1966 (Freedom of Information Act), e tornou tais documentos acessíveis ao público.

E foi usando informações desclassificadas pelos Atos citados que o produtor e diretor Robert Stone fez o documentário Radio Bikini em 1987. Indicado para o Oscar em 1988 e vencedor do San Francisco Film Festival's Golden Gate Award, esse documentário relata os primeiros dois testes de armas nucleares após a Segunda Guerra Mundial usando imagens da época feitas pela Marinha americana no atol de Bikini.


Dados técnicos:


Título: Radio Bikini

Duração: 56 minutos

Direção: Robert Stone

Ano: 1987

País: Reino Unido, Estados Unidos

Gênero: Documentário



Confira abaixo o documentário com legenda em português:





Diversos testes foram realizados no Atol de Bikini. A mais destrutiva foi a bomba Bravo, lançada em 1954 sobre o banco de coral que cerca o atol, que pulverizou três ilhas e abriu na lagoa uma cratera de 1,5 quilômetro de largura e 120 metros de profundidade (veja a foto de satélite abaixo).



Devido à alta radioatividade liberada pelas bombas, o atol teve que permanecer isolado por meio século. Em 1997, um relatório da Agência Nacional de Energia Atômica examinou os níveis de radioatividade no local e concluiu que ainda não seria possível reabitar a ilha de Bikini, pois o solo está contaminado com Césio-137 que poderia passar para a comida que, quando ingerida, poderia resultar em doses anuais efetivas nos habitantes locais maiores que os limites recomendados pela Agência.

Em 2010, o Atol de Bikini foi considerado pela UNESCO Patrimônio da Humanidade. Nesse mesmo ano, após seis relatórios de diferentes instituições declararam o atol livre de radiação em níveis perigosos para o ser humano (embora ainda não seja possível a reabitação do local), o atol foi reaberto oficialmente ao turismo, sendo o mergulho a principal atração (uma viagem de 13 dias custa cerca de 5.000 dólares).

A fauna marinha, intocada durante quase quarenta anos, cresceu e se diversificou, fazendo de Bikini um dos santuários ecológicos mais ricos do mundo. Além disso, no fundo da lagoa há um cemitério de navios de guerra completos, com armas, munição, bombas ainda ativadas, xícaras de café e lâmpadas intatas. 

Imagem do Atol de Bikini. Fonte: National Geographic.

Em 1996, o brasileiro Lawrence Wahba tornou-se o primeiro a receber autorização para filmar em suas águas azul-turquesa. Em 2006, ele retornou às ilhas para conferir as mudanças desde sua primeira passagem por lá. O resultado é o documentário De Volta a Bikini, exibido no canal National Geographic em 2008. Suas imagens dão testemunho da capacidade de regeneração da natureza. Algumas fotos e a entrevista de Lawrence Wahba podem ser conferidas no site da NatGeo.

Referência na cultura popular: Você sabia que o Bob Esponja, personagem de um desenho animado da Nickelodeon, vive numa cidade chamada Fenda do Biquíni que supostamente fica debaixo do Atol de Bikini? Num dos episódios (Dying for a Pie), uma bomba disfarçada de torta explode violentamente. Na ocasião, é mostrada cena de teste da bomba-H em Bikini.


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Para saber mais

O atol de Bikini - Arquivos de um Repórter


Conditions at Bikini Atoll. Relatório da AIEA.

De volta a Bikini - Fotos - National Geographic

James Flynn, Nuclear Stigma em The Social Amplification of the Risk.

2 comentários:

  1. Excelente Post. Quer dizer então que foi tudo culpa do Bob esponja??? hehe...

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