quarta-feira, 27 de abril de 2011

Chernobil: 25 anos! Fatos e Mitos sobre o acidente nuclear - Parte 1

Hoje, o maior acidente nuclear da história completou 25 anos. Poucos assuntos técnicos levantam tanta controvérsia quanto a energia nuclear e poucos assuntos nucleares tem um apelo tão emotivo quanto o desastre de Chernobil, ocorrido na então União Soviética (hoje Ucrânia) em abril de 1986. A palavra "Chernobil" automaticamente evoca imagens de uma catástrofe ambiental e de sérias consequências de longo prazo para a saúde humana.

Mas quem sabe o que realmente aconteceu? Uma combinação de boatos infundados e da natureza complexa das evidências científicas em torno de Chernobil torna difícil separar a realidade da ficção. O acidente de Chernobyl distorceu os argumentos tanto a favor quanto contra a energia nuclear. E com os argumentos distorcidos, a percepção popular sobre o acidente e sobre a energia nuclear também tornou-se distorcida.

Para ajudar a esclarecer os fatos, a a agência de notícias nucleares NucNet (Nuclear Communications Network) publicou um relatório com informações atualizadas sobre o acidente de Chernobil. A intenção é ajudar profissionais de comunicação da área nuclear e jornalistas que cobrem o setor a entender as razões por trás do que aconteceu e as contradições que surgiram em torno do tema. Mas as informações também são úteis para pesquisadores, estudantes, outros profissionais do setor e políticos.

Cada seção do documento lida com um aspecto importante do acidente e suas consequências, mostrando o que aconteceu e as medidas que foram tomadas para assegurar que o episódio não se repita. Os eventos que levaram ao acidente e os acontecimentos que o sucederam são descritos e explicados. Os mitos em torno de Chernobil são desmitificados, e as razões e repercussões do episódio são esclarecidas.

Para os mais apressadinhos, o relatório (em inglês) pode ser conferido aqui. Estou traduzindo esse material e juntando mais informações sobre o assunto para publicar aqui no blog. Como esse tema tem muito "pano pra manga", durante as próximas duas semanas publicarei posts relacionados à Chernobil (planejo uns 7 posts!).

Aguargem e confiram!

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Como funcionam os reatores nucleares?

Essa pergunta apareceu muito na mídia no último mês, acompanhada de respostas sobre como funcionam os PWRs e os BWRs, tipos específicos de reatores nucleares. Entretanto, essa é uma pergunta que exige uma resposta muito mais ampla, como veremos.


Definição geral


Em termos gerais,

reatores nucleares são dispositivos cujos componentes são arranjados de tal forma que uma reação em cadeia auto-sustentada de fissões nucleares pode ocorrer de forma controlada.

Vamos analisar essa frase por partes:

- FISSÃO NUCLEAR: Já vimos em outro post que fissão nuclear é o processo pelo qual um núcleo pesado parte-se em dois núcleos menores, liberando nêutrons e energia.

- REAÇÃO EM CADEIA de fissão nuclear: Reação em cadeia, por sua vez, é uma sequência de reações de fissão que dependem do produtos das reações anteriores para ocorrer. Os nêutrons liberados na fissão de um núcleo, por exemplo, podem induzir novas fissões nucleares que, por sua vez, liberam mais nêutrons que podem induzir novas fissões e assim vai!

- Reação em cadeia de fissão nuclear AUTO-SUSTENTADA: Dizemos que a reação em cadeia é auto-sustentada quando o número de fissões nucleares em um certo instante de tempo é igual ou maior ao número de fissões nucleares que ocorreram em um instante de tempo anterior. Para entender melhor isso, vamos imaginar um experimento: no laboratório há um recipiente cheio de água e sal de Urânio dissolvido. Imagine que é possível medir o número de fissões que acontecem a cada intervalo de tempo neste recipiente. Na primeira contagem, ocorrem 1000 fissões em 1 segundo, por exemplo. Na segunda contagem, se o número de fissões medidos em 1 segundo for maior ou igual a 1000, a reação em cadeia é auto-sustentada, podendo ser crescente (no caso em que for maior) ou constante (se for igual). Por outro lado, se o número de fissões medidos na segunda contagem for menor que o medido na primeira, o número de reações vai caindo com o tempo, até que não aconteça mais nenhuma reação de fissão.

Os reatores nucleares operam, na maior parte do tempo, mantendo o número de reações constante com o tempo. Desvios dessa condição podem ocorrer, por exemplo, nas operações de partida (quando o número de fissões aumenta com o tempo) e no desligamento do reator (quando este número diminui com o tempo). Já no caso da bomba atômica, o número de fissões nucleares aumenta MUITO RÁPIDO com o tempo, de forma descontrolada, até culminar na grande explosão.

- Reação em cadeia de fissão nuclear auto-sustentada e CONTROLADA: nos reatores nucleares, além de auto-sustentada, a reação em cadeia é controlada. Uma das maneiras de realizar esse controle é através das chamadas barras de controle que atuam ABSORVENDO OS NÊUTRONS, impedindo-os de induzirem fissões nucleares além daquelas desejadas. Essas barras podem ser inseridas ou retiradas do núcleo dos reatores (isto é, a parte que contém o combustível nuclear) a fim de diminuir ou aumentar o número de nêutrons disponíveis para as fissões.

Para manter a reação em cadeia auto-sustentada e controlada nos reatores nucleares, os nêutrons são a chave: deve haver um equilíbrio, a cada instante, entre o número de nêutrons que são "criados" e o número de nêutrons que "desaparecem" do reator. Já vimos, em outro post, que cada fissão nuclear pode liberar de 1 a 4 nêutrons. Logo, a fissão nuclear é um dos mecanismos pelos quais nêutrons são "criados" nos reatores e depende, basicamente, das características do material usado como combustível nuclear e da disposição e características fisicas e químicas dos diversos componentes do reator. Por outro lado, os nêutrons podem "desaparecer" de duas formas: ou escapando do núcleo do reator ou sendo absorvidos dentro dele. Esse "desaparecimento" é governado tanto pelo tamanho do reator, quanto pela disposição e características de seus diversos componentes.

Dessa forma, ao se projetar um reator nuclear, deve-se considerar, entre outras coisas, a quantidade e o tipo de combustível utilizado, quais os materiais estruturais mais recomendados para minimizar a absorção de nêutrons em materiais não físsies (isto é, que não sofrem fissão, como o Ferro, por exemplo), as distâncias entre um elemento combustível e outro, a posição e composição química das barras de controle e o tamanho do reator. A combinação de diversos componentes criteriosamente selecionados permite que reações em cadeia de fissão auto-sustentadas e controladas aconteçam de forma segura nos reatores nucleares.


Componentes dos reatores nucleares

Afinal, o que são estes componentes dos reatores nucleares dos quais eu tanto falo? Vamos ver, em linhas gerais, aqueles que são comuns à grande maioria de reatores.

1. Combustível nuclear: é parte do reator composta pelo material que vai sofrer a fissão nuclear. O material mais utilizado como combustível nuclear no mundo é o Urânio enriquecido, material composto, basicamente, por dois isótopos de Urânio: U-238 (mais abundante na natureza) e U-235 (o mais cobiçado para a fissão nuclear). A razão entre a quantidade de U-235 e a de U-238 é a medida do ENRIQUECIMENTO do material. Esse urânio enriquecido é processado e misturado a outros materiais para formar as estruturas que são de fato usadas nos reatores nucleares. Pastilhas cerâmicas de Óxido de Urânio, por exemplo, podem ser agrupadas dentro de um envoltório metálico de liga de zircônio para formar as varetas combustíveis, tipo de estutura utilizada nos reatores de Angra dos Reis.

2. Fluido refrigerante: fluido utilizado para remover o calor liberado pelas fissões nucleares no combustível. São utilizados, dependendo do tipo de reator, gases como Hélio e vapor d'água, líquidos como água e água pesada e metais líquidos como sódio. No caso das usinas de Angra, a água é utilizada como líquido refrigerante.

3. Barras de controle e segurança: componentes que absorvem nêutrons a fim de controlar ou até desligar o reator em caso de emergência. Para isso, são frequentemente utilizados Carbeto de Boro e ligas de Prata-Índio-Cádmio. Pode-se usar também ácido bórico diluído no refrigerante.

4. Refletor: materiais refletores são utilizados para minimizar a fuga de nêutrons do núcleo do reator, refletindo parte dos nêutrons fujões para dentro do núcleo novamente. Para esse fim, os principais materiais utilizados são água, água pesada, grafite e Berílio.

5. Moderador: material utilizado para diminuir a velocidade dos nêutrons, requisito necessário em alguns tipos de reatores (como os térmicos). Isso porque o nêutron originado na fissão nuclear apresenta uma velocidade muito alta, atravessando o reator quase sem interagir com o material do combustível. Em outras palavras, a chance desse nêutron rápido induzir uma nova fissão é muito baixa, mas essa chance aumenta se a velocidade do nêutron for menor, daí a necessidade de freá-lo. Materiais como água, grafite e Berílio são frequentemente utilizados como moderadores.

Percebam que cada um desses componentes tem sua importância para o correto funcionamento dos reatores nucleares.


Muita informação? E isso é só o começo... Ainda há muito "pano pra manga" nesse tema de reatores nucleares! Mas, hoje paro por aqui! Não quero dar (mais!) nós na cabeça de vocês!


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Um pouco de fissão nuclear

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Devemos ou não investir em novas usinas nucleares?

"A construção de usinas nucleares, por si só, não garante avanços significativos no domínio da tecnologia nuclear. A consolidação de nossa capacidade nuclear, inclusive para geração elétrica, depende de planejamento, projeto, desenvolvimento e construção de reatores, especialmente de pesquisa, no país." Dr. Ildo Sauer, coordenador do Programa de Pós-Graduação em Energia do IEE/USP e diretor de energia da Fiesp, em TENDÊNCIAS/DEBATES da Folha de São Paulo, 05/04/2011.


A ideia defendida pelo Dr. Ildo Sauer é a de que NÃO devemos investir em novos reatores de potência. Devemos aplicar recursos financeiros (isto é, uma parcela bem pequena daqueles previstos para novas usinas) apenas nos projetos de reatores de pesquisa, como o da Marinha e o RMB (Reator Multipropósito Brasileiro).

Você, leitor, concorda com essa ideia? Eu, não.

Quando li essa frase no texto do Dr. Ildo Sauer, algo me incomodou. Demorei um pouco para perceber o que era. Mas agora caiu a ficha (nossa, essa é velha!). Penso que essa conclusão, "a construção de usinas nucleares não garante avanços significativos no domínio da tecnologia nuclear", é um tanto quanto limitada e fora do contexto mais amplo da área nuclear brasileira. Eu explico.

O Brasil possui poucos reatores nucleares em seu solo. Temos dois reatores de potência (para geração de eletricidade) em funcionamento - Angra 1 e Angra 2 - e mais um em construção - Angra 3 (foto). Há também quatro reatores de pesquisa - o IEA-R1 e o IPEN-MB-01 em São Paulo, o Argonauta no Rio de Janeiro e o Triga Mark 1 em Belo Horizonte - e, como o próprio Ildo destacou, mais dois na fase de projeto - o da Marinha e o RMB (Reator Multipropósito Brasileiro). Nesse universo pequeno de reatores nucleares, toda a experiência adquirida nas etapas de construção, operação e manutenção dos reatores é extremamente importante para uma melhor compreensão e domínio da tecnologia nuclear em seus mais diversos aspectos.

O domínio da tecnologia nuclear inclui, além dos aspectos técnicos/tecnológicos, apectos de gestão. A gestão do conhecimento nuclear, por exemplo, é um conceito relativamente recente, que ganhou espaço internacional na década de 1990 (veja o esforço mundial da Agência Internacional de Energia Atômica). As pessoas são a componente mais importante nesse sistema de gestão e a criação de novos conhecimentos é um de seus subprodutos mais valiosos. Para um sistema de gestão do conhecimento funcionar adequadamente, as pessoas envolvidas devem estar dispostas a compartilhar e utilizar os conhecimentos existentes e a gerar novos conhecimentos de forma cooperativa.

Nesse sentido, embora o foco dos reatores de potência seja bem diferente daqueles dos reatores de pesquisa, é possível ocorrer (e ocorre!) uma sinergia entre eles. Vamos considerar, por exemplo, a importante questão da formação dos recursos humanos para a operação das usinas. A Eletronuclear, empresa responsável pela operação e manutenção dos reatores de potência brasileiros, tem décadas de experiência no treinamento dos operadores. Tal treinamento é licenciado pelo órgão regulador brasileiro, a CNEN (Comissão Nacional de Energia Nuclear), e inclui aulas teóricas e práticas em simuladores. Em Mambucaba (RJ), há um centro específico para esse treinamento, com locais apropriados para o ensino prático de tarefas de manutenção e com um simulador que reproduz a sala de controle de Angra 2, onde são treinados, além dos operadores da Eletronuclear, operadores de usinas estrangeiras (por exemplo, os argentinos da usina Atucha 1). E onde entra a sinergia nesse caso? Em primeiro lugar, parte desse treinamento dos operadores é, por norma, realizado em reatores de pesquisa. Em segundo lugar, para licenciar suas plantas, os futuros reatores (como o da Marinha e o RMB) terão que treinar seus operadores, podendo, para isso, aproveitar a experiência da Eletronuclear nesse assunto.

Além disso, a Eletronuclear absorve boa parte da mão-de-obra altamente especializada em tecnologia nuclear. Isso significa que os mestres e doutores formados na área de engenharia de reatores, por exemplo, podem permanecer em suas áreas de formação graças à Eletronuclear. Isso é particularmente importante porque a maior parte do pessoal que está hoje no setor é da geração de formados entre 1975-1980, e estão para se aposentar. É necessário haver uma superposição no mercado de trabalho entre quem está saindo e quem está entrando para que haja a transferência do conhecimento.

No Brasil, o setor público é o principal responsável pela oferta de empregos na área de reatores nucleares e suas áreas correlatas (combustível nuclear, análise de segurança, etc.). Uma rápida análise dos editais de concursos públicos realizados entre 2007 e 2011 (figura abaixo) revela a importância da Eletronuclear nessa oferta de empregos: ela, sozinha, é responsável por 52% da oferta de cargos para Engenheiros e Físicos, basicamente.


Para que ocorra um crescimento do setor nuclear brasileiro como um todo, incluindo aí as pesquisas e as diversas aplicações da tecnologia nuclear, a existência de mão-de-obra qualificada é fundamental. Precisamos de braços e cérebros na área nuclear brasileira! Pergunto ao leitor: como atrair jovens profisionais para se especializarem na área se não houver uma expansão da oferta de empregos no setor? Você dedicaria quatro anos da sua vida (mestrado + doutorado ou graduação na área) estudando algo que, na prática, tenha um mercado de trabalho reduzidíssimo? A formação de mão-de-obra qualificada vem aumentando na última década em função da construção da usina de Angra 2 (no final da década de 1990) e da promessa de crescimento do setor feita pelo Programa Nuclear Brasileiro. Esse crescimento é mostrado na figura abaixo para o caso do IPEN (Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares em São Paulo), o maior formador brasileiro de mão-de-obra especializada na área nuclear. Note que somente a partir do final da década de 1990 é que o número de titulados ultrapassa aquele do final da década de 1970.

Investimentos em estudos científicos e desenvolvimento tecnológico são importantíssimos para a área nuclear, concordo. Mas o desenvolvimento das aplicações comerciais (e a consequente ampliação do mercado de trabalho) também o é! Somente quando estas três esferas (ciência, tecnologia e mercado) se desenvolverem juntas, a área de aplicações nucleares brasileira consiguirá crescer.

Tudo isso para dizer que, diferentemente do que foi defendido pelo Dr. Ildo Sauer, os investimentos em reatores de potência (uma das aplicações comerciais da tecnologia nuclear) são importantes sim para a consolidação de nossa capacidade nuclear.

Por fim, cabe ressaltar que "investimentos em reatores de potência" não siginfica abraçar a geração nucleo-elétrica de forma a torná-la nossa principal fonte de geração de energia! Não! A proposta de investimentos no setor é bem mais modesta que isso: ampliar a participação da energia nuclear na geração de eletricidade dos atuais 3% para 5%. Isso mesmo: só 5%!


Deixo aqui um apelo aos leitores: antes de dizer não às usinas nucleares, considere as implicações que isso pode acarretar ao setor nuclear brasileiro como um todo (inclusive nas aplicações médicas). Pense nisso!

sábado, 9 de abril de 2011

Documentário: Tecnologia Nuclear - Maravilhas Modernas

Acabei de ver um documentário sobre tecnologia nuclear que não evoca exageradamente aquele drama sensacionalista que frequentemente é propagado pelas mídias que tratam esse assunto.

A expressão "tecnologia nuclear" abrange diversas aplicações, sejam elas passadas, presentes ou futuras, maléficas ou benéficas, militares ou civis. O documentário Tecnologia nuclear fornece uma visão geral desse tema tendo os Estados Unidos como palco. Ele foi lançado pelo History Channel em 2004 como um episódio do programa Maravilhas Modernas. Eu recomendo.


Parte 1: Exploração aeroespacial, introdução geral, história da bomba atômica.



Parte 2: Armas nucleares, submarinos nucleares, átomos pela paz, explosões nucleares pacíficas, reatores nucleares, acidentes nucleares.



Parte 3: Acidentes nucleares, bombas sujas, detectores de radiação.



Parte 4: Irradiação de alimentos, aplicações domésticas, relógio gama, relógio atômico, medicina nuclear, energia por fusão nuclear.



Parte 5: Energia por fusão nuclear.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Um pouco de fissão nuclear

Fissão nuclear é o processo pelo qual um núcleo pesado parte-se em dois ou mais fragmentos, com liberação de energia e emissão de nêutrons. Este processo pode ser espontâneo ou induzido. Espontâneo significa que não é necessário fornecer energia ao núcleo para ele fissionar, como no caso do Califórnio-252. Entretanto, esse processo espontâneo acontece raramente. Para que a haja uma probabilidade grande da fissão ocorrer, é necessário fornecer energia ao núcleo para iniciar o processo.

A maneira mais comum de fornececer energia ao núcleo é através de nêutrons. Experimentos de bombardeamento por nêutrons de alvos constituídos por diferentes elementos químicos da tabela periódica iniciaram-se na década de 1930 sob a liderança de Enrico Fermi. O processo de fissão nuclear foi hipotetizado e verificado experimentalmente no começo de 1939. O primeiro modelo detalhado do processo de fissão foi desenvolvido por Niels Bohr e John Wheeler em 1939 e ficou conhecido como modelo da gota líquida, em analogia ao comportamento das gotas.

Opa, como assim a fissão nuclear foi relacionada com gotas de líquidos? Pois é, observem o comportamento dessa gota de água no vídeo abaixo:



Repararam nas oscilações e deformações que a gota sofreu? Pois é daí que surgiu a ideia de relacionar fissão nuclear e gotas! Eu explico.

Lembram-se da força eletrostática entre partículas carregadas lá do colégio? E daquela idéia de que os opostos se atraem? Pois é, entre duas partículas carregadas com cargas elétricas de sinais diferentes (uma positiva e a outra negativa), existe uma força de atração que quer aproximar essas partículas. Por outro lado, entre partículas carregadas com cargas de mesmo sinal (positivas, por exemplo), existe uma força repulsiva que tenta afastar uma partícula da outra. Em um núcleo, formado por prótons e nêutrons, tanto a força eletrostática repulsiva entre os prótons (que têm cargas positivas), quanto a força nuclear atrativa entre os núcleons (prótons e nêutrons), estão agindo. Assim, em um núcleo estável, temos um jogo de forças: a força nuclear é suficientemente mais forte que a eletrostática para manter o núcleo íntegro.

Pois bem, imagine agora que um núcleo absorveu um nêutron e formou um núcleo composto (núcleo original + nêutron) com mais energia interna. Depois da absorção do nêutron, o núcleo começa a oscilar e se torna distorcido, como a gota no vídeo acima. Se essa oscilação gera uma forma parecida com a de um halter (aquele pesinho de ginástica), forças eletrostáticas de repulsão entre os dois nódulos formados podem se tornam mais fortes que as forças nucleares atrativas de curto alcance. Nesse caso, os nódulos afastam-se uns dos outros, culminando na fissão. Pensando em termos de forças, ao conseguir separar um núcleo, a fissão representa a vitória extrema da força de repulsão eletrostática!

Nesse processo de separação dos nódulos, de um a três nêutrons podem ser liberados. Livres, eles podem interagir com outros núcleos, induzindo novas fissões. Estas podem liberar mais nêutrons livres que podem interagir com outros núcleos, induzindo novas fissões que podem liberar mais nêutrons livres que... e assim vai! O resultado final é a chamada REAÇÃO EM CADEIA.

Muito confuso? Veja o vídeo abaixo:

video

*IMPORTANTE: Essa explosão no final nem sempre ocorre!!! A reação em cadeia pode ser controlada (como acontece nos reatores nucleares) ou não (como na bomba atômica, aí sim resultando na explosão).

Vale ressaltar que as características essenciais do modelo da gota líquida para a fissão são aceitas até hoje. Na verdade, o ANTES e o DEPOIS da fissão são bem conhecidos, mas o que ocorre DURANTE a fissão ainda não é totalmente entendido e há físicos nucleares no mundo inteiro pesquisando esse tema.

Note que ao se partir, o núcleo composto busca alcançar configurações mais estáveis do que a inicial. Entretanto, isso não significa que os produtos da fissão atinjam a estabilidade logo de cara. No processo de fissão, o núcleo composto gera dois produtos de fissão que podem ou não ser radioativos. Se esses produtos de fissão forem radiativos, esses núcleos "pai" podem gerar núcleos "filhos" radioativos (ou não!). Os "filhos" radioativos passam a emitir radiação beta e gama buscando também alcançar configurações mais estáveis. Mas os núcleos "netos" também podem ser radiativos e emitem... e assim vai, até que núcleos estáveis sejam alcançados. Essa "família" de núcleos é conhecida por CADEIAS DE DECAIMENTO dos produtos da fissão.


O Urânio-235, por exemplo, muito utilizado em reatores nucleares, ao se fissionar, tem grandes probabilidades de formar um núcleo com número de massa (prótons + nêutrons) aproximadamente 95 e outro com número de massa em torno de 137. A figura ao lado mostra justamente isso: a probabilidade (eixo y) de formação de núcleos com diferentes números de massa (eixo x) a partir da fissão do U-235. Notaram a corcova de camelo com picos em 95 e em 137? Essa figura mostra também a cadeia de decaimento de dois produtos de fissão bastante prováveis: o Xenônio-140 e o Estrôncio-94. O "T" da figura é o tempo de meia vida de cada núcleo, isto é, o tempo que leva para metade dos núcleos de uma amostra (que contém muuuuitos núcleos) decaírem.

Pois é, eu falei que energia é liberada na fissão. Mas, por quê? Existe uma pequena diferença de massa entre o núcleo composto e os produtos resultantes da fissão (pois é, na física nuclear a massa nem sempre se conserva, mas a energia sim!). Na fissão, essa pequena diferença de massa é liberada na forma de energia, seguindo a famosa equação de Einstein: E=mc². Aproximadamente 81% da energia liberada nesse processo está na forma de energia cinética dos produtos de fissão (lembram do colégio? Aquela relacionada à velocidade). Cerca de 13%, resulta do decaimento dos produtos de fissão, enquanto que 3% da energia é emitida como radiação gama liberada durante a fissão. Os últimos 3% manifestam-se na energia cinética dos nêutrons emitidos na fissão.

Nossa, esse post ficou grande! Pra acabar, segue uma piadinha!


* Tradução: NA CASA DE REPOUSO PARA ÁTOMOS VELHINHOS: Quando eu era jovem, eu me sentia tão vivo, tão perigoso! Na verdade, você acredita que eu comecei a vida como um Urânio-238? Então um dia eu acidentalmente ejetei uma partícula alfa... olhe para mim agora, um velho átomo de Chumbo-206 desgastado. Parece que toda a minha vida desde então não parou de decair, decair, decair...

terça-feira, 5 de abril de 2011

Exploração aeroespacial + Capitão Fodão!

Antes de mais nada, desculpem-me pela demora entre uma postagem e outra. A boa notícia é que estou aprendendo a usar novos softwares para preparar um material bem bacana e em português sobre os fenômenos e tecnologias nucleares!

Trouxe dois tópicos pra vocês hoje. O primeiro trata de uma aplicação bem interessante da tecnologia nuclear: a exploração aeroespacial! É, é isso mesmo! Famosas missões espaciais como a Pioneer 10 e 11, a Apolo, a Galileo e as Voyager foram e são alimentadas por dispositivos que convertem em eletricidade o calor de decaimento gerado por elementos radioativos. Confira o texto completo no blog Café com Ciência.

O segundo tópico é na verdade uma animação. Apresento-lhes o Capitão Fodão! Um galã que foi covocado para a guerra, mas que, em sua primeira missão, foi atingido por uma bomba. As "ondas nucleares" combinadas com o supergel que ele usava (!) causaram alterações nas células de seu cérebro, transformando-o no Capitão Fodão! Por ora, confiram esse curta, de fato muito engraçado, feito para o “The Animation Workshop”. Num post futuro (em breve!), falarei sobre como os conceitos nucleares são apresentados nos desenhos animados que passam na TV e nas animações que circulam na net!

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Dica de livro - Energia Nuclear: do anátema ao diálogo

Quando o assunto é nuclear, o único tópico em que há concenso é quanto à não proliferação dessa tecnologia para fins bélicos. O resto é uma briga danada!
Antes de encarar um debate sobre a geração de energia núcleo-elétrica, mais especificamente no caso brasileiro, convido todos a uma leitura que aborda os aspectos positivos e negativos desse tema.
O livro Energia Nuclear: do anátema ao diálogo, organizado pelo professor José Eli da Veiga da FEA/USP, reúne quatro especialistas sobre o assunto para abordar as vantagens e desvantagens de novos investimentos em usinas nucleares para a geração de energia elétrica no Brasil. Defendendo novos investimentos, temos o Dr. Leonam dos Santos Guimarães e o Dr. João Roberto Loureiro de Mattos. Contra, há o Dr. José Goldemberg e o Dr. Oswaldo dos Santos Lucon.
Lançado no dia 16 de Março desse ano e publicado pela Editora Senac, o livro custa em média R$ 35,00.

Boa leitura!